Vendo Pombal pela janela do Rói-couro – a essência do novo livro de Jerdivan Nóbrega

Amigos, pelas veias subterrâneas de Pombal corre um rio literário mais caudaloso que o “velho Piancó” em tempos esquecidos de cheias. Não sei se a cidade já se deu conta, mas lançamento de livros de autores pombalenses virou coisa recorrente – e prazerosa. Uso o termo para “Memórias Tristes do Rói-couro de Pombal”, do historiador Jerdivan Nobrega de Araújo, disponível na Livraria do Luiz, na Galeria Augusto do Anjos, pela Editora Imprell.

Digo prazeroso porque, se há uma fórmula eficaz para traçar o perfil de uma sociedade dita provinciana, é recapitulando casos ou “causos”, fatos; reconstruir perfis de prostitutas, bêbados, proxenetas e músicos de uma cidade. Um esboço sincero do autor, acredito, em reconstruir o universo pombalense daqueles que não fizeram sucesso na política, no clero, comércio ou na advocacia, mas de pessoas anônimas, despedaçadas, e que mesmo assim foram mais que um estorvo – literalmente uma referência.

Pela sua brevidade e concisão, bem como pela sobriedade de recursos linguísticos, este conto de Jerdivan resgata algo que talvez possa ser definido como esplendor dos cabarés de Pombal; devolve a dignidade negada a muitas mulheres, rainhas da alcova, além de evocar cenários como a Brasil Oiticica, da qual resta apenas a chaminé, a Estação Ferroviária, que se mantém feita uma ilha num vasto terreno cujos trilhos ligam o nada a coisa nenhuma – além, e precisamente, a rua por trás da linha do trem.

Esta rua é o esteio do livro de Jerdivan, narrado na primeira pessoa (um leve pecado literário), por um personagem decrépito, que gostaria morrer no dia do próprio aniversário; para ser a interface da amada que deseja morrer cedo. Tem apenas uma célula dramática, um só conflito; entre o narrador e seus fantasmas, quer sejam eles pessoas, o trem com treze vagões, seis cabarés e dez cassinos, ou uma fábrica com oitocentos e cinquenta operários com carteiras de trabalho.

A narrativa de Jerdivan é pujante quando associa os cabarés de Pombal a nomes – dando-lhes identidade ou autenticação quase que “jurídica”. “Cabaré de Tiquinha”, “De Palmira”, “De Chico Novo”, “Cabaré de Love”; instiga o leitor a desvendar a trajetória da personagem Dassalete, estuprada por um padre e ex-aluna do colégio de freiras e sua história de amor(es).

O livro nos convence de uma verdade insustentável. Se, por um lado a “rua depois da linha do trem” representava o degredo das raparigas que migravam para a Pombal, por outro, era o exílio da felicidade não vivida pela juventude; a Sodoma ou Gomorra que o matrimônio não oferecia, nem oferece em qualquer época da aventura do homem na Terra – quanto mais em Pombal.

Jerdivan em seu livro faz um inventário para a História de Pombal, que não pode ser contada sem os relatos da rua do Rói-couro, testemunha de uma ferrovia que desapareceu; de uma rodovia que passou bem longe; de uma economia industrial que não prosperou.

Impressiona no livro quando o narrador reconstrói seu caminho de casa até a rua do Rói-couro, quase um roteiro de uma sequência cinematográfica, em que o personagem central sai da “Rua Benjamim Constante, segue pela Rua João Pessoa, pegando a lateral da Igreja Presbiteriana, passando em frente à Sede Operária, e seguindo pela Rua dos Roques até encontrar os trilhos da ferrovia, seguindo em direção a Oeste até a boca do Rói-couro”. Quantos pombalenses não fizeram este trajeto, de longe o mais discreto?

O autor encerra seu conto com versos do médico judeu Yehuda HaLevi, que logo de início comete uma frase digna de uma lápide:

“É uma coisa terrível

Amar o que pode ser tocado pela morte”.

“Memórias Tristes do Rói-couro de Pombal” não é uma narrativa sobre Pombal – é sobre a essência daquilo que foi a cidade na aurora da sua decadência produtiva, num singular relato do muito que ocorreu numa única e escassa rua.

Livro de Jerdivan Nóbrega, uma publicação da Editora Imprell e O Sebo Cultural e à venda na Livraria do Luiz

Por Trás do Blog
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