Maria Bonita – nome de fantasia do universo feminino brasileiro inspirado em romance e cinema dos an

Maria Gomes de Oliveira, esse o nome de batismo da mulher mais famosa da História do Cangaço. A narrativa de sua trajetória é cantada em prosa verso e segue analisada na atualidade por romancistas e jornalistas investigativos de fatos históricos ainda não de um todo compreendidos ou explicados. A começar pelo apelido Maria Bonita, que a tornou conhecida e emblemática até feminismo, algo que ela jamais conheceu. Muito o que se sabe, tem como fonte a tradição oral – filtrada por pesquisadores abalizados - resulta em relatos confiáveis.

Até porque as interpretações dadas aos acontecimentos da “Guerra ao Cangaço” lançada pelo governo Getúlio Vargas, e suas nuances sociais, se baseiam na narrativa oral de poetas, romancistas, descendentes, jornalistas e outros.

Imagem a partir da página Cangaço Eterno. De Benjamim Abraão. colorido de Rubens Antônio

Incrível constatar que o nome Maria Bonita vem de fonte urbana e não rural, segundo o jornalista Melchiades da Rocha, famoso por ser o único repórter a chegar em Angico e documentar os acontecimentos – isso uma semana após o famoso tiroteio que precipitou o fim do cangaço, com a morte de Virgulino Ferreira da Silva, sua companheira, Maria de Déa, como também era conhecida Maria Bonita; nove cangaceiros e um soldado.

Uma das fotos de Maria Bonita feitas por Melchiades em Angico, expõe ao mundo a heroína do cangaço já sem cabeça e de saias curtas para os padrões da época, que em relato do pesquisador Frederico Pernambucano, o repórter a descreve como “bem-feita, seios pequenos e nádegas um pouco batidas” e a revelação incrível sobre a origem do apelido.

Criatividade jornalística que romanceava reportagens sobre a Guerra ao Cangaço, lançada por Getúlio

Segundo ele, “coisa da criatividade de repórteres do Rio de Janeiro”, Mechiadas entre eles. E a pérola que revela os arquétipos da feminilidade do inicio do século XX: o padrão de beleza feminina das mulheres brasileiras – urbanas ou rurais – tinha como fonte romances e o cinema. Eis aí a origem do apelido Maria Bonita.

No jornalismo de ontem, como hoje, os apelidos pelos quais personagens famosos foram (são) conhecidos dão padronização às reportagens, porque facilitam a compreensão do leitor, além de criar um universo paralelo ao que se descreve numa reportagem. Assim, jornalistas e escritores – em qualquer época - lançam mão de nomes e apelidos. O Maria Bonita, revela Machiades, veio da literatura adaptada ao cinema.

Maria Bonita e Lampião, que lê a revista carioca "A Noite Ilustrada", 1936, feita pelo libanês Benjamim Abraão

Maria Bonita, um romance de 1914 de autoria de Júlio Afrânio Peixoto, escritor e médico baiano, famoso e radicado na capital federal – o Rio de Janeiro, tornou-se algo como “leitura obrigatória” do universo feminino. Esse romance mereceu oito edições. Maria Bonita deu “nome a muita mocinha registrada em cartório no começo do século XX”. Nada de extraordinário, porque esse hábito, de dar nomes aos filhos por influência literária, do cinema ou das novelas de TV , é recorrente na sociedade brasileira, seja ela urbana ou rural.

Maria Bonita, a do romance, narra a trajetória de “uma matutinha que emigra dos Sertões para o Litoral” e tal e qual muitas outras heroínas cantadas em prosa e verso, encarna a “mulher pura de pensamento e de conduta que padece pela vida, arcando com o ônus de uma beleza que enlouquece os homens, sem conseguir evitar que as maiores desgraças se abatam sobre as pessoas que lhe são mais caras”, assinala Frederico Pernambucano em seu indispensável livro “Apagando Lampião”.

Aliás, pouco se sabe, por exemplo, sobre José Miguel da Silva, primeiro marido de Maria de Déa, nossa heroína. Além do fato de ter sido alcoólatra, estéril e violento. A propósito, esse personagem, José Miguel, está sendo fonte de pesquisa ao romancista Tarcísio Pereira, ainda em fase de redação. José Miguel, que jamais deu entrevista ou falou sobre sua vida com Maria, mas que chegou ao fim da vida razoavelmente rico e dono de indústria.

Mulheres no cangaço portavam armas curtas, não entravam em combate, à exceção de Dada, que usava fuzil

O romance Maria Bonita virou filme de sucesso nos anos 30, e ficou em longa temporada na Cinelândia. Os jornalistas que reportavam o Cangaço, a partir do Rio de Janeiro, baseados em telegramas oficiais ou relatos, assim, disse Mechiades, recorreram ao nome de fantasia e cinematográfico “Maria Bonita” associando-o à companheira de Lampião. Dava mais “charme” às reportagens sobre o cangaço, digamos assim.

Relatos oficiais identificam a companheira de Lampíão pelo nome de fantasia “Maria Bonita” referido não só por repórteres, mas em documentos. No telegrama que o tenente João Bezerra envia ao comandante-geral do Regimento Policial Militar de Alagoas, Theodoreto Camargo, está grafado o seguinte:

Maria Bonita, em pose com chamada "roupa de domingo", usada em ocasiões especiais; vestido rente aos joelhos

“Piranhas,28 – Hora 14 Cmte Theodoreto – Maceió. Rejubilado vitória nossa força, cumpre-me cientificar vossoria que hoje, conjuntamente volantes aspirante Ferreira, sargento Aniceto, cercamos Lampião no lugar Angico no Estado de Sergipe, o tiroteio resultou morte nove bandidos duas bandidas inclusive Lampião, Ângelo Roque, Luiz Pedro, Maria Bonita, os quais foram reconhecidos. Da Volante aspirante Ferreira, houve baixa um soldado saindo outro ferido. Também me encontro ferido”. Saudações Tenente João Bezerra – comte Volante.

Um folheto “A Morte de Lampião”, de João Martins Athayde, escrito na semana seguinte aos acontecimentos de Angico, diz o seguinte:

A tal Maria Bonita/Amante de Lampião/Sua cabeça está inteira/Mostrando grande inchação/Mas assim mesmo se via/Uns traços de simpatia/Da cabocla do Sertão/Morreu Maria Bonita:que Deus tenha compaixão/Perdoando os grandes crimes/Que ela fez pelo Sertão/Nos livre de outra desdita/Que outra Maria Bonita/Não surja mais no Sertão.

Afinal, Maria Gomes de Oliveira, ao ingressar no cangaço, já era mulher muito além do seus tempo. A mulher infeliz no casamento que se separa do marido e larga tudo por um novo amor; segue esse “amado e amante” que vive das armas, e ainda em vida é uma lenda na região onde vive. “A vida imitando a arte”.

Fonte: “Apagando Lampião”, de Frederico P. de Mello.

“A Morte de Lampião”, folheto de J. Athaide, vendido em trens da Great Western. Anexo História do Cordel 1980.

Fotos: Benjamim Abraão. Acervo “Aba Filmes” Wikipédia

foto colorida por Rubens Antônio/Face Cangaço Eterno

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