Censura às artes ensaia vencer e o país segue surfando na maré do obscurantismo

O sentimento obscurantista no Brasil se agiganta, ecoa como um trovão, multifacetado, e sua face mais visível é o recurso à censura. Ao contrário das décadas de 1970/80, de novo, hoje temos de enfrentar, discutir e denunciar a ação dos censores, surjam eles dos credos religiosos, moralistas da hora ou da mídia. O fato é que nos deparamos não apenas com a censura estatal(classificatória), mas a econômica que toma corpo pela via do incentivo e a mais imediata – a judicial.

Lembro de um tempo em que censura da Polícia Federal atormentava a produção cultural – grupos de teatro e cinema – de forma até truculenta, e mesmo assim enfrentávamos. Enfrentava-se o Estado e seus tentáculos.

Por diversas vezes, pessoalmente, fui obrigado a cortar falas de textos teatrais (páginas, cenas inteiras), explicar cenários para o policial-censor que não entendia o que via, e até suprimir trilha sonora porque uma peça minha começava ao som a “Abertura 1812”, de Ilitch Tchaikovsky, logo, quatro vezes comunista.

- Como assim? Perguntei ao censor federal.

-Está escrito aqui, a música é russa, o autor é Ilitch Tchaikovsky; é o mesmo que Ilich, o nome de Lenin, e a peça incita os operários contra os patrões, respondeu o policial.

E eu tive que negociar para a música permanecer, mas em troca mutilei o texto. Era assim na Ditatura Militar. A censura, como existia, executada por um agente do estado, não existe mais. Ela era prévia – agora é pós.

Ela, a censura, como existia na ditadura, não existe mais – repito. Volta pior e a galope, com endosso de jornalistas, editores, pois embalada em sentimento político de ódio e intolerância de forças obscurantistas que alegam proteger a família, a religião, os bons costumes e as crianças. Mas de qual família, religião, moralidade ou crianças esses cruzados de hoje fingem defender?

Certa feita, no meio de uma apresentação em Cajazeiras, no Teatro Íracles Pires, de “Um Edifício Chamado 200”, de Paulo Pontes, peça que dirigi para o Ideodrama, o juiz local mandou parar o espetáculo, sob a ameaça de prisão.

- A atriz exibia seios no espetáculo e em cima de uma cama redonda e acena insinuava “repugnante” ato de sodomia, argumentou a autoridade judicial. Exibi do certificado de censura – que foi solenemente ignorado.

Já em Catolé do Rocha, freiras católicas e um delegado de polícia me encostaram num canto de parede exigindo interromper a apresentação da peça que trazia o nome “A Família”, mas em cena, os atores e atrizes manipulavam um falo gigante – uma ofensa ao público que vibrava e gargalhava com o ator Hércules Félix, interpretando Abelardo Barbosa, o Chacrinha. De novo, entreguei o certificado de liberação da Censura Federal, que podia valer no país inteiro, menos em Catolé do Rocha, não naquele momento.

A censura como existia não existe mais. E eu que imaginava ser coisa do século passado, mas neste século, a censura não é mais uma ameaça do estado policial, ela é manifesta coletivamente e politicamente. A truculência policial e o tacape judicial aparecem depois em socorro dessa Cruzada.

Modalidades de censura que pouco depende do estado

Quem é do meio agora já fala em três tipos de censura: a classificatória, feita pelo estado, e que recentemente foi utilizada para causar danos econômicos, inclusive para filmes, que antes receberiam classificação livre, mas devido a viés ideológico do elenco, e diretores, recebeu classificação 18 anos, reduzindo assim o público.

A censura econômica. Apontam que esta resulta das leis de incentivo, que são uma forma de censura. Se os patrocinadores são bancos, multinacionais, empresas estatais ou privadas, o conteúdo certamente não pode contestar ideologicamente seus patrocinadores.

Por último, a censura togada. Qualquer juiz pode retirar uma peça de cartaz, suspender uma exposição, cancelar a exibição de um filme. Basta alguém, ou um segmento social se sentir ofendido e com poder aquisitivo suficiente para calar, suprimir a liberdade de expressão de forma legal.

O estado é de exceção e o efeito manada toca o terror destruindo reputações, promovendo linchamentos morais, na tentativa de impor o pensamento único ou alinhado com o novo normal estabelecido pós-2013 – o ano em que tudo parece ter começado.

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