À noite todos os gatos são pardos: cinco cangaceiros tiveram as mesmas alcunhas

Atualizado: Abr 29

Por João Costa


Os apaixonados pelas narrativas sobre o cangaço sabem do apreço que os cangaceiros tinham pelos cães, eles até foram destaques em fotos e no filme de Benjamim Abraão e tinham nomes garbosos: Guarani e Ligeiro, mas o primeiro deles foi Dourado; não se sabe da existência de felinos nos bandos, mas cangaceiros com a alcunha de Gato foram cinco.


Santílio Barros, Gato e Inacinha, eram indígenas da tribo Pankararé/Pankararu


Na língua portuguesa a expressão popular “à noite todos os gatos são pardos” remete ao conceito de que Todas as coisas São semelhantes ou Iguais no escuro, mas no cangaço nomes eram repetidos para esconder a identidade do novo cangaceiro e causar dúvida sobre se o cangaceiro que o antecedeu realmente morrera.


O ex-soldado de volante João Gomes de Lira em seu livro de memória resgata sem dar muitos detalhes a existência de um cangaceiro chamado Gato, tratado pelo diminutivo de Gatinho. Está incluído na lista dos “cabras” de Lampião, ninguém sabe o que fez, se morreu em tiroteio ou se simplesmente sumiu do mapa.


Na história do cangaço todos os Gatos foram celerados a começar por Marcolino Jerônimo de Almeida, ou cangaceiro Gato Vermelho, chefe de um grupo que atuava com o bando dos Porcinos; se associou ao cangaceiro Antônio Matilde (tio de Lampião) e a Sinhô Pereira e, claro, também a Lampião quando este se tornou chefe.


Como cabra de Sinhô Pereira, esse Gato, se destacou nos entreveros entre Sinhô Pereira, os Irmãos Ferreira (Virgulino e Antônio) contra os homens de Zé Saturnino e da família Nogueira.


Em fevereiro de 1922, sob a batuta de Sinhô Pereira esse cangaceiro Gato participou do ataque a fazendeiros ricos de Catolé do Rocha, na Paraíba, assalto este que rendeu uma fortuna em ouro, prata e dinheiro vivo, um butim que foi parar diretamente nos bolsos do financiador do ataque, major e coiteiro José Inácio do Barro, do Crato (CE).


Virgulino Ferreira também esteve nesse ataque, atuando sob as ordens de Sinhô Pereira. Mais tarde, lá estava Gato em outro ataque exitoso, desta feita liderado por Lampião, à fazenda da baronesa de Água Branca.


Esse cangaceiro Gato foi preso um tempo depois em Buíque (PE), cumpriu pena e depois se escafedeu sem deixara rastros.


Em seguida surgiu o cangaceiro Santílio Barros, que também atendia pela alcunha de Gato, indígena Pankararé que tinha como companheira Inácia Maria das Dores, Inacinha, também indígena da tribo Pankararé/Pancararu.


Esse Gato tem uma folha corrida extensa de combates, saques, sequestros, estupros, incêndios e assassinatos.

Fazia para Lampião o serviço sujo, de “limpar o terreno”, isto é, matar os desafetos de Virgulino no próprio bando e foi atendendo ordens do chefe, por exemplo, que Gato assassinou companheiros de bando Mourão II (seu próprio primo e cunhado) e Mormaço II.


Suposto cangaceiro Bemtivi: fugiu para Minas Gerais após triângulo amoroso que resultou em mortes


Os dois foram sentenciados à morte por Lampião por terem tumultuado um forró em casa de um coiteiro bem relacionado e com familiares no próprio cangaço; Mormaço e Mourão espancaram e violentaram duas filhas do referido coiteiro, e encontraram sentença final pelas mãos de Santílio.


Gato não parou por aí; tempos depois e também por ordem de Lampião, coube a ele a missão de executar Coqueiro II – o dito cangaceiro que chantageou Lídia, de Zé Baiano, após descobrir o seu romance com o outro cangaceiro, o Bemtivi em julho de 1934.

Gato tinha ordens para também dar fim em Bemtivi, mas este não esperou tempo ruim, tratou de desaparecer e fugir para Minas Gerais.


Santílio Barros foi baleado num tiroteio com civis durante ataque ao município de Piranhas (AL) quando tentava resgatar sua amada, morrendo de hemorragia três dias depois – onde seus comparsas o enterraram ainda é um mistério.


Gato morto, Gato posto.


Existiu também um cangaceiro de epíteto Gato Elétrico, um facínora ribeirinho do lado baiano do rio São Francisco, que se juntou ao bando de Lampião por pouco tempo; era temido, considerado implacável e sanguinolento – matava qualquer um sem qualquer motivo, a começar pelos parentes.


Quando ingressou no cangaço, desconfiado de que havia sido delatado à polícia por parentes seus, fuzilou cinco da própria família, um tio e quatro primos.


Tinha por hábito atirar e perguntar depois.


Esse Gato Elétrico não tinha sete vidas e durou pouco, perdeu energia ao se deparar com a volante do sargento João Alexandre, foi fuzilado e enterrado na caatinga.


Existiu, também, um certo Josias Vieira, alcunha de Gato Preto ou Gato Brabo, natural de Santana de Ipanema(AL), rapaz pacífico, mas que se tornou cabra habilidoso com uma peixeira de 12 polegadas.


Era filho de um marchante chamado Antônio Mole, cidadão que não queria confusão com ninguém e exatamente por isso, passou a ser assediado, extorquido e agredido, recorrentemente, por um tal Cassimiro, sujeito tido como desordeiro com fama de brabo.


Certo dia de feira, estava lá seu Antônio Mole com seu banco de carne, quando o tal Cassimiro apareceu, queria levar carne na “mão grande”, na base do fiado sem data para pagar e ainda partiu para dar uns bofetes em seu Antônio.


Josias estava presente, saiu em defesa do pai, puxou da bainha sua peixeira de 12 polegadas de cortar carne super amolada e deixou o tal Cassimiro feito uma peneira no meio da feira. Foi preso pelo delegado do lugar e, posteriormente solto pelo juiz, que entendeu como legítima defesa o ato do rapaz.


Esse cangaceiro Gato Brabo acompanhou Lampião na entrada triunfal em Juazeiro do Norte, tempo depois foi capturado e recambiado para Penitenciária de Maceió onde cumpriu pena e acabou beneficiado pela anistia de Getúlio Vargas em 1938/39.


Mereceu referências dos poetas populares que a ele se referiam assim:


Tem o Josias Vieira

Por Gato vulgarizado

Este é pior que um Tigre

Pois se vendo aperreado

Não perde o prumo da mão

Filho de marchante não perde

O prumo da mão

Nem sofre do coração

Na luta era desassombrado.


Fonte de consulta: Cangaceiros de Lampião – de A a Z, segunda edição, de Bismarck Martins de Oliveira.

Imagens de Benjamim Abraão.




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