Geopolítica: Putin analisa tendência do Ocidente em se contrapor à URSS em questões de segurança (Pa

Artigo de Vladimir Putin publicado pelo site Sputniknews Brasil

Acordo de Munique

O Acordo de Munique mostrou à União Soviética que os países ocidentais iriam lidar com as questões de segurança sem considerar os interesses da URSS, e se possível, formariam uma frente antissoviética.

No entanto, a União Soviética tentou até ao fim utilizar qualquer chance para criar uma coalizão anti-Hitler, apesar da duplicidade dos países ocidentais. Através dos serviços de inteligência, as autoridades soviéticas receberam informações detalhadas sobre contatos de bastidores entre os britânicos e os alemães no verão de 1939. Chamo a atenção que estes contatos eram conduzidos com muita frequência, e de forma quase que simultânea com as conversações trilaterais entre os representantes da França, do Reino Unido e da União Soviética, que eram artificialmente prolongadas pelos parceiros ocidentais.

Citarei um documento dos arquivos britânicos, que contém instruções à missão militar britânica que chegou a Moscou em agosto de 1939. O documento afirma explicitamente que a delegação deveria prosseguir com as "negociações de maneira bastante lenta"; e que o "governo britânico não estava pronto para assumir obrigações detalhadas que possam limitar nossa liberdade de ação sob quaisquer circunstâncias". Sublinho ainda que, ao contrário dos britânicos e franceses, a delegação soviética era liderada pelo alto comando do Exército Vermelho, que tinha a autoridade necessária para "assinar uma convenção militar sobre a organização de defesa militar do Reino Unido, da França e da União Soviética contra a agressão na Europa".

Imagem: Vladimir Putin, líder russo

A Polônia, que não queria ter obrigações com os soviéticos, desempenhou seu papel no fracasso das negociações. Mesmo sendo pressionada pelos aliados ocidentais, a liderança polonesa rejeitou a ideia de uma ação conjunta com o Exército Vermelho para combater a Wehrmacht. E foi somente depois de saber da chegada de Ribbentrop a Moscou, que J. Beck, a contragosto e indiretamente, através de diplomatas franceses, notificou o lado soviético: "... no caso de ações conjuntas contra a agressão alemã, não é descartada a cooperação entre a Polônia e a União Soviética, sob condições técnicas a serem determinadas". Ao mesmo tempo, ele explicou a seus colegas: "... concordei com isso apenas para facilitar a tática, nossa posição inicial em relação à União Soviética é definitiva e permanece inalterada".

Nestas circunstâncias, a União Soviética assinou o pacto de não agressão com a Alemanha, sendo o último país a fazê-lo entre os países europeus. O acordo foi firmado diante de uma ameaça real de guerra em duas frentes, uma com a Alemanha a oeste e outra com o Japão a leste, onde ocorriam intensas batalhas no rio Khalkhin Gol.

Stalin e seu círculo próximo merecem muitas acusações justas. Nos lembramos dos crimes cometidos pelo regime contra seu próprio povo e o terror das repressões em massa. Repito: os líderes soviéticos podem ser criticados de muitas coisas, mas não de ausência de compreensão quanto ao caráter das ameaças externas. Eles viram como tentavam deixar a União Soviética sozinha com a Alemanha e seus aliados. Tendo esta ameaça real em mente, eles procuraram ganhar tempo para fortalecer as defesas do país.

Hoje, há diversas especulações e acusações contra a Rússia ligadas ao pacto de não agressão assinado na época. Sim, a Rússia é o estado sucessor legal da União Soviética e do período soviético, com todas as vitórias e tragédias, é parte da nossa história milenar. Contudo, recordo que a União Soviética realizou uma avaliação geral e moral do chamado Pacto Molotov–Ribbentrop. Em uma resolução do Soviete Supremo de 24 de dezembro de 1989 denunciou oficialmente os protocolos secretos como "ato de poder pessoal", que não refletia a "vontade do povo soviético, que não é responsável pelo pacto".

Entretanto, outros países preferiram esquecer os acordos assinados por políticos nazistas e ocidentais, sem falar na avaliação jurídica ou política de tal cooperação, incluindo o consentimento tácito, ou mesmo encorajamento direto, por parte de alguns políticos europeus quanto aos planos bárbaros dos nazistas. Basta recordar a frase do embaixador polonês na Alemanha, J. Lipski durante conversa com Hitler em 20 de setembro de 1938: "...por resolver a questão judaica, nós [os poloneses] colocaremos uma bela estátua em Varsóvia".

Não sabemos se havia um "protocolo secreto" ou anexos aos acordos de diversos países com os nazistas, restando apenas acreditar nas palavras deles. Principalmente, os materiais sobre as negociações secretas anglo-alemãs, que não foram desclassificados. Portanto, instamos a todos os países a intensificarem o processo de abertura de seus arquivos, publicando documentos anteriormente desconhecidos dos tempos pré-guerra, da mesma maneira que a Rússia tem feito nos últimos anos. Nesse contexto, estamos prontos para cooperar, para projetos conjuntos de pesquisa, envolvendo historiadores.

Retomemos os eventos que antecederam a Segunda Guerra Mundial. Seria ingênuo acreditar que Hitler, após reprimir a Tchecoslováquia, não faria novas reivindicações territoriais, desta vez em relação a seu recente cúmplice no desmembramento da Tchecoslováquia, a Polônia. Aqui, o legado de Versalhes também foi usado como pretexto, o destino do chamado corredor de Danzig. A tragédia da Polônia que se seguiu é de total responsabilidade dos líderes poloneses, que impediram a formação de uma aliança militar entre o Reino Unido, a França e a União Soviética, contando com a ajuda de seus aliados ocidentais, e jogaram seu próprio povo à máquina de destruição de Hitler.

