Monólogo em fase de montagem aborda recrudescimento do racismo no Brasil e vigor da resistência negr

A publicação recente do livro “Escravidão”, do jornalista Laurentino Gomes, reacendeu o debate sobre o assunto sob novas abordagens. O livro é brutal, pelas suas revelações, revoltante por lançar luz sobre nossa realidade social e as divergências semânticas entre “Escravos” e “Escravizados”; além de apontar que a Escravidão não é página virada da nossa História, não se esgota no presente com tamanhos retrocessos e aponta para incertezas futuras.

No teatro, já vinhamos amadurecendo essa recorrente abordagem: racismo à brasileira. O livro nos fez voltar atenção para a pesquisa e para a denúncia artística. Daí surge o texto “Núbia”, em fase de construção e sua encenação com ativistas negros. Grupo ensaia no Núcleo de Teatro da UFPB,àserças e quartas-feiras à tarde.O blog publica uma sinopse do monólogo que deverá ser interpretado por Sueli com direção de João Costa e assistência de Felipe Lima.

Imagem de ensaios no teatro Lima Penante

NÚBIA

Aurora da Infâmia (Viva a gente de Núbia!)

Roteiro de João Costa Oficina – 2019.

Monólogo para atriz/ator negro. Uma narrativa do primeiro leilão de escravos de origem africana realizado pela Coroa Portuguesa.

Atriz/ator – (surgem em cena de forma mística, em movimentos que se assemelhem a rituais de religiões de origens africanas)

- (Enfática) Eu sou Núbia! De onde venho nem precisa perguntar, pois já trago um carimbo na cor da pele. (com exaltação)Sou Senegâmbia ou D’Guiné para quem nasceu no Maranhão; sou de Benim-Songa-Mossi Hauçá-Niger para quem nasceu na Bahia; Pra quem é carioca digo que sou D’Angola!

(Alto) - Desde sempre sou Núbia! E, vocês aqui presentes ( com desdem), cafuçus, amarelos e àquelas que se acham morenas, cor de chocolate, mulatas, que muitos chamam de “cabelo ruim”, da “cor do pecado” “marrom bombom”, “cor de jambo” e até vocês, “negros de alma branca”, ( com orgulho) eu sou Núbia!

Atriz/ator – E estou passando para lembrar àqueles de alma e pele assemelhados a mim, núbios, o amanhecer de Oito de Agosto de 1444.

- Lembram desta data? Nunca Ouviram falar?

- Mas da lei Áurea, da Princesa Isabel, já. Né?

- E de Chica da Silva, nunca?

- Imaginem ser esta cidade como Lagos, em Algarve.

(interpreta brancos em estado de alegria que avistam caravelas)

- Vejam! Seis caravelas! Ouçam! Que maravilha! é este som dos nossos canhões! Viva a proteção dos canhões de Vossa Alteza!

Radialista João Costa conduz os ensaios de Quem Foi que Inventou o Brasil e Núbia com atores iniciantes

(contando escravos com estupor por ver negros pela primeira vez)

- Oh! Que maravilha! Um, dois, três... duzentos e trinta três, duzentos e trinta e quatro, duzentos e trinta e cinco! Homens, que músculos!

- Que mulheres, que ubres! “E se Senhorinha não abre mais as pernas, eesas negras são muita serventia para os varões e a novas estão prontas para procriação”!

- E meninos, e meninas! “Estes pesam mais de sete arrobas”; Que espécimes?

(Leiloeiro) - Quatro são de presente para a Igreja e para reforma do altar; O menino vai para Ordem Mendicante de São Francisco!

- Os demais 231 estão a venda! Quem se habilita! Quem dá mais,

-Vendido! (chama a atenção com expressões de encanto) O primeiro lote de 46 já está reservado para aquele homem de chapéu de abas largas e botas de cano comprido montado em seu cavalo – O glorioso infante Dom Henrique!

- Sim! Infante Dom Henrique. Núbios, Este nome nunca esqueçam! ( música e dança). Se a infâmia tem tem nome, o nome é esse: Dom Henrique!

(lamento) - Povo bantu, povo Berbere, de Gana e Songai, Cuxe. Oh! Gente de Núbia!

( professoral e didática, usando um chicote e dando chibatadas no ar ) - “Pelo que convinha a necessidade dos brancos se apartavam filhos dos pais; as mulheres, dos maridos; e os irmãos, uns dos outros. Não se guardava nenhuma lei, somente cada um caía onde a sorte o levava. ( com leve desespero) Alí, na hora da apartação, mães apertavam seus filhos nos braços e lançavam-se com eles de bruços; em troca, recebiam chibatadas com pouca piedade, que abriam feridas que permanecem abertas até hoje, e agora pedem que esqueçamos tudo!

(com furor e raiva) - Nunca!

- Pois olho pra este Oceano e só o que vejo é um cemitério de águas azuis onde Dois Milhões de nossos corpos serviram de refeição aos tubarões. Carne podre de negros mortos por doenças e inanição jogada ao mar mudou o hábito até dos tubarões – e me pedem para perdoar e esquecer.

-Nunca!

- Pergunto se foi ato de fé cristã queimar ou atanazar com lacre nossas bocas, cortar-nos as orelhas e narizes, marcar nossas carnes nos peitos e ainda na cara, abrasar nossos beiços e bocas com tições ardentes? E pedem para relevar e esquecer.

-Nunca!

- Ah! A Santa Igreja Católica! Ah! O abominável Padre Vieira, tão decantado em prosa e versos brancos. Foi ele quem pregou que o nosso martírio na escravidão fora um milagre de Nossa Senhora do Rosário!

(como um insulto) - Vai te danar, Padre Vieira!

( pregando para os fieis)- “Porque ela, a escravidão, vos tirou da barbárie e do paganismo na África e ainda nos mandou santificar o trabalho. Padre Vieira, vai te danar!

- Pelo Rosário, disse que nos engenhos éramos imitadores de Cristo crucificado; e me pedem para rezar o Rosário, perdoar e esquecer.

-Nunca!

- E tem negro que acredita que nossa gente escrava vivia melhor que quando libertos na África, que nós descendentes de Núbia, de Senegâmbia ou D’Guiné; de Benim-Songa-Mossi Hauçá-Niger ou D’Angola!

- e que basta se formar em Medicina, virar miliciano ou soldado de polícia, tornar-se capitão-do-mato ou jogador de futebol e passar Enê Maru nos cabelos para como brancas ficar.

Vá à merda Negro Branco, Moderno capitão-doi-mato, vai pro inferno Padre Vieira!

(Dança para rituais africanos – apenas uma performance de dois minutos)

Esboço do monólogo, Núbia.

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