Brasil desiste de enviar tropas para África devido a custos e riscos; cearense assume tropa da ONU

Após praticamente confirmar que enviaria ao menos 900 homens à Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização da República Centro-Africana (MINUSCA), o Brasil declinou nesta semana da participação citando custos e riscos. Para especialista ouvido pela Sputnik, o país não está preparado para os desafios que a missão exigia. Ao mesmo tempo, a ONU nomeou o general brasileiro Elias Rodrigues Martins Filho, cearense, como novo comandante da Missão de Paz na República Democrática do Congo

Guerra híbrida no Congo representa maior desafio para tropas em missão de paz; fez Brasil desisitir

A Sputnik já havia noticiado com exclusividade no ano passado que a Minusca era o provável destino das tropas brasileiras. Conforme a Reportagem atestou em viagem à base do Batalhão Brasileiro de Forças de Paz (BRABAT) em Porto Príncipe, no Haiti, equipamentos militares estavam sendo encaixotados e enviados para o Rio de Janeiro, onde ficariam até a convocação de tropas para a República Centro-Africana. O país vive uma situação de caos generalizada desde 2012, quando rebeldes da coalizão Séléka tomaram o poder e forçaram a fuga do então presidente François Bozizé.

À época, o subcomandante do BRABAT 26, coronel Luís Cláudio Romaguera Pontes revelou à Sputnik que o Ministério da Defesa queria "o quanto antes partir para a próxima missão para aproveitar o legado" da Missão no Haiti, comandada pelo Brasil por 13 anos. Porém, ao anunciar que não enviaria mais as tropas à África, o governo teria justificado a decisão alegando o emprego do Exército em missões internas (sobretudo na intervenção federal no Rio de Janeiro e no acolhimento a refugiados venezuelanos em Rondônia), além dos altos custos e do risco elevado à vida dos soldados, atestado por enviados brasileiros em missão em fevereiro deste ano.

Visto com surpresa por analistas militares e pela própria ONU, o cancelamento da participação não espantou o diretor da Troia Intelligence e um dos principais analistas de segurança no Brasil, Ricardo Gennari. Para o especialista, a experiência na República Centro-Africana seria "completamente diferente" da realizada no Haiti, envolvendo situações para as quais as tropas não estão preparadas.

"Não seria missão de paz, seria guerra mesmo porque em toda essa região da África Central você tem uma questão de grupos terroristas. (…) Para se ter uma ideia estes grupos estão detonando explosivos de 500 quilos. É uma situação que a gente ainda não enfrentou", avalia Gennari.

Citando a saída de tropas de outros países, como a Austrália e da Suécia, da Minusca, o diretor da Troia Intelligence avalia ainda que a MINUSTAH exigiu habilidades diferentes dos soldados.

Em uma missão de paz você faz um serviço de policiamento, inteligência para reduzir a criminalidade, já na África é um problema de guerra irregular, tribos inimigas que usam o terrorismo como ferramenta. Nossas tropas não estão prontas para uma guerra. Não temos a experiência contra o Boko Haram, contra conflitos tribais", menciona.

ennari avalia ainda que o território de savana, bastante distinto das planícies haitianas, também constituiria outro fator de dificuldade. A avaliação agora, passa a ser política e diplomática. A recusa no envio de tropas pode ter levantado sobrancelhas nas Nações Unidas quanto à capacidade brasileira de integrar novas missões de paz, mas o especialista acredita que novos convites devem aparecer.

A Sputnik Brasil tentou contato com o Ministério da Defesa em busca de um porta-voz para esclarecer o assunto, mas a Pasta resolveu se manifestar apenas por meio de nota.

À Reportagem, o MD esclareceu que "o governo brasileiro declinou da consulta realizada pelo secretariado das Nações Unidas para o envio de tropas para Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro-africana (MINUSCA) e para a Missão das Nações Unidas para a Estabilização na República Democrática do Congo (MONUSCO). Informamos ainda que, o Brasil permanece com o seu compromisso internacional de colaborar com a paz mundial, mantendo aberto o diálogo com a ONU e permanecendo em condições de contribuir, no futuro, para outras missões de manutenção de paz".

ONU nomeia o general Elias Rodrigues para comandar Missão de Paz no Congo

O secretário-geral da ONU, António Guterres, nomeou na sexta-feira (13) o general brasileiro Elias Rodrigues Martins Filho como novo comandante da Missão de Paz das Nações Unidas na República Democrática do Congo (Monusco).

Ele vai assumir o posto antes ocupado pelo general Derrick Mbuyiselo Mgwebi, da África do Sul, que encerrou sua missão em 31 de janeiro passado. A informação é da ONU News.

O general Martins, que atualmente ocupa a chefia do Escritório das Organizações Internacionais do Ministério da Defesa, tem mais de 35 anos de experiência nas Forças Armadas brasileiras e já serviu nas Nações Unidas em Nova Iorque.

General Elias Rodrigues vai assumir comando da missão de paz da ONU no Congo, que vive guerra civil

O general brasileiro, nascido em Fortaleza, ocupou entre outros cargos, o de chefe de inteligência do Ministério da Defesa do Brasil e de Oficial de Comando do Batalhão da Guarda Presidencial, de 2009 a 2011.

Elias Rodrigues Martins Filho também foi o encarregado de planejamento do Departamento das Operações de Paz entre 2005 e 2008, e vice conselheiro militar da Missão Permanente do Brasil, em Nova Iorque. Na década de 1990, ele serviu na Missão III da ONU de Verificação em Angola.

Martins Filho é pós-graduado em Relações Internacionais e formado pela Escola Superior de Guerra. Ele será o segundo comandante brasileiro da Monusco. O primeiro foi o general Carlos Alberto dos Santos Cruz.

Fonte: Sputnik Brasil

Fotos DefesaNet

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