A ofensiva alemã foi montada de acordo com a doutrina blitzkrieg. Apesar da violenta e heroica resistência do exército polonês, em 8 de setembro de 1939, apenas uma semana após o início da guerra, as tropas alemãs estavam se aproximando de Varsóvia. Em 17 de setembro, os líderes militares e políticos da Polônia haviam fugido para a Romênia, abandonando seu povo, que continuou a lutar contra os invasores.

Coluna de blindados russos em direção a evento que assinala o o final e a vitória soviética na II Guerra Mundial

A esperança da Polônia na ajuda de seus aliados ocidentais não deu resultado. Depois que a guerra contra a Alemanha foi declarada, as tropas francesas avançaram apenas por alguns quilômetros no território alemão. Tudo isso parecia uma simples demonstração de ações de combate. Além disso, o Conselho Supremo de Guerra Anglo-Francês, realizando seu primeiro encontro em 12 de setembro de 1939 na cidade francesa de Abbeville, decidiu suspender a ofensiva, tendo em vista os rápidos desenvolvimentos na Polônia. Foi quando começou a chamada "guerra de mentiras". Esta foi uma traição direta da França e do Reino Unido ante suas obrigações para com a Polônia.

Posteriormente, durante os julgamentos de Nuremberg, os generais alemães explicaram seu rápido sucesso no Oriente. O ex-chefe da equipe de operações do alto comando das Forças Armadas alemãs, general Alfred Jodl, admitiu: "... não sofremos derrotas desde 1939 apenas porque aproximadamente 110 divisões francesas e britânicas, que estavam no ocidente contra 23 divisões alemãs durante nossa guerra com a Polônia, permaneceram absolutamente inativas".

Arquivos recuperados dos alemães e revelados mostram dubiedades

Pedi a recuperação dos arquivos de toda a diversidade de materiais dos contatos entre a União Soviética e a Alemanha naqueles dias dramáticos de agosto e setembro de 1939. De acordo com os documentos, a cláusula 2 do Protocolo Secreto do Pacto de Não Agressão entre a Alemanha e a URSS de 23 de agosto de 1939 estabelecia que, em caso de reorganização político-territorial dos distritos que compõem a Polônia, a fronteira das esferas de interesse dos dois países seria "aproximadamente ao longo dos rios Narew, Vístula e San" . Em outras palavras, a esfera de influência soviética incluía não apenas os territórios que abrigavam principalmente a população ucraniana e bielorrussa, como também as terras polonesas entre o Vístula e o Bug. Poucos sabem deste fato.

Da mesma forma, pouquíssimos sabem que, logo após o ataque à Polônia, nos primeiros dias de setembro de 1939, Berlim insistiu que Moscou se juntasse às ações militares. No entanto, a liderança soviética ignorou estes apelos e não queria se envolver nos acontecimentos dramáticos até o último momento.

Somente quando ficou absolutamente claro que o Reino Unido e a França não ajudariam seu aliado e que a Wehrmacht poderia rapidamente ocupar toda a Polônia, chegando às proximidades de Minsk, é que a União Soviética decidiu enviar na manhã de 17 setembro unidades do Exército Vermelho para as chamadas fronteiras orientais, que hoje fazem parte dos territórios da Bielorrússia, Ucrânia e Lituânia.

Guerra inevitável contra o nazismo

Obviamente, não havia opção. Caso contrário, a União Soviética estaria em risco, repito, a antiga fronteira entre a Polônia e a União Soviética passava a apenas alguns quilômetros de Minsk, e a inevitável guerra com os nazistas começaria a partir de posições estratégicas extremamente desfavoráveis, enquanto milhões de pessoas de diferentes nacionalidades, incluindo os judeus que moravam perto de Brest e Grodno, Przemysl, Lvov e Wilno, seriam exterminados às mãos dos nazistas e seus subordinados locais, antissemitas e nacionalistas radicais.

O fato de a União Soviética ter tentado evitar o conflito o maior tempo possível e não estar disposta a lutar lado a lado com a Alemanha foi a razão pela qual o primeiro confronto entre as tropas soviéticas e alemãs ocorreu mais a leste da linha especificada no protocolo secreto. Não foi ao longo do rio Vístula, mas mais próximo da chamada Linha Curzon, que em 1919 foi recomendada pela Tríplice Entente como a fronteira oriental da Polônia.

Soldado ergue bandeira da antiga URSS após a derrota do exército de Hitler

Como se sabe, quase não faz sentido usar o subjuntivo quando falamos dos eventos passados. Posso dizer que, em setembro de 1939, a liderança soviética teve a oportunidade de mover as fronteiras ocidentais da União Soviética ainda mais para ocidente, até Varsóvia, mas decidiu não o fazer.

Os alemães sugeriram fixar o novo 'status quo'. Em 28 de setembro de 1939, Joachim von Ribbentrop e V. Molotov assinaram em Moscou o Tratado de Fronteira entre a União Soviética e a Alemanha, bem como o protocolo secreto sobre a mudança da fronteira nacional, reconhecendo a linha de demarcação onde estavam os dois exércitos.

Fonte e imagens; Sputniknews

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