Morre Waldemar Dornelas, ícone do teatro paraibano na construção de cenários e carpintaria cênica

Morreu Waldemar Dornelas, carpinteiro e ceno-técnico do Teatro Santa Roza. Toda uma geração de atores, atrizes, diretores, dramaturgos, sonoplastas, figurinistas, cantares, músicos, entre os anos 1960\90 que subiu ao palco do Santa Roza, recebeu seu pedaço de reconhecimento do público mas, certamente, tem um pleito de gratidão para com Waldemar. Do seu ambiente de trabalho – a carpintaria do teatro – localizado no porão do teatro, abaixo do palco, Waldemar foi testemunha ocular, partícipe, construtor de cenários e co-autor de narrativas sem que seu nome constasse ao menos nos créditos.

As mãos ou a arte de Waldemar. O ator de teatro e cinema, Oswaldo Travassos, regata a montagem de “Coiteiros”, 1977. Do romance Fogo Morto, de José Lins do Rego e direção de Fernando Peixoto. Para este espetáculo, Waldemar construiu um cenário todo em madeira com um primeiro andar. As soluções dramáticas com a narrativa eram do Fernando Peixoto, na época, considerado um dos “papas” do teatro brasileiro dos “anos de chumbo”, mas a solução cênica foi do Valdemar. É importante citar esta montagem, pois dela participaram velhos e novos atores da época, que hoje estão velhos e atuantes na cena teatral.

Com Waldemar, o aprendizado era regra – Para dar meu testemunho sobre o “carpinteiro” do teatro paraibano, cito alguns espetáculos que dirigi e que também levam a assinatura de Waldemar. Sem ordem cronológica, peço licença para registrar “Um Edifício Chamado 200”, de Paulo Pontes, que dirigi em 1985. Também cenário todo em madeira e com primeiro andar, algo como “segundo palco”. Podia ser uma complicação colocá-lo no palco, mas sua funcionalidade se mostrou no futuro, pois o praticável projetado por Valdemar que ficava sobre o “segundo palco”, serviu por muitos anos de mini-palco, ou praticável, utilizado em shows de música e teatro, até mesmo em outro espaço, o Teatro Lima Penante. E, em “Um Edifício Chamado 200”, era apenas uma cama redonda, de motel, além de segundo andar.

Em “A Mulher Sem Pecado”, de Nelson Rodrigues, que dirigi também nos anos 1980, mais uma vez “as mãos” do Waldemar projetaram a concepção cênica, assim como em “A Lira dos 20 Anos”, o cenário (painéis luminosos e os porta-retratos gigantes) tinha a sua assinatura. O mesmo se repetiu em “Os Novos Ricos”, dramaturgia de Ednaldo do Egipto, que também dirigi e para esta peça Waldemar construiu o cenário, também em madeira.

Mas por que sempre cenários em madeira? Porque era a nossa formação teatral com base no chamado “teatro de gabinete”; e Waldemar tinha a solução.

Cenógrafo, Dornelas foi responsável pela construção de dezenas de cenários para peças teatrais no anos 70/80

Em particular, o velho carpinteiro do teatro Santa Roza, dava seus “palpites” cênicos. Pedia confidências para não ofender ou causar suscetibilidades.

Este o meu depoimento sobre Waldemar Dornelas, um homem de teatro, de bastidores, de convivência profissional.

Certa manhã, há uns três anos, acompanhei o ator e diretor Omar Brito, também documentarista, até a casa do Waldemar. Omar fora em busca de coletar depoimento sobre a contribuição do velho carpinteiro teatral, já enfermo e no “ostracismo” artístico no bairro do Roger. Foi um mergulho nas suas reminiscências e relatos da sua vida, vivida entre a oficina do porão e as coxias durante décadas, perpassando vários governos e administrações do Santa Roza.

Imagem feita durante entrevista para gravação de documentário sobre Waldemar(D) feito por Omar Brito

Waldemar estava internado no Hospital Padre Zé, e neste sábado, 16, faleceu em decorrência de problemas coronários e respiratórios. Luto no teatro paraibano.

Obrigado, Waldemar.

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