Blog publica texto teatral de João Costa sob título de O Último Assalto de Um Casamento

Personagens: Catarine.(Jovem de classe média. Atriz precisa ser obesa ou aparentar)

Gislayne – a empregada. (atriz\ator negra(O)) e um manequim de alfaiataria.

Palhares - Boneco Sparring para luta de boxe

Primeira carta do baralho do tarô ou primeiro assalto: o Enforcado - O amor é uma via de mão única.

Catarine (para o\a serviçal que permanecerá em cena fazendo contraponto, reagindo com expressões faciais ou gestos) – Cansei! Tomei uma decisão: não volto mais ao psicanalista. (enfática) De psicanalista não mais preciso. Cura, se é que doente estou, não busco. Ou equilíbrio mental, se desequilibrada me consideram. Imagem vocês como foi o meu primeiro dia no psicanalista, algo assim nelsonrodriguiano, um verdadeiro desvirginamento da alma. Disse-me:

- “Fale-me da sua infância, dos seus pais; abra o seu coração. Nenhum ser humano é capaz de guardar segredos; quando a boca cala, falam as pontas dos dedos”.

- Fácil, não? Quando não se está na poltrona e na posição horizontal!

- Cansei! Da psicanálise, já falei. Ele, o psicanalista, insistiu num truque de palavras, fazendo as mesmas perguntas, enviesadas, truncadas, explícitas, subentendidas, mas sempre as mesmas. Aí resolvi me abrir.

- Meu nome de batismo é Catarine Denueve. A atriz que fez a Bela da Tarde.

- Problema com homens eu não tenho! Quer dizer, já os tive e com um homem só. (foco acende no manequim)

- Você, Palhares! Um inútil! (com um taco de beisebol , aplica tremenda porrada no manequim. Em seguida faz de conta que vai bater de novo, e de novo)

Catarine – Cansei da psicanálise, como disse. Da minha catarse cuido eu. (fala alto) Gislayne! Traz meu gim!

(serviçal entra em cena e serve a patroa. Gestos delicados, quase um balé) Tá esperando o quê? Sai, some! (Gislayne se retira. Gestos de absoluta subserviência e cumplicidade).

Catarine – (como se dialogasse com a plateia) Folgada! Basta trocar os lençóis que já se acham! Essa (apontando para a serviçal que está fora de cena) é a única que me entende, me tolera, acho eu, a única! Também é remunerada pra isso. E POBRE (enfatiza) PO-BRE! Longe de mim preconceito racial, depois que fiquei gorda, confesso, descobri a tolerância racial. Sabem como descobri? Na faculdade. Cheguei para um grupo de amigas para fazer um trabalho, estava, como sempre, atrasada e aí, ao me aproximar do grupo sem ser notada, uma delas falou em voz alta: Catarine é chegada uma maçada, só chega atrasada! Então eu escutei ni-ti-da-men-te. A gorda! Só chega atrasada por conta disso, é gorda. Doeu, sabe. Foi assim que descobri a intolerância. E me reservem uma inconfidência pessoal: sou fissurada em POBRES. E depois de algumas doses de gim..

- AH! O gin. Gislayne, gin, me traz mais gin! (empregada entra e serve mais gim, moderadamente. Catarine força empregada encher o copo) Quem, tu pensas que és para controlar meu gim? Tu sabes que não suporto um dia de lucidez, uma semana de bom senso, um mês de sobriedade. O Palhares, o Palhares nunca me regulou e não vais seres tu a controlar-me agora. Ah! Se eu pudesse me expressar sempre na segunda pessoa...

- Palhares. Esse inútil aí. Meu único e escasso marido em dez anos (fala direto com o manequim) Pois bem, papa. Dez anos de casamento e o que me restou? Um apartamento com hipotecas mensais. Quando te conheci pesava 45, era magérrima, esquálida até, mas desejadíssima, sabia? (cacetada no manequim) Não me conteste! O meu silêncio, minha passividade acabou, e o meu dom de perdoar, como é que diz a canção? O perdão também se cansa de perdoar? É isso? Não, não, o perdão também corrompe! Achei! Eis a frase do Nelson Rodrigues: o perdão também corrompe.

-Você disse uma vez que eu era obesa, que tinha se cansado, que me tornara indesejada por ser... Gorda. Gorda! (cacete em Palhares) Você disse isso sim. Gorda! Foi o que você disse, não disse? Na minha cara... Assim... Assuma que você é gorda, assuma!

