“Galinhas-Verdes” voltam à cena política brasileira; censura se consolida com “destruição do univers

No início da década de 1980, participei do grupo de Teatro Universitário Ideodrama, formado inicialmente estudantes universitários, organizado pelo professor Alarico Correia, e depois liderado por mim. Iniciamos com a montagem de uma peça chamada “A Empresa Perdoa Um Momento de Loucura”, este grupo percorreu várias cidades paraibanas participando das semanas universitárias, já com outro espetáculo: “A Família”, um roteiro que escrevi e dirigi narrando a aflição de uma família em busca de parentes “desaparecidos” nos anos duros da Ditadura Militar, que ainda vivíamos, mas na fase da tal abertura “lenta e gradual”.

A peça abria com uma cena de marchas Integralistas, durante a Ditadura Vargas, em 1932, para mostrar o viés Fascista da ideologia do regime que governara o Brasil de 1964 a 1985. A atriz Lourdinha Burity surgia em cena portando o estandarte fascista, bradando um texto do Manifesto do líder Fascista, Plínio Salgado, cumprimentando a plateia com a palavra tupi “Anauê”, que significa na língua Tupi “Você é meu Irmão” (foto de uma apresentação).

Imagem: atriz Lourdinha Burity com bandeira do Integralismo; ao fundo a atriz Glória Rabay

Os “Galinhas-verdes” reapareceram em cena dando face ao sentimento que permeia setores da classe média brasileira. Os portais de notícias reportaram no dia 17/12/2019, uma marcha de 15 pessoas na Av. Paulista, vestidas à caráter (roupas verdes) e bradando “Anauê”, em recordação aos 80 anos do Manifesto Integralista. Jornais paulistas noticiaram o fato no dia seguinte em tom de nostalgia e alento por sua identificação com o regime reinante no país. Lembrando que Vargas, para instaurar sua ditadura nos anos 30, usou os Integralistas como aliados e depois os descartou mandando todo mundo pra cadeia.

Afinal, slogan como “Deus, Pátria e Família”, sempre é útil. Foi útil em 1932, 64 e está sendo agora com mais vigor, com a militância política dos evangélicos. E Deus, pátria e família estão de volta são recorrentemente propagados pelo regime que atualmente governa o Brasil – e pasmem! Pelo voto popular. Mas isso é tema para outro artigo.

Integralistas marcham na Av. Paulista com a saudação fascista; em 1932 eram chamados de "galinhas-verdes"

O assunto aqui é teatro. O ator e diretor Wagner Moura, que dirigiu o filme Marighella, ainda não exibido no Brasil por conta de censura e intimidação, fez um protesto em Nova York, durante uma sessão de exibição da película. "Eu não gosto de falar do 'Marighella' como um caso isolado: todo o universo da cultura, no Brasil, está basicamente destruído”, disse o ator, que ficou célebre num filme interpretando um capitão do Bope, chamado “Tropa de Elite”; dirigido por José Padilha, e que apresenta uma narrativa do terrorismo de estado a que está submetido o Rio de Janeiro atualmente.

Wagner Moura no papel do cap. Nascimento em filme que retrata terrorismo de estado no Rio

Moura integra o rol dos artistas que já se lançaram em campo contra o atual regime, que se consolida com apoio do fundamentalismo evangélico, milícias armadas e da classe média ressentida por conta do seu histórico ódio aos pobres e à cultura nacional. Quando ele diz que o “universo da cultura está basicamente destruído”, estaria exagerando?

Ou o estado de exceção está se consolidando com dando passos firmes na instauração de um novo modo de censura?

Mais ainda. Agressões físicas e morais a artistas como Fernanda Montenegro, Chico Buarque, Chico César e muitos não famosos são fatos recorrentes desde 2013.

Lamentavelmente, a reação ao avanço dos fascistas e extremistas de direita no controle do estado e da cultura (inclusive na Paraíba), é quase nada. Tem sido mais fácil e prazeroso a militância no Face e nas redes sociais.

2020 promete e vai ser ainda mais sombrio.

Opinião

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