Como um militar de “modos delicados” foi destacado para fazer a segurança numa vila em guerra contra

O soldado 511

A vasta literatura sobre o cangaço, - essencialmente sobre o período Aniônico, deixa rastros sobre personagens que, em proporções variadas, foram importantes ou até mesmo curiosos. É o caso do Soldado 511.

Sobre esse soldado da Polícia Militar de Pernambuco há poucas citações por pesquisadores, nem referências fotográficas. Mas, para aqueles pesquisadores ou admiradores desse fenômeno social, cultural e político-criminal que foi o cangaço, o Soldado 511, é um caso à parte, talvez pela sua situação inacreditável.

A vila de Nazaré do Pico, Floresta-PE é, reconhecidamente, a cidade-berço de dezenas de jovens que se alistaram nas volantes de perseguição a Virgulino Ferreira da Silva. A família de Lampião morou nas redondezas e lá foi palco dos primeiros entreveros entre os irmãos Ferreira e as famílias Jurubeba e outras. Uma vila em que o próprio comandante da Polícia ameaçou incendiar tudo porque considerava um “caso perdido”, um covil de coiteiros e de parentes de Lampião.

Imagem: civis integrantes de forças volantes

Imaginem uma vila em que a qualquer hora poderia ocorrer uma invasão de Virgulino e seu bando com possibilidade real de tiroteios e tudo o mais, e para lá ser destacado um único e escasso policial para estabelecer a ordem.

Foi exatamente o que ocorreu ao soldado José Paulino da Silva – O Soldado 511. Não há descrição de que tenha sido do tipo truculento, arbitrário, estereótipo do homem mau. Pelo contrário.

O Soldado 551 é descrito pelos seus modos delicados, extrovertido; de hábito notívago e que durante sua permanência nessa vila estabeleceu relações de respeito, lealdade e que, quando “chegou a hora da onça beber água”, manteve-se firme com seu fuzil, enquanto a Vila ardia de baixo de chuva de balas entre os Nazaré ( era assim que Lampião se referia aos do lugar) e o bando dos irmãos Ferreira.

Volante "Nazarés" incorporou até crianças para combate

Vejam só que relato fantástico encontrado na página 121 do livro “Lampião – Memória de um Soldado de Volante”, de João Gomes de Lira, soldado da volante Nazarena. A partir deste ponto,

“No dia seguinte dentro da caatinga, a força avistou a barraca onde estava o cangaceiro. Fizeram fogo contra a mesma, morrendo o cangaceiro Piloto. Antônio Capuchu (curandeiro), durante o tiroteio, correu desorientado, escapando com as mãos pelo chão. Na carreira, enganchou-se nos cipós, saltando-lhe a rótula do lugar, causando-lhe grande dificuldade para correr. Porém, com o zunido das balas, Capuchu corria numa velocidade, que até parecia que a rótula no seu legítimo lugar.

Bando de Lampião, após suposto acordo secreto com o governo de Pernambuco, chega ao território baiano

No rompimento definitivo de Nazaré com Lampião, João Nunes ( comandante das forças Volantes em PE) deixou à disposição de Gomes o soldado José Paulino da Silva (511). Este soldado, pelo seu delicado modo de tratar a todos, tornou-se em Nazaré muito estimado e querido.

Gomes não dava uma passada que não fosse acompanhado pelo vigilante soldado. Pouco dormia aquele militar, quatro horas da manhã, já estava de pé com o seu fuzil na mão, bornal de balas a tiracolo, passeando pata todos os lados, sendo muita vezes e muitas vezes reclamado pelo velho Gomes, que já conhecia das ciladas do inimigo Lampião.

Depois de um ano, 511 foi afastado de Nazaré, com lágrimas nos olhos, dizendo para o velho Gomes, que o deixava com grande pesar e que se pudesse continuaria em Nazaré até o fim da batalha. Não teve mais o soldado 511, a oportunidade de voltar a Nazaré. Não se esquecia do velho Gomes. Este também não o esquecia, perguntando a todos por notícia do compadre das horas difíceis.

Em 1953, faleceu Gomes Jurubeba, sem ter tido mais a oportunidade de abraçar o fiel amigo. Tendo 511 conhecimento do falecimento de Gomes disse: “Morreu meu amigo Gomes Jurubeba! Homem que não tinha medo de Lampião e que o bandido respeitava no sertão pernambucano”.

Foi 511 reformado como simples soldado; voltou à sua terra natal, Albuquerque Né, município de lagoa de Baixo ( atual Sertânia), onde faleceu e está sepultado”.

Capela de Nazaré do Pico, foi palco de atrito entre Virgulino e moradores do lugar durante um casamento

Provado na lealdade, Soldado 511 faz a faz a retaguarda protegendo mulheres e crianças

No fogo ocorrido na localidade de Enforcado, João Gomes de Lira narra:

“Irrompendo o tiroteio, Gomes, encontrando-se no seu Genipapo, juntou dos pés, dizendo que os bandidos emboscaram os meninos. Logo partiu em socorro, acompanhado do soldado José Paulino (511) e outros. Quando seguiram na carreira, Gomes lembrou-se que sua casa havia ficado sem defesa, o que não podia ser porque Lampião poderia formar uma cilada, deixando uns brigando e outros voltarem a queimar a casa. Para isto não acontecer, Gomes perguntou ao Soldado 511, se sozinho garantia a sua casa.

Respondeu 511 que o velho Gomes podia seguir tranquilo que Lampião só poderia queimar sua casa depois dele morto. Voltando o soldado, sem demonstrar temor, tomou conta conta da casa.

Nesse referido tiroteio alguns nazarenos saíram feridos e removidos para Nazaré. “Em pleno fogo, correu deixando os companheiros empenhados em cerrado fogo, o civil conhecido em Nazaré pelo apelido de Favela. , caboclo bem ajeitado nas armas, que chegará a Nazaré com recomendação para Euclides, que diante dessa recomendação tinha total confiança. Na retirada do campo de luta, Favela foi sair correndo no Genipapo. Ali, chegando, disse ao Soldado 511, Que tinha chegado com o fim de garantir a casa do Velho Gomes. Porém 511, vendo que vinha ele correndo do tiroteio, disse:

“Você correu do fogo, deixou os companheiros, portanto, aqui não tem lugar para quem vem correndo, siga para Nazaré, que aqui não te quero”.

Imagens: Blog do Mendes,

Benjamim Abraão e Arquivo

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