- Assumi! Assumi sim que sou gorda, e daí? (porrada no manequim).

- Indesejada? Eu? Como indesejada se todos os seus amigos já me comeram! Sim o Silveirinha, o Armandinho, o Carlinhos, todos no diminutivo... Só nos nomes, só nos nomes. Indesejada, tem até graça. Você, seu bundão é que nunca soube me comer, nunca! Pergunta pra eles! Biltre! (cacetada no manequim)

- Gislayne, mais gin! (empregada faz gestos que não tem mais gelo) Não interessa! Com ou sem gelo, quero gin! Não me controle! (empregada serve gim sem gelo) Gin sem gelo é foda! (diz resmungando).

- (faz mea culpa) Imbecil, imbecil. Fui, desde sempre, uma imbecil nata! Como me casei com um inútil como você? Me diz? Inútil, não me comeu nem antes e nem depois da festa de casamento. E demorou uma eternidade. Ridículo! Tem meninas que perdem a virgindade aos 13, 14 anos, e eu, com vinte anos, inviolada, imaculada.... Sem sexo! (cacetada no manequim) Desde quando eu pedi a você que fosse parcimonioso.... Essa expressão é sua: parcimonioso! Quando foi que eu pedi isso? (nova cacetada no manequim) Imbecil. Não, não, não, o imbecil da vez agora é você. Que ódio! Que ódio da Celeste!

- Celeste? Minha prima, sabe. Com dezesseis anos a Celeste já tinha chupado todos os paus dos meninos da oitava série. Hoje é feliz, tem quatro filhos, uma vaca parideira. Quatro filhos, a parideira da minha prima tem quatro filhos lindos, e ainda me passa na cara que fode duas vezes por semana com o marido, fica contando vantagem! Ela nem desconfia que...

- ...Eu sou uma infeliz, a única infeliz da família, e que família... Tenho quatro primos e nenhum, nenhum pôs a mão em mim, dois tios que só viviam lá em casa e nenhum passou a mão na minha bunda, e olha que eu vivia dando sopa, circulava do quarto pra sala, da sala pra cozinha com uma blusa finíssima e sem sutiãs... E nada! Já a Celeste, minha prima dava, dava pros primos, pros vizinhos, e até pro tio Aderaldo, de 50 anos... Dava, o fato era que dava. E você? (jogo o resto gim no manequim)

– Para tirar minha virgindade foi uma novena. Isso mesmo, uma novena, 30 dias de um mês de maio qualquer, uma novena. Nesses anos todos de casamento sabe quantas broxadas suas em contei? Sabe quantas vezes eu... eu... Tive o tal orgasmo? E com espasmos, pois gozar sem ter espasmos, vertigem, não vale, Sabe? Eu, inclusive choro... Sabe... Sou dessas que choram, como dor ou sem dor eu choro e pronto.

(serviçal entra em cena e dá um leve sorriso para patroa)

- Não se vanglorie, não. Dissimulada, mas convencidaaaaa...

(empregada serve à mesa, um pão em formato de um pênis enorme. Toma um gole de gim, e saboreia o pão e sussurra para empregada com arrogância e sadismo na voz)

- Qualquer dia desses e te demito e pronto. Também tô cheia de você. Me acha dependente de álcool e se acha empoderada. Sou uma bêbada, pronto. Te demito. Eu me chamo Catarine, e ninguém me controla, viu? (resmunga) Cachorra... “Só os cães amam de verdade, só”, eles se apegam demais, só eles. Por isso te demito e pronto. Ninguém me ama de verdade, por isso demito, viu? Do mesmo jeito que demiti esse inútil da minha vida!

(cacetada no manequim, bate até a exaustão. Bêbada e exausta segue batendo, começa a tirar blazer, sapatos. Empregada tenta amparar Catarine, é rejeitada. Catarine sai de sena, a empregada sai de cena de mansinho recolhendo as roupas da patroa. Entra música “Quem é” na voz de Carlos Gonzaga)

Quem É

Compositor: Osmar Navarro / Oldemar Magalhães

Quem é

Que lhe cobre de beijos

Satisfaz seus desejos

E que muito lhe quer

Quem é

Que esforços não mede

Quando você me pede

Uma coisa qualquer

Quem é

Que de você tem ciúmes

Quem é

Que lhe ouve os queixumes

transição de cena. Atriz volta ao palco com algum adereço que seja associado à Inquisição, um punhal em formato de cruz templária

Catarine (postura de uma magistrada autoritária) – A sessão ainda não acabou. Confesso. Ninguém, mulher nenhuma amou mais um homem quanto eu te amei.

