1936: Virgínio Fortunato espalha o terror em escalada por Pernambuco até a Paraíba

Por João Costa


No ano de 1936, instalado confortavelmente em coito seguro no estado de Alagoas, Virgulino Ferreira da Silva, muda o modus operandi de seu bando, adotando a prática de extorsão a fazendeiros e comerciantes despachando bilhetes em todas as direções, ao invés de, pessoalmente, comandar ataques e razias – bem ao estilo da Máfia.


Virgínio Fortunato(C) em cena para filme documentário do libanês Benjamim Abraão


Despacha quatro lugares-tenentes, chefes de subgrupos, Cristino Gomes, o Corisco, Francelino José, o Português e Luiz Pedro, todos sob o comando de Virgínio Fortunato em direção a Pernambuco, que empreendem uma jornada sangrenta de extorsão, saques, estupros, sangramento de sertanejos que encontravam pela frente; numa ferocidade que banha de sangue especialmente a Paraíba, último destino de Fortunato e seu grupo.


A horda atravessa Pernambuco praticamente em segredo, devido à prática de cortar os fios dos ramais telegráficos importantes; tanto assim que a direção dos Correios e Telégrafos manda consertar os danos causados por Virgínio e seus liderados a fim de recuperar o tráfego de mensagens entre agências da “Parahyba, Crato, Petrolina e Bahia, para reestabelecer as comunicações com o alto sertão pernambucano”, reportam matérias dos jornais do Recife.


Cristino Gomes, o Corisco(E), Dadá(D), e seu bando fotografados pelo libanês Benjamim Abraão


Os subgrupos comandados por Corisco, Português, Luiz e Pedro e Fortunato se dividem, seguem rotas distintas; tendo Virgínio Fortunato tomado a dianteira alcançando a Paraíba, porque ele mesmo, tinha interesses em certas áreas daquele estado.


- O compadre Virgínio tinha pressa; escalamos Pernambuco, logo capturamos um roceiro, que foi forçado a servir de guia e que levou o bando até Monteiro, Paraíba, reportou anos depois, o cangaceiro Antônio Ignácio, o Moreno.


Virgínio e seu bando ao tempo em que enchem os bornais de dinheiro e joias, deixam para trás um rastro de atrocidades e sangue. Em São Sebastião do Umbuzeiro, próximo a Monteiro, o comércio foi saqueado e um senhor de nome Pedro Alcântara, fiscal de renda do Estado da Paraíba e seu auxiliar fiscal de renda, Sebastião Barba, são capturados.

Os dois foram revistados e em seus matulões muito dinheiro de impostos foi encontrado. Pedro Alcântara não esboçou reação e, em silêncio, ouviu a sua sentença:


- Matem esse cabra, ordenou Virgínio Fortunato.


O fiscal de rendas da Paraíba levou três tiros à queima-roupa, o último na cabeça e em seguida foi sangrado.

Sebastião Barba, o funcionário auxiliar da Mesa de Rendas, aproveitou uma oportunidade para tentar escapulir. Foi alvejado com dois tiros nas costas disparados por Virgínio.


Ferido, Barba encontra forças para se arrastar e tentar entrar no mato.


- Sangrem também este cabra! Ordenou o cunhado de Lampião.


Virgínio e o bando seguem em frente em direção a Monteiro levando na frente um guia, chamado Zé Cobra, também forçado a dar orientação aos celerados, até uma fazenda próxima pertencente a senhor José Venâncio, que teve a casa cercada e a esposa tomada como refém.


Sem dinheiro vivo ou joias em casa, Venâncio presenciou sua esposa, senhora Joaquina Maria, ser banhado em álcool, ao tempo em que Virgínio acendia o fósforo para incendiá-la, pois o bando não pretendia deixar a fazenda de mãos vazias.

O casal foi salvo pelo próprio guia do bando, que se comprometeu levantar na vizinhança dois contos de réis como forma de pagamento pela vida do casal.


Nessa escalada o bando atravessou São João do Tigre, onde nas redondezas saquearam moradores da zona rural, amealhando a importância de dez contos de réis. Os moradores relataram dois estupros no Riacho do Fundão, já na divisa Paraíba-Pernambuco – uma das vítimas foi morta.


Numa localidade chamada Fundão de Cima, Virgínio se deteve para ajustar contas com um senhor de nome Melquiades Ventura, seu desafeto dos tempos em que o próprio Virgínio sequer era cangaceiro.


- Prepare-se para morrer, sua hora demorou, mas chegou, Melquiades. Deixei Alagoas, atravessei Pernambuco e estou aqui para um ajuste de contas, disse Virgínio para o seu desafeto.


Ventura foi executado por Virgínio com um tiro na testa, seus olhos arrancados e jogados aos cachorros.



Reestabelecida a rede de comunicação dos Correios, os telegramas despachados de capital da Paraíba e do Recife, inundavam delegacias e postos de volantes relatando a sangrenta escalada de Virgínio até a Paraíba, uma jornada que rendeu ao bando a bagatela de 50 contos de réis.


Rapidamente as polícias da Paraíba e Pernambuco fizeram a junção de cinco volantes, uma delas liderada pelo tenente Manoel Neto, que chegou a alcançar o bando, sem lograr êxito.


Virgínio Fortunato mantinha-se furtivo, igual seu chefe Virgulino Ferreira, quando de embornais cheios.


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Fontes Lampião: a Raposa das Caatingas, de José Bezerra Lima Irmão.

Lampião na Paraíba – Notas para a História, dr Sérgio Augusto de Souza Dantas.

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