1930: “Tamanduá Vermelho”, de cangaceiro a implacável chefe de Volante na Revolta de Princesa

Na historiografia do Cangaço chama a atenção trajetórias improváveis de homens violentos que pegaram em armas, abraçaram crime e depois, por força do destino, viraram braço da lei - ou vice-e-versa. Neste século XXI, tantos anos após o cangaço, dispensemos julgamentos morais e procuremos entender homens como eles são e suas circunstâncias.

De volta à cena, Clementino Quelé! Que começou a “vida das armas” como comissário de Polícia; caiu em desgraça ao prender ladrões de cavalos (gente rica) e passa a ser perseguido pela própria polícia para depois tornar-se cangaceiro dos mais celerados.

Imagem: casarão do coronel Marcolino Diniz, alvo de ataque de Clementino Quelé


Após contratempos no cangaço muda de lado e vira sargento de volante implacável, para depois recursar uma Revolta e tornar-se, de novo, agente militar do governo da Paraíba dos mais eficientes e terminar seus dias sem glória na reserva. Uma vida embaralhada.


No início dos anos 20 do século passado, a polícia de Pernambuco move contra Clementino Quelé, líder de bando ao lado do seu irmão José Furtado, tenaz perseguição; nessa condição, busca abrigo no bando de Virgulino Ferreira da Silva; uma junção de forças que não acaba bem.


Quelé se desentende com o cangaceiro Meia Noite, cabra importante no bando. O chefe, Vigulino Ferreira toma partido e fica do lado de Meia Noite, provocando um racha irreconciliável.


Meia Noite era negro; Quelé, homem branco, teve uma reação racista, muito comum nos sertões nordestinos.


- Lampião teria dado mais valor a um negro do que a ele”, foi a reação de Quelé, que de Lampião ganhou o apelido de “Tamanduá Vermelho”.


Clementino Quelé; ex-cangaceiro de Lampião. tornou-se sargento da PM da Paraíba pela ação de cel. Zé Pereira


Agora Clementino Quelé tem em seu encalço a Polícia de Pernambuco e Lampião. Com esses dois “pequenos problemas”, Quelé busca guarida na Paraíba, onde recebe proteção do coronel Zé Pereira que o recruta para a polícia, já com a patente de sargento.


Antes de entrar para polícia, Quelé enfrenta Lampião que mata em combate dois de seus irmãos, um genro e um compadre e deixa feridos muitos na família, além de 3 casas incendiadas.


Nas feiras livres, poetas populares reportam para os sertanejos a guerra entre Lampião e Clementino:

“Quilimintino Quelé/Está zangado e com razão/No fogo de Santa Cruz/ perdeu ele dois irmãos.”


Lá por volta de 1925 Lampião recebe o troco, em Custódia. Pela primeira vez, Virgulino Ferreira sofre um ferimento sério, e o poeta popular assim reportou:


“Lampião diz que é valente/ É mentira, é corredor/ Está andando de muleta/ Seu Quelé foi quem botou.


Entre escaramuças e tiroteios intermináveis, Lampião ferido é removido para a Serra do Catolé, São José do Belmonte, onde fica a imponente Pedra do Reino. Em seu socorro, seguem Cícero Costa, espécie de paramédico do bando de Lampião e os cangaceiros Antônio Ferreira, irmão de Lampião, e Lavandeira.


Novo enfrentamento em que ficam baleados Cícero Costa e Lavandeira


Os dois são capturados e sangrados por Clementino Quelé.


Antônio Ferreira, sem munição, desprovido para o combate, a tudo assiste de longe tendo uma moita como esconderijo sem nada poder fazer. Foi o seu relato ao chefe Lampião, que fora removido, de novo, desta feita para Patos do Irerê, na Paraíba, onde recebeu tratamento médico providenciado pelo coronel Marcolino Diniz.


A aventura de Clementino Quelé na Paraíba não foi menor, que a sua cavalgada de guerra em Pernambuco, onde tocava o terror em perseguição a Lampião.


Em fevereiro de 1930, questões políticas entre os coronéis da região de Princesa Isabel e o governo da Paraíba demandam na Revolta de Princesa, liderada pelo coronel Zé Pereira, que forma um exército de quase dois mil homens para enfrentar o governo. E cobra lealdade do sargento e chefe de volante Clementino Quelé, a quem protegeu e promoveu.


Mas o “Tamanduá Vermelho” tinha outros planos: recusa a Revolta e renega Zé Pereira, permanecendo fiel à Polícia Militar e ao presidente João Pessoa. Quelé, na condição de simples sargento tem acima dele oficiais a quem deve obediência; com o diferencial de ser homem experimentado na guerra. Os tenentes lideravam, mas quem comandava de verdade no campo de batalha era Quelé.


O coronel Zé Pereira tem ao seu lado o primo e também coronel Marcolino Diniz; os dois agrupam em Princesa o grosso da tropa de revoltosos contra o governo do estado. A situação está nessa tensão, quando Quelé, comandando 60 soldados, cerca e ocupa o casarão de Patos do Irerê, residência de Marcolino Diniz, fazendo reféns Dona Xandu, esposa de Marcolino, sua filha adotiva e uma outra senhora.


Marcolino Diniz e alguns homens de sua tropa de jagunços durante a Revolta de Princesa, em 1930


Objetivo: marchar sobre Princesa Isabel, usando as mulheres como escudo e forçar a rendição dos revoltosos. Um ardil que não prosperou, pois o coronel Marcolino Diniz corre em socorro da sua esposa dona Xandu, tendo sob seu comando 300 homens entre jagunços e cangaceiros.


Quelé foi encurralado dentro do casarão com seus 60 homens e as reféns. Do lado de fora Marcolino Diniz e 300 homens em armas; trava-se, então, o “tiroteio do fim do mundo”, que começa no meio da tarde; além da desvantagem Clementino dispõe de pouca e péssima munição.


Anoitece e, de repente, cai uma chuva torrencial. O tiroteio não cessa, a munição falha e escasseia. Clementino e alguns soldados aproveitam o escuro e o “dilúvio”, escapam por uma janela, deixando para traz dezenas de seus soldados mortos. Antes de escapar, deixa sua assinatura: resolve explodir tudo, arremessando uma granada dentro da casa; por conta do aguaceiro a detonação falha. Mas o “Tamanduá Vermelho” ganha o “ôco do mundo”, mais uma vez.


Quelé era analfabeto, o que fez ele permanecer nas fileiras da polícia da Paraíba apenas com a graduação de sargento. Morreu velho na cidade de Prata, próximo ao município de Monteiro.


João Costa

Fontes de consulta: “Apagando Lampião”, de Frederico Pernambucano de Mello

Fonte de consulta. José Tavares, escritor paraibano e pesquisador do Cangaço

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