(fala com delicadeza com o manequim)

- Como você era elegante, ainda é, reconheço esse seu bom gosto de vestir-se a caráter e de impressionar o tribunal. Um tribunal de néscios!

(muda de tom e passa a interpretar o Palhares)

- “Nessa nossa sessão desse nosso tribunal, deixei que o promotor falasse sem que eu aparteasse”. A defesa não nega e nem refuta os fatos como os fatos aconteceram. O meu constituinte matou a esposa? Matou. Meu constituinte nega o feito? Não nega. Mas vamos aos fatos.

Aí você dava seu show, reconheço.

- (segue interpretando o marido no tribunal) Qual marido em algum momento da vida matrimonial não desejou que a esposa morresse? Qual? Me respondam! Maridos sofrem com noites de desejos inconfessos, esse de desejar matar a esposa é um.

-Para defender um assassino confesso você bradou: matar a própria mulher é crime. Sim, porque quando o homem não pode matar a própria esposa, resta apelar para o imponderável! Quem sabe um câncer na mama, de tireoide, de cólon do útero, câncer no reto? Quem não já esteve à beira de cometer um crime passional? Sim. Foi um crime passional; ele, o réu, estava dominado pelo ciúme; Violenta emoção! O réu merece a absolvição porque o marido traído, mesmo que assassino, é a verdadeira vítima”.

(para o manequim e dura cacetada)

- Vítima coisa nenhuma, machista, seu biltre! (cacetada no manequim) Eu avisei, avisei, a sessão ainda não terminou.

- No tribunal você ganhava todas. Todos achavam você o máximo, o juiz, promotor, plateia, todos.

- Certa feita simulou uma viagem de uma semana pra Brasília, mas o fato é que passou três dias em Buenos Aires com uma vadia, uma vagabunda, filha de um juiz. E eu, uma idiota, grudada na sua carreira, me anulava diante do seu sucesso. Sim porque sou uma arrematada idiota. Sou? Não!

- Fui. Era idiota, não sou mais. (cacetada no manequim)

- Meu gin, Gislayne, quero gim. (toma um gole) Mais! Porque gosto de gin? Por causa do meu pai. Sempre amei papai, mais que mamãe. Papai era louco por gin.. E por mim. Papai chegou numa fase que não suportava mamãe... Nem eu!

- Mamãe não tinha classe, fútil, sem profissão, vivia às custas de papai, mas o humilhava. Dizia:

(interpretando a mãe) – mamãe dizia: Seu pai é um fracassado, vive de acordos nos tribunais. Não ganhava nunca, mas o Palhares, o Palhares, sim. Ganha todas! Ganha todas e de todos e todos sabem muito bem como. Papai, não; tinha ética, nunca deu presentes para esposas de juízes, de desembargadores, nunca! Mamãe odiava papai, sempre odiou. Talvez porque o velho vivia honestamente, tinha senso de família, voltava pra casa, não tinha amantes feito você. Você nunca voltava pra casa; Chegava em casa encharcado de perfume.

- Quem? Eu? Sempre fui cheirosa, nunca fedi, nunca. (incisiva pergunta para o manequim) Motivo pelo qual eu deveria me banhar, ficar cheirosa, de lingerie esperando de pernas abertas pra você que só chegava fedendo a álcool, perfume barato, manchado de batom barato?

- Repete! Repete, que não ouvi. Frígida? Eu? Repete! Ah! Meu filho deitar, dormir e roncar feito um porco sempre foi especialidade sua. Repete! Eu, uma bêbada como meu pai? Sou e daí. Gosto de gin, gin... Bebo gin como o papai.

- Gislayne, meu gin. Não se faça de tola. E põe gelo, gin sem gelo, onde já se viu? O gin não perdoa, e com soda é.... Há! Há! Você, Palhares, sempre me imaginou com câncer e sem um seio. Errrou! Os dois estão aqui e não estão mais disponíveis, não mais pra você Palhares. Câncer no cólon e no reto? Nem pensar! (bate na bunda e zombeteira) Ah! Palhares desse altar jamais provaste. Anal com você, jamais! (demonstra sentir arrepios)

- Ui. (para empregada, de forma insinuante) Gislayne, eu quero um banho de Cleópatra! Com sais... E gin. (começam a sair de cena as duas) Palhares, eu volto! Hoje o dia de Gislayne. (segreda com a plateia) É filha de santo, diz ela que preciso de passes, descarrego, superação.

