Professor da FGV revela autorização para assassinatos: CIA mostra que ditadura fez “Brasil fraco e c

Blog reproduz artigo de Paulo Moreira Leite em que analisa a situação do País, resultante de várias décadas de ditadura militar: um “Brasil fraco e corrupto”. O artigo toma como base a revelação feita pelo doutor em Relações Internacionais e professor da FGV, Matias Spektor, que divulgou documento do Departamento de Relações Exteriores dos EUA a partir de relato da Cia; segundo Spektor, logo após sua posse, em 1974, o general Ernesto Geisel foi informado de execuções pelos dirigentes do CIE e pelo SNI. O documento mostra que Geisel autorizou a continuação dos assassinatos, mas fez duas ressalvas: “apenas subversivos perigosos”. O documento da CIA estava disponível ao público desde 2004, mas só agora veio a público no Brasil, por descoberta do professor Matias. Veja o artigo de Paulo M. Leite a seguir:

Logo após sua posse. em 1974, o general Ernesto Geisel foi informado de execuções de adversários do Regime Militar

Numa nação que em 2018 convive com o os movimentos de um personagem tenebroso como Jair Bolsonaro, o documento da CIA sobre execução de adversários do regime militar servem para confirmar que as ditaduras e os ditadores só cabem no lixo da História, cobertos por uma vergonha sem limites e uma indignação permanente.

A principal lição do documento — cujo teor integral permanece reservado, 44 anos depois — é mostrar a tragédia de um país governado por autoridades que se imaginam capazes de promover ataques criminosos e seletivos contra os inimigos políticos, sem perder autoridade nem comando sobre a situação de conjunto.

Recém-empossado pelo regime de baionetas e balas na nuca que governava o país, a conversa entre Ernesto Geisel e um grupo de subordinados é de uma clareza chocante e definidora. Também obriga a uma primeira constatação espantosa.

Por meio século, o registro de um diálogo tão comprometedor e repulsivo foi acessível à alta cúpula do governo dos Estados Unidos — que teve nove presidentes no período, inclusive Richard Nixon, que deixaria o cargo poucos meses depois — mas permaneceu escondido por mais de quatro décadas dos brasileiros e brasileiras. Revela-se assim uma situação particularmente desmoralizadora para um regime tão cioso daquilo que chamava de Segurança Nacional, conceito manipulado à vontade para justificar atrocidades contra cidadãos e cidadãs de brasileiras. (Embora tenham importado técnicas de tortura empregadas pelo Exército colonial francês em guerras na África, as Forças Armadas brasileiras empregavam a violência contra seus compatriotas, coisa que os franceses não costumavam fazer).

Quarenta e quatro anos depois de um macabro encontro entre o recém-empossado presidente Ernesto Geisel e altos oficiais das Forças Armadas, os fatos são de uma simplicidade chocante.

Um presidente da República, com décadas de atividade contra a democracia — na década de 50 contra Getúlio, na crise contra Jango em 1962, no golpe de 64 — coloca-se na posição de quem “autoriza” a execução de inimigos políticos. Sem julgamento, sem o devido processo legal, sem direito de defesa. Nada daquilo que hoje chamamos — algumas vozes falam em tom de desprezo — de garantias e direitos humanos.

O que importa ao regime é a vontade do ditador, sua opinião. Ninguém está incomodado com as vidas humanas, com existências que seriam destroçadas — mas com a hierarquia, o poder de Estado, usurpado sucessivamente desde 1960, quando havia ocorrido a última eleição direta para presidente. Era isso, o poder usurpado, que nem remotamente poderia ser colocado em risco. Quer a palavra final, obtida pela decisão sobre a vida e a morte, a ser partilhada exclusivamente com seu homem de confiança, João Figueiredo, que, num sintoma de todas as coisas, da antecipação geral do desastre, em 1985 seria forçado a deixar o Palácio do Planalto pela porta dos fundos.

Entre assassinatos encomendados e aqueles não autorizados, ninguém se salvou. A institucionalização do assassinato como método de ação política tornou o país muito pior, artificialmente pior — como se já não tivéssemos tantas mazelas herdadas pela desigualdade estrutural, pela história e pela geografia.

O crime produzido no coração do poder de Estado, na sua instância suprema, formalmente secreta até quinta-feira passada, preparou um país desfalcado, emburrecido pela violência, castrado pela falta de diversidade, com uma excrescência autoritária sempre à espreita, confiante da própria impunidade.

Estamos falando de um sistema acima de tudo corrupto. Claro que havia a corrupção de sempre, herdada, reproduzida e escondida pela censura. Mas não é disse que se trata. Porque não pode haver corrupção maior do que acobertar responsabilidades pela eliminação de vidas humanas. Assim: escondendo a verdade em arquivos incinerados — ou que se diz que foram incinerados.

Depois da fraude sobre o assassinato de Vladimir Herzog e Rubens Paiva, os dez dirigentes do PCB e da Chacina da Lapa, a morte de Olavo Hansen, esses segredos, essas mentiras, esse cinismo, alimentam o sorriso do fascismo que assombra o país nos dias de hoje. Aqui está o que importa. Aqui se encontra a ameaça — mais uma vez.

No país que vivia sob o Ame-o ou Deixe-o, foi preciso da CIA para saber o que acontecia com no governo — com meio século de atraso.

Brazil247

Paulo Moreira Leite

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