Pequeno diálogo da "Sombra com o Andarilho": um roteiro para oficina de teatro

Pequeno diálogo da Sombra com o Andarilho: roteiro para oficina de teatro

F. Nietzsch

Extraído de Humano, Demasiado Humano II

Tradução: Paulo Cézar de Souza

Adaptação: João Costa

(foco de luz dá a noção de forte sol. Personagem Sombra sai de dentro de uma barraca de escoteiro nas cores da bandeira nacional. Fala como se estivesse encerrando uma discussão. O que faziam dentro da barraca a Sombra e o Andarilho?)

A Sombra – De tudo que disseste, nada me agradou mais do que uma promessa: vós quereis ser novamente bons vizinhos das coisas mais próximas. Isso será bom também para nós, pobres sombras. Pois, admite-o, até agora tiveste prazer em nos caluniar.

O Andarilho – Caluniar? Mas por que nunca vos defendestes? Tínheis nossos ouvidos bem próximos, afinal.

A Sombra – Achamos que estávamos demasiado próximas para poder falar de nós mesmas.

O Andarilho (Irônico) – Delicadas, muito delicadas! Ah!, Vós, sombras, sois “pessoas melhores” do que nós, já percebo.

A Sombra (no mesmo tom de ironia) – No entanto, chamai-nos de “importantes” – a nós, que ao menos uma coisa sabemos fazer: calar e esperar – um inglês não faz melhor. É verdade, com muita frequência nos veem seguindo os homens, mas não como suas servas. Quando o homem evita a luz, nós evitamos o homem: pelo menos até aí vai a nossa liberdade.

O Andarilho – Ah! A luz se esquiva bem mais frequentemente do homem, e então vós o também o deixais.

A Sombra – Com frequência me foi doloroso te deixar: para mim, que sou ávida de saber., Há muita coisa que permanece obscura no homem, pois não posso estar sempre com ele. Ao preço do conhecimento cabal do homem, de bom grado seria eu tua escrava.

O Andarilho (tom de desabafo) - Mas sabeis tu, sei eu por acaso, se com isso passarias repentinamente de escrava a senhora? Ou continuarias escrava, mas, desprezando teu senhor, levarias uma vida de nojo e humilhação? Fiquemos os dois satisfeitos com a liberdade que te coube – a ti e a mim! Pois a visão de um cativo me estragaria as maiores alegrias; a melhor coisa me seria repugnante, se alguém tivesse que partilhá-la comigo – não quero escravos ao meu redor. Por isso também não gosto de cão, o indolente parasita que agita a cauda, que apenas como servo dos homens se tornou “canino”, e que eles costumam louvar como sendo fiel ao senhor, dizendo que o acompanha como sua.

O Andarilho – Oh! Já é tempo de nos separamos? E eu tinha que te magoar ainda; vi que ficaste mais sombra.

A Sombra – Eu enrubesci, na cor que me é possível. Ocorre-me que muitas vezes fiquei a teus pés como um cão, e que tu, então...

O Andarilho – Eu não poderia rapidamente fazer algo para te agradar? Não tens nenhum desejo?

A Sombra – Nenhum, exceto, talvez, o que o “cão” filosófico desejou do grande Alexandre: sai um pouco da frente do sol, está muito para mim.

O Andarilho – Que devo fazer?

A Sombra – Anda sob esses pinheiros e olha para as montanhas em torno; o sol se põe. ( ríspida, algo como Fui! Vá à merda!)

O Andarilho – Onda estás? Onde estás?

Cena para dois atores(atrizes)

Fonte: Extraído de Humano, Demasiado Humano II

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