(som de atabaques e tambores. Empregada dança como se estivesse num terreio Umbanda e entra em transe, provoca a patroa, que a espanca, chuta, e enquanto chuta a empregada, a voz e os gemidos são de um homem. Simulam uma relação feroz. Luz no manequim) CORTE.

CARTA - A RODA DA FORTUNA

Catarine ( recupera-se e de volta à cena com o porrete) – Palhares, voltei! Calma, papa, não vou te bater, acabou o estresse, percebeu? Essas sessões às sextas-feiras com minha secretária são ótimas. Gislayne tem esse lado afro, e esses cultos, rituais africanos são pura sessão de psicoterapia. O rufar dos tambores desperta a circulação libidinal mais selvagem, a energia liberada, entenderam? Numa dessas sessões afro, Sabe do que me lembrei? De uma pergunta cretina que o psicanalista me fez.

- Quando o seu casamento começou a desandar?

- Quando começamos a ficar ricos, respondi na bucha e instintivamente. Não significa que dinheiro não é a fonte da felicidade. Engano. No meu caso dinheiro trouxe felicidade, a única coisa que desandou foi a minha relação com você, Palhares. De repente, não mais que de repente nosso casamento foi contaminando por uma doença contagiosa e maravilhosa: consumismo. Primeiro, Palhares ampliou seu escritório de advocacia, abandonou as causas criminais e passou a se dedicar, quase que exclusivamente, de causas eleitorais. Gente foi aí que descobrimos que a política é a fonte que faz jorrar fortuna mais rapidamente. Nós temos eleições de dois em dois anos. Durante as campanhas eleitorais, lá estava o Palhares com coordenador jurídico do candidato, aí a grana rolava com força, e a putaria também.

(vai até o manequim e faz um carinho)

- Pensa que eu não sei das putarias, das patifarias políticas que você se meteu? Querido. Qual a explicação para uma campanha eleitoral atrair tantas mulheres, que nem candidatas são? Dinheiro fácil! Eu mesma me enrosquei, não sabia o que fazer com tanto dinheiro que rolava, a consequência disso é que deixei de atender pelo meu CPF, e passei a ser pessoa jurídica com CPMJ e tudo. Certo dia, chegando ao escritório do Papa, um desses homens, que mesmo estando na sua frente, está mirando a sua bunda, o canalha sussurrou: chegou a baiana.

-Baiana, eu? Não entendi a piada. A ficha só caiu meses depois. O sujeito queria dizer chegou a “laranja Bahia” do Palhares. Isso mesmo: virei laranja nos negócios do meu marido. Passei a gerenciar a lavanderia do dinheiro sujo do papa. Descobri, então, que meu marido era corrupto! Mas quem não é? Logo ele que sempre se apresentou como homem honestíssimo, e assim se apresentava e assim ainda é reconhecido. Era tanta a empáfia de advogado honesto que quase virou juiz eleitoral. Ele estufava o peito e dizia. Juiz pelo quinto constitucional! É mole?

- Juro que mesmo sabendo das suas puladas de cerca, sempre julguei Palhares um homem honesto, até descobrir que era corrupto e sabem como isso aconteceu?

Certa noite, com uma TPM, dessas que atacam o sistema nervoso central, causando uma enxaqueca letal com uma sangria impossível de ser estancada. Comecei a sangrar no shopping, me peguei imaginando vítima de facada. Disparei pra casa e adormeci no sofá. Acordei de madrugada, vou pro quarto e me deparei com a seguinte cena: A nossa cama forrada de dinheiro, de uma ponta a outra. Levei um susto.

- Que tanto dinheiro é esse, papa? De onde saiu?

- E ele, professoral: essa parte aqui vai para o relator da AIJE?

- Que danada é isso? AIJE? Perguntei.

- Uma ação judicial querida, nitroglicerina pura que pode destruir o nosso candidato. Ele, o juiz relator pediu cinquenta mil pelo seu voto, garantindo influenciar mais três. Só vou pagar trinta; vinte ficam retidos comigo, que não sou imbecil, disse.

- Certamente, foi a minha resposta.

Essa outra parte da grana, é para despesas da campanha, com um percentual que vai ficar com você.

- Comigo?

- Certamente (imita o marido).

- Certamente.

