Protagonismo das mulheres em armas que a narrativa da História do Cangaço ofuscou

Alina Eponina de Sá – Quem foi e o que fez?

A historiografia do Cangaço é pródiga em subestimar o papel das mulheres nas narrativas da guerra, sociais, culturais e, até, de ações impositivas, como foi a trajetória de Sérgia Ribeiro, a Dadá, em muitos momentos manejando o fuzil de Corisco - o marido inválido para o combate.

Conferir e destacar aspectos morais como infidelidade conjugal num universo machista e brutal reinante nos Sertões; beleza (a que se atribui a Lídia, companheira de Zé Baiano), o amor de Jovina Maria da Conceição, que adotou o pseudônimo de Durvalina Gomes de Sá por Virgínio Fortunato da Silva, ex-cunhado de Virgulino Ferreira é louvável e até necessário, porque sem estas “Vivandeiras”, a história do cangaço não seria a mesma.

Mulheres portavam armas curtas para defesa pessoal numa cena de combate ensaiada por Benjamim Abraão

Observando dados de pesquisadores, em torno de sessenta mulheres integravam o grupo principal de Lampião e os subgrupos do cangaço. Ao contrário das “Vivandeiras” que seguiram a Coluna Prestes (1925-27) ou mesmo as que acompanharam soldados do Exército na Guerra Civil de Canudos(1896), as “Vivandeiras do Cangaço” não foram incorporadas ao movimento como serviçais domésticas, nem muito menos como objetos sexuais de domínio coletivo de homens brutais. Verdadeiros também são os relatos de raptos e práticas de estupros – que desapareceram exatamente quando da presença e do convívio com “ELAS”.

É possível até acrescentar tons épicos para as histórias de vida de Maria de Déa e Durvinha (que ingressaram na vida bandoleira por opção, amor), Dadá, Lídia, Adília, Sila Ribeiro e dezenas de outras “vivandeiras do Cangaço”, que morreram; outras assassinadas em razão do padrão moral e feminicida que até hoje predomina na sociedade de forma até impune.

Mas antes delas, que outra mulher se destacou na vida cangaceira, pegou em armas para seguir o companheiro voluntariamente como foram os casos de Durvinha, que amavaVirgínio, Maria Bonita que se apaixonara por Lampião?

Alina Eponina de Sá, prima e esposa de Sinhô Pereira.

Esta mulher pouco conhecida até por pesquisadores, passou a ter uma vida cangaceira em 1919, data de seu casamento no religioso com o já cangaceiro Sinhô Pereira, primeiro chefe de Virgulino, antes da era Lampiônica.

O relato é dela mesma, em entrevista ao jornal O Povo, de Fortaleza, em 1968, ao escritor e jornalista Otacílio Anselmo. Alina Eponina, de fato, foi a mulher pioneira no cangaço – e pouco, muito pouco mesmo, se sabe sobre seu perfil.

Alina Eponina, imagem que restou

Ela mesma narra que foi criada no mesmo universo rural do primo, casou por amor e seguiu o marido pelo tempo que este permaneceu no cangaço; acompanhou Sinhô Pereira quando depôs as armas e foi para Goiás, e depois morar em Minas Gerais até 1958.

Alina revela que ao casar com Sinhô Pereira era nove anos mais moça que ele e fora abandonada por Pereira, já em Minas Gerais, simplesmente “trocada” por uma mulher mais nova.

A matéria do jornal O Povo, pinçada pelo escritor Frederico Pernambucano de Mello, no livro “Apagando Lampião” tem trechos assim:

“Alina passou a viver com o marido a partir do dia do casamento, havendo tomado parte em todos os combates travados desde aquela data, utilizando um rifle cano de mamão”.

Isso em 1919. Outra mulher que só haveria de manejar armas e impor autoridade a homens em armas, foi Dadá, entre os anos de 1929 e 1940.

Diz ainda Anselmo em sua matéria.

“O que mais assinalou sua audacíssima união com Sinhô Pereira foi o nascimento do filho, Severino Pereira, em 1922, já em Goiás; sem esquecer que a travessia de Sinhô Pereira deste estado para Minas, se deu em meio a pesados tiroteios”.

Alina nasceu no longo domínio territorial de Serra Talhada. Depois de seguir o marido pelo Pajeú de Pernambuco, Ceará; depois Goiás e Minas Gerais, voltou para o Ceará.

Maria Bonita em foto produzida para o filme realizado em 1936 por B. Abraão, único a documentar o cangaço

“Dona Lina” com ficou conhecida na velhice, morreu em junho de 1972, e foi sepultada no Cemitério de Jati-CE.

Na historiografia da mulher no Cangaço, há lacunas gigantescas a serem preenchidas por pesquisadores À elas não cabem simplesmente papéis de coadjuvantes de seus companheiros, limitados a sexo, civilidade ou mesmo de vitimização, mas é preciso acrescentar e destacar posturas e regras civilizadas que ELAS mesmas, com naturalidade, impuseram a homens celerados, ladrões, salteadores, injustiçados; simplesmente homens e seu tempo.

E outros aspectos caros ao universo feminino como gestação, higiene pessoal, a negação à afetividade aos filhos nascidos na caatinga, partos dolorosos sem direito a gemidos ou gritos, sororidade entre companheiras. A guerra não é exclusividade dos homens.

Fotos: coloridas a partir de trabalho de Rubens Antonio e Sérgio Ribeiro com base no acervo fotográfico de Benjam Abraão, para ABBA Filmes.

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