Brasil perde Ana Fonseca, criadora do Bolsa Família, programa que retirou milhões da miséria no país

A morte no último domingo da pesquisadora Ana Fonseca, considerada a principal idealizadora e responsável por colocar em prática a unificação de diversos programas sociais que resultaram no Bolsa Família não mereceu destaque da mídia nativa; a mesma que ao longo dos anos combateu o programa que retirou milhares de famílias brasileiras da miséria.

Cearense de Fortaleza, Ana Maria Medeiros da Fonseca tornou-se secretária executiva do Bolsa Família em outubro de 2003, logo que o programa foi criado. Permaneceu pouco mais de um ano na função, quando coordenou a unificação dos programas sociais do Governo Federal.

De certa maneira, o trabalho iniciado por Ana Fonseca mudou o rumo do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No início do mandato, o carro-chefe das políticas sociais era o Fome Zero, mais uma entre várias políticas sociais pulverizadas.

A partir da unificação, os programas sociais ganharam uma marca forte - o Bolsa Família - passaram a ser usados de forma coordenada como não havia ocorrido antes e foram também ampliados a patamar inédito. O blog reproduz a seguir, artigo do jornalista Paulo Moreira Leite para o Diário do Centro do Mundo-DCM.

Pesquisadora Ana Fonseca unificou todos os programas sociais no Bolsa Família, que retirou brasileiros da miséria

Ana Fonseca, a quem devemos o Bolsa Família

Paulo Moreira Leite

A morte de Ana Fonseca privou o país de uma de suas intelectuais mais importantes e decisivas. Ela foi o principal cérebro por trás do Bolsa-Família, programa social cujos méritos gigantescos não é preciso louvar aqui. Se hoje milhões de brasileiros podem desfrutar de um dos mais bem sucedidos programas de bem-estar social de nossa época, imitado e copiado em dezenas de países, os louros políticos devem ser atribuídos a Lula. O principal mérito intelectual de um trabalho que ajudou a tirar o país do mapa da fome da ONU é de Ana Fonseca, cearense de Fortaleza, com uma vida acadêmica forjada na Unicamp, falecida neste domingo.

Nos primeiros meses do governo Lula, Ana Fonseca enfrentou e venceu uma disputa interna em torno de duas visões distintas para se construir a melhor proposta para dar conta do grande compromisso de campanha, que era reduzir a miséria e a pobreza do país.

Uma dessas propostas consistia na unificação dos programas de distribuição de renda já existentes, em várias prefeituras do país, inclusive o Renda Mínima da prefeitura de Marta Súblicy, em São Paulo. A ideia aqui era era criar um programa social do Estado, com o engajamento de prefeituras para a distribuição de seus benefícios, com regularidade e pontualidade, através de um pagamento mensal garantido em quantias pre-estabelecidas, a partir de critérios cientificamente rigorosos e socialmente justos.

A outra ideia excluía a administração pública. Baseava-se nos movimentos sociais e pretendia, a partir de assembléias populares em cada cidade, construir um sistema paralelo pelo qual a própria população carente seria responsável pela coleta e partilha de recursos. A noção, aqui, é que envolver a administração pública no processo iria trazer o empreguismo, a corrupção, a troca de favores e todos os demais desvios apontados no cotidiano do Estado brasileiro.

A primeira alternativa, que teve em Ana Fonseca sua maior expressão, foi afinal vitoriosa, por escolha de Lula, decisão que produziu uma importante cisão do início do governo entre o Planalto e sua ala ligada a fatia a esquerda da Igreja Católica.

Recebido com uma campanha de denúncias da TV Globo, que assumiu o mote que ligava o programa à troca de favores e a corrupção antes mesmo de explicar do que se tratava, o Bolsa Família trouxe uma mudança profunda e duradoura, que ressaltava o papel prioritário que o só o Estado pode assumir na luta contra a miséria econômica e a exclusão social.

Enquanto adversários sempre utilizaram o preconceito mais arraigado para manter a pobreza intacta, que consiste em responsabilizar os mais pobres pela própria pobreza, Ana Fonseca nos ajudou a encarar nossa realidade como ela é, contribuindo para nos fazer um país de cidadãos mais livres e conscientes de nossas origens e dificuldades.

Foto reprodução de Ana Fonseca, pesquisadora que coordenou o programa no início do governo Lula

Fonte: DCM

Foto Edimar Soares

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