- A enxaqueca passou na hora. A partir daquela noite virei empreendedora, nome chique, não? Montei uma pequena loja de roupas de marca no shopping, que não vendia nada, mas emitia notas fiscais que era um horror. Eu, que nunca tinha lavado uma calcinha, passei a lavar dinheiro. Apartamentos no meu nome, contas bancárias em meu nome, carros, terrenos. Tudo em meu nome.

- Se eu devolvi tudo ao papa quando nos separamos?

- Evidente que não. Natural. Pois é: no bem bom, quando chovia dinheiro fácil nas nossas vidas, nos separamos.

- Sim. Por que nos separamos? Foi outra pergunta imbecil feita pelo meu psicanalista e pelas minhas amigas.

- Nos separamos porque você abusou. Virou mulherengo, passou a achar que podia comer todas as estagiárias do escritório, filhas de juízes, de amigos. Nem dissimulava. Deixou de foder em casa, comigo, para dar preferência às piriguetes do Judiciário e da política. Jornalistas, inclusive. Dizia, se há mulher fácil de se comer, tendo poder, é jornalista. Me insultava, sabe o que você chegou a me dizer, seu imbecil?

- Sou ou não sou um predador? (aplica cacetadas no manequim)

- Predador, uma ova!

Gisele Suminski e Lúcia Macedo, protagonistas da peça O Último Assalto de Um Casamento; encenação 2018

- Até que achei um cupom fiscal no bolso dele, que foi a gota d´água. Cupom fiscal de um perfume. Estava lá discriminado: 212 sexy, da Carolina Herrera. Fui atrás dessa Carolina Herrera, não era uma pessoa, é uma marca de perfume de luxo, uma fortuna, Fui atrás e descobri a vagabunda merecedora de um perfume tão caro: era uma advogada em inicio de carreira no escritório dele. Aí foi só investigar: Para filha do juiz, Hipnôse – também caríssimo. Absolutly irréssistible, para outra vadia, uma juíza-substituta. Enfim, abusava. Parecia até que estava passando pela cama todas as mulheres do Judiciário, de estagiárias a juízas. Até que uma noite chegou fedendo a leite de colônia Alma de Flores, dessas que se compra em mercadinho da esquina – tinha saído com a moça do cafezinho. Sem discriminação.

- Canalha! (pauladas no manequim)

- Dizem que dinheiro cega, e cega mesmo. Coloquei uma venda nos olhos, feito a deusa de Justiça. Passei a não me incomodar com as putas do meu marido na mesma proporção que passei a engordar.

(música incidental)

CARTA – A MORTE

Catarine – Um determinado dia, o dia da descoberta, o pior da minha vida, acordei me sentindo gorda. Me sentindo, não; eu estava mesmo cheinha, quer dizer, cheinha é eufemismo. Era um processo de metamorfose: o rosto surgiu, de repente, no espelho, completamente redondo, engordando, engordando. A humilhação vivida somada à canalhice do Palhares... E eu não estava pronta para isso. O peso, as dores lombares, a falta de mobilidade e as dores? Dores por ser obesa? Ou era outra coisa?

Era a tal Síndrome de Guillain-Barré.

- Traduz isso em português, pedi ao médico.

- É uma doença rara na qual os nervos periféricos se deterioram. Estes nervos enviam mensagens do cérebro para os músculos, instruindo-os a se moverem e também levam sensações como: dor, prazer, gosto, etc., para o cérebro. Um inferno e mata! Degenerativa! E a difícil busca pela resiliência. Que não acontece nunca.

- Ah! A dor; não posso sentir dor. Aí passei a dar ouvidos até a quem não devia. No psicanalista, escutei uma voz, uma voz feminina de uma infeliz como eu que sussurrou ao meu ouvido. Essa tal – gorda como eu, achava que estava me confortando, e de fato estava, pois cheguei até a aceitar seus argumentos. Sussurrou aos meus ouvidos.

- E se além dessa síndrome esquisita, além de gorda você fosse negra? Dos males, o menor, ora!

- A frase doeu aos meus ouvidos, mas para compensar o meu sofrimento, a minha dor, o meu medo da rejeição, fui levada a acreditar em outra frase tida como afirmativa naquele consultório.

- Sou gorda, mas não sou negra. Ser gorda não é ruim, Você não é o seu peso, dizia a mim mesma e repetia: você não é o seu peso. Você não é o seu peso... Fui recomendada a ler sobre “Dismorfia”.

- Que merda é essa? Perguntei a uma amiga, assim mais ou mesmo como eu.

