Teatro: "Não me toques", expressão dita por Jesus a Maria de Magdala, voltará a ser demons

"Noli me Tangere" ("Não me toques") é uma fala da célebre cena do Novo Testamento descrita no Evangelho segundo São João: o instante em que, diante do sepulcro vazio, Maria Madalena reconhece Jesus na figura de um jardineiro e, ao estender a mão na direção dele, é logo alertada: "Não me toques". A cena que foi motivo para inúmeros pintores, músicos e dramaturgos nos tempos atuais também será nos que virão.

O “Não me toques” se fossemos parafrasear a piada enviada e não correspondida de Ariano Suassuna, soaria como “eu gosto muito de você, sei que você gosta de mim; bom seria dar-lhe um beijo ou um abraço; estou mais do que nunca do seu lado e sei que você está do meu, mas não me toques”.

Imagem: Wikipedia "Noli me Tangere", quadro

Esse “não me toques” nem de longe significa ou significará distanciamento social, mas preservação do que restou de social antes da Covid-19. Resta uma grave pergunta: como a humanidade se deixou surpreender por um vírus tão letal, de certa forma já conhecido pelos cientistas?

Cena de Maria Madalena com Jesus no túmulo como inspiração para preservação do afeto

A dramática cena de Maria Madalena e Jesus ocorre diante do sepulcro, de madrugada, momento em que Maria de Magdala confunde seu Mestre com o jardineiro, exatamente porque sentia a sua AUSÊNCIA, talvez como nós sentimos agora a ausência de filhos, de avós, Paes e mães. E amigos(as) em torno de uma mesa de bar ou café.

No teatro, aprendemos e procuramos transmitir um modelo de como é possível evitar e encarar a AUSÊNCIA do real, porque os atores e sua arte tem horror ao vazio, por isso criamos uma presença. Ressuscitamos tudo aquilo que desapareceu. Nisso reside a força do teatro que fazemos porque o ressuscitado só existe ou faz sentido pelo seu desparecimento.

Se a a afetividade desapareceu assim como as celebrações de aniversários, casamentos, papo-furado no cafezinho do shopping, o “não me toques” longe de aprofundar esse desaparecimento, significará aproximação, afeto e amor, porque queremos o outro vivo, não como ressuscitado. Pós-pandemia, quando os teatros reabrirem, os textos, encenações e interpretações falarão desse “não me toques” como declaração de civilidade.

O afeto e todas as suas vertentes ao desaparecer como um morto na arte teatral que nos espera, passarão a existir para sempre; a aparição no palco daquilo que morreu será, na verdade, a aparição da sua ausência. O principal não estará no palco, tudo dependerá do espectador. “tornar intensa a presença de uma ausência, enquanto ausência”.

A arte moderna também é isso. O principal não está lá. Tudo depende do espectador. Tudo está no seu olhar.

Representar na arte é "tornar intensa a presença de uma ausência, enquanto ausência", como diria o filósofo Jean-Luc Nancy em um dos seus escritos sobre teatro.

Fique em casa, o “Não me Toques” será bem-vindo depois!

Wikipedia: imagens Quadros de ilustração

Nacional Geografic

Tags:

Por Trás do Blog
Leitura Recomendada
Procurar por Tags
Siga "PELO MUNDO"
  • Facebook Basic Black
  • Twitter Basic Black
  • Google+ Basic Black