- Não se fez de rogada, para depois esbanjar conhecimento de causa. “Dismorfia”, minha querida é um termo velho usado por médicos para designar a discrepância ou a diferença entre aquilo que a pessoa acredita ser em termos de imagem corporal e aquilo que realmente é. Porra!

- Não somos gordas o bastante para nos rendermos, dizia essa minha amiga. Não somos tão gordas como dizem.

- O meu marido diz isso, diz que eu sou gorda. Enfatiza até.

- O que ele diz, conta? Jogou na minha cara que não se sentia gorda.

- Não mais.

- E então? Eu é que não vou me matar por ser como sou. Jogou, de novo, na minha cara sua fase de resiliência. Ela jurava que não se matava.

- Mas eu vou!

- Pra onde? Assustou-se a moça sem prestar a atenção ao meu estado.

- Me matar! Me mato! E foi assim que a ideia da morte tomou conta de mim. Tinha dinheiro, tinha. Dinheiro sujo, mas tinha. Dinheiro não fala, não é mesmo Palhares?

- O desejo da morte, as relações que se esvaíam, Palhares não me procurava mais, simplesmente perdeu o tesão por mim. Em vez de ficar de pau duro e falar obscenidade ao meu ouvido, passou a me humilhar; tudo se misturava na minha cabeça e na minha vida e a equação resultava na mesma.

- Eu quero morrer! Mas me faltava coragem. E ouvia vozes. Bastava chegar no prédio onde moro que passava a ouvir vozes.

-“Pula!” “O suicida que pula do vigésimo andar morre antes do impacto. Tudo pode até se deformar com a queda, menos o rosto que fica intacto, lívido, porque se morre antes”.

- Graças a Deus, me faltava coragem. Para pular! Como ter certeza que o suicida que pula do vigésimo andar morre antes? Passei a tomar remédio para distúrbios do sono. Dormia como se morta estivesse, até que certa noite eu tive um sonho.

- Sonhei com um punhal. Ou era uma navalha? Era um punhal, sim. Lindo, brilhante. Via filmes, reprises de filmes, até que, numa certa madrugada, assisti a um filme sobre samurais, samurais, não. Soldados japoneses que praticavam haraquiri. Eles se matavam em rituais em resposta à humilhação e à derrota. Fiquei impressionada. A morte era lenta, perceberam? Lenta. Não se morria antes do impacto no chão, mas lentamente.

- Pensei. Talvez uma morte lenta pese na consciência de mamãe, de meu marido... (exibindo o punhal)

- Lindo, não acham?

- Basta um corte na horizontal, assim, na zona abdominal, bem abaixo do umbigo, da esquerda para direita, de modo a deixar as vísceras expostas. E, se as forças me permitirem, faço um corte puxando a lâmina para cima.

- Quem sabe numa banheira, cortando os pulsos?

- Estava nesse dilema. Dilema sim. Duas soluções impossíveis: o salto ou o corte de punhal. Um dilema que hoje pra mim era um dilema imbecil. Estava assim, a tal ponto que cheguei a escrever um bilhete.

“Perdão papai, te amo; desculpa mamãe. Palhares, acredite, amei você, amei. Sem culpas, não culpo você, não culpo ninguém, nem os doces e as guloseimas. Não rezem por mim, pois até meu anjo da guarda não está mais aqui, do meu lado”. Escrevi este bilhete, tomei coragem e foi aí...

- Foi aí que essa apareceu (empregada ressurgem em cena, dançando ao som de uma música de Edith Piaf – Não me arrependo de nada. Consola a patroa com toques sutis, a transparência do amor platônico – ou não!)

Gisele Suminski já interpretou o monólogo Valsa N. 6, em peça que também resultou de oficina no NTU\UFPB

NON, JE NE REGRETTE RIEN

Letra de Michel Vaucaire, e melodia de Charles Dumont – Interpretação: Edit Piaf

Non! Rien de rien,

Non! Je ne regrette rien.

Ni le bien, qu'on m'a fait,

Ni le mal, tout ça m'est bien égal!

Non! Rien de rien,

Non! Je ne regrette rien.

C'est payé, balayé, oublié,

Je m'en fous du passé.

Avec me souvenirs,

J'ai allumé le feu,

Mes chagrins, mes plaisirs,

Je n'ai plus besoin d'eux.

Balayés les amours,

Avec leurs trémolos,

Balayés pour toujours,

Je repars à zéro.

Non! Rien de rien,

Non! Je ne regrette rien.

Ni le bien, qu'on m'a fait,

Ni le mal, tout ça m'est bien égal!

Non! Rien de rien,

Non! Je ne regrette rien.

Car ma vie, car mes joies,

Aujourd'hui, ça commence avec toi!

- Foi assim, assim mesmo. Coisas estranhas acontecem - boas inclusive. Pois, pra mim tudo era estranhamento. Ela apareceu, havia, como se diz, dobrado o Cabo da Boa Esperança; a tempestade varria minha vida. Em outras palavras: estava no fundo do poço. Mas eu havia enganado a morte!

(lança o punhal na direção do manequim – ou simplesmente crava o punhal em Palhares)

- Lembra dele? Do psicanalista, querendo precustar a minha vida. Foi direto ao passado: tudo o que ele queria saber, nem eu lembrava mais. E olhe que as técnicas de indução da psicanálise são letais.

-Se tive uma infância feliz? (pausa longa) Também não me lembro de momentos infelizes. A fase adolescente, essa sim, é que foi... Foi... Medíocre. Os hormônios explodindo, os seios crescendo, minha bunda tomando forma, virou a atenção dos olhares. Até me sentia bem, não seria uma tábua, tinha bacia, é, quadris, certamente seria uma divina mulher parideira, dessas com cinco, oito filhos, mas foi um período pudico. O pudor religioso, criminoso até, herdei da minha mãe, que era a hipocrisia em pessoa. Mas eu acreditava que beijar na boca era pecado, se alguém tocasse nos meus seios, era pecado, se passasse a mão aqui em baixo, arderia no fogo do inferno. O amor era pecado! Mas eu acreditava, ficava apavorada quando homens mais velhos me despiam com os olhos; achava que se me tocassem, confesso, eu não resistiria. Chegaria até a dizer Não! Quem sabe um Não que significasse sim, mas gritar, fazer escândalo, de jeito nenhum. Esse era o meu medo.

- Minha adolescência foi como uma moeda. Foi sim. E as coisas boas que me lembro sempre vinham embaladas em estranhamentos, já disse: essa aí ( aponta para fora de cena) foi uma coisa estranha na minha vida e ainda hoje é. Coisas, pessoas estranhas mexem com minhas entranhas. Mexem mesmo. Uma fase da vida foi medíocre; a outra foi estranhíssima, logo, a melhor parte.

- Foi estranho, foi mesmo. Essa fase, como é que dizem? Do advento da sexualidade também foi como uma moeda, e se divide em duas partes: antes e depois do Aldo. Foi mesmo, Aldo reduziu a pó minha mediocridade. É... Antes dele, do Palhares teve o Aldo.

- O Aldo, Ah! O Aldo, sabe, me capturou numa feira de ciências da escola. Quem era o Aldo? Seria meu professor? Vizinho? Um estranho? Um estranho que apareceu na feira de ciência como algo científico na minha vida. Eu tinha 14 anos, ou 15? E Era casado. Casadinho da silva. Não é que joguei charme? Dei bola? Dei bola sim, dei bola para um homem mais velho, e casado. Tinha o rosto de papai, o jeito de papai, a educação de papai, tudo, tudinho. Ele não me seduziu, até tremeu, mas o fato é que dei bola, me achando esperta, na base de que seria zorra com a cara dele.

- O Aldo era casado, já disse. Apaixonado pela esposa, pelos filhos, um doce, um homem com estilo, educadíssimo, mas também era um predador, um lobo em pele de cordeiro. O jeito parcimonioso era só disfarce. O safado gostava de meninas, me segredou certa vez. Não sei como, onde estava com a cabeça, só sei que fui parar dentro do carro dele, e ele, sem muita conversa, sorrateiramente, candidamente, foi dizendo... Te levo em casa, fica calma, confie em mim, não vou te machucar, tá? Isso, já enfiando o dedo mindinho no meu ouvido.

- Gente, confesso que pensei: vou ser violentada. Mas ali mesmo tomei a decisão: ficarei calada, calada, não vou dar um pio.

(Enfática) – Quando senti aquela respiração dele, e ele simplesmente com o dedo dentro da minha boca, só pensava na Celeste. A Celeste pensava o quê? Que só ela teria segredos para trancar num cofre? E a ideia de ser estuprada não me assustava. Sonhava até com um momento como aquele, como “em Meu Destino é Pecar”; a novela de Nelson Rodrigues.

- Qual nada. O Aldo me levou, na cara de pau, para um quarto de motel. Foi a primeira, das dezenas de vezes que entrei num motel, sempre no mesmo quarto, mesmos espelhos, mesma cama. Dez da manhã, e eu na minha primeira experiência científica com um homem. Aldo me conduzia como um regente conduz a orquestra. Orquestra sim, porque às preliminares são como uma orquestra executando hora, as Quatro Estações, de Vivaldi, hora com harmonia de um Bolero, de Ravel. Não resisti. Consegui falar, e o que eu disse? Disse:

- Eu ainda sou virgem!

- Vai continuar sendo, respondeu o canalha com um sorriso no canto da boca. Disse que Aldo era um cavalheiro, mas homem, vocês sabem, quando não é canalha na véspera, fatalmente será no fim ou logo no dia seguinte. Essas tais preliminares duraram uma eternidade, um idílio secreto que eu passava horas pensando: o que o Aldo vai fazer? Se ele quiser me penetrar, eu deixo. Hoje eu deixo, dizia comigo mesmo.

- Nua em êxtase, de pernas mais que fechadas quando eu abria os olhos, e abertas quando eu fechava os olhos. E ele dizia:

- “Você é menor, arranje um namorado, o futuro marido sempre merece o prêmio. Viu Palhares? O Aldo me ensinou tudo, tudo, e mais alguma coisa. Mas deixou o principal pra você, seu inútil sortudo! (bate no manequim) E tem mais: dez fantasias que um homem possa ter com uma mulher, proporcionei todas ao Aldo; e até mais se ele quisesse. E esse até mais aconteceu.

- Aldo me tratava como uma escrava sexual, uma escrava. Com 14 anos eu já era escrava sexual de alguém. Às vezes falava ao meu ouvido como um professor, didaticamente: hoje você vai sentir dor, mas não grite.

- E eu não gritava. Sentia dor em silêncio. Não gritava mesmo!

- Certa vez, ele me avisou. Sempre avisava. Hoje você vai sentir dor de novo. De fato doeu, e ele. Não grite!

- Soltei um grito ofegante.

- Não grite senão te mato!

- Ainda assim gemi de dor, pois tudo doía, estava nua e algemada e sodomizada pela primeira vez; e ele feito um senhor da sua escrava xingava, me cavalgando, xingando e me batendo.

- Pirralha e já uma vadia, ordinária!

- Apavorada perdi a noção das coisas, a algema apertava meus pulsos, eu chorava e a única coisa que vi bem, foi um revólver na cabeceira. Não conseguia gritar, não sei explicar, mas eu não queria que acabasse, mesmo me xingando e batendo.

- Vadia, esta vendo isso aqui, pirralha? É um revólver calibre 38 especial, cano curto, cinco tiros, percebeu? Assim ele me sacudia sem parar até ele mesmo soltar um gemido e me untando toda. Deitou-se do meu lado e confidenciou.

- O revólver era do meu pai, se matou com ele e agora ele é meu.

- Depois, quando tudo acabou, o encarei. Pela primeira vez encarei um homem daquela forma, e pedi.

- Agora me mate!

- Silêncio como resposta.

- Tu andas armado, então me dás um tiro, na boca. Na boca, um tiro na boca se tu fores homem.

- De novo, silêncio como resposta. Me libertou e me beijou e chorou no meu colo. Foi o melhor momento da minha vida. Aldo chorava no meu colo, como eu chorava no colo de papai. Aí surtei!

- Me mata, me mata agora, vai. Me mata, porra!

- Gislayne! Meu gim tônica!

-Isso foi antes de você Palhares e depois do Aldo não quis mais ser escrava de ninguém, e ele nunca me disse que me amava; amava mesmo era a esposa dele, só me beijava pra valer na cama, fora da cama só me cheirava como seu fosse filha dele. Descobri que eu era só um brinquedo sexual, uma escrava. Sabe, Palhares, naqueles dias, meses, eu fui escrava de alguém sem desejar libertação – a tal Servidão Voluntária! Depois daquele dia do revólver, não me procurou mais, foi à última vez, Aldo me abandou e pronto!

- Você, papa, veio depois. Muito depois. (carinhosamente para o manequim)

- Me beija! (abraça e beija o manequim, enquanto empregada surge em cena com bagagens. O punhal, que reaparece em cena é usado. Catharine aplica uma punhalada no boneco e sucumbe afogada num longo beijo da empregada)

João Costa, diretor e autor de Último Assalto de Um Casamento, também é radialista e analista político

FIM (João Pessoa – 2013\2014)

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