Angico 82 anos depois: Maria Bonita – nome de fantasia para vender jornal e inspirado em romance e c

Maria Gomes de Oliveira, esse o nome de batismo da mulher mais famosa da História do Cangaço. A narrativa de sua trajetória é cantada em prosa verso e segue analisada na atualidade por romancistas e jornalistas investigativos de fatos históricos ainda não de um todo compreendidos ou explicados. A começar pelo apelido Maria Bonita, que a tornou conhecida e emblemática até com atitude feminista, algo que ela jamais conheceu, ou foi. Muito o que se sabe, tem como fonte a tradição oral – filtrada por pesquisadores abalizados - resulta em relatos confiáveis.

A tradição social de referir-se à pessoa ligando-a a lugar e família, ou em referência ao marido, é forte no Nordeste; pertencer à ancestralidade, como Maria de Déa, ou ao marido, como Cristina de Português, ou a um lugar, reduz a personalidade a uma nulidade do ponto de vista do caráter, pelo fato de pertencer a alguém. No cangaço, ela era referenciada como “Maria de Lampião”; antes disso era “Maria de Déa”, o nome “Maria Bonita” ficou para o domínio público criado pela imprensa e adotado até pela polícia.

Imagem: Maria Bonita em pose para Benjamim Abraão, exibe toda estética do cangaço

Incrível constatar que o nome “Maria Bonita” vem de fonte urbana e não rural, segundo o jornalista Melchiades da Rocha, famoso por ser o único repórter a chegar em Angico e documentar os acontecimentos – isso uma semana após o famoso tiroteio que precipitou o fim do cangaço, em julho de 1938.

"Bem-feita, seios pequenos e nádegas um pouco batidas"

Uma das fotos de Maria Bonita feitas por Melchiades, em Angico, expõe ao mundo a heroína do cangaço já sem cabeça e de “saia curta” que para os padrões sociais da época era um absurdo, mas as cangaceiras usavam saias um pouco abaixo dos joelhos dos joelhos por praticidade. Em relato ao pesquisador Frederico Pernambucano, o repórter a descreve assim:

- “Bem-feita, seios pequenos e nádegas um pouco batidas”.

Mas de onde veio esse “Bonita”? Sabemos que existem 66 sinônimos para esta palavra. Eis alguns: “bela, linda, deslumbrante, bem-parecida, bem-apessoada, bem-apresentada, bem-posta, bem-feita, bem-proporcionada, airosa, elegante, esbelta, formosa, garbosa, donairosa, jeitosa, graciosa, guapa, catita, pulcra, venusta” e por aí vai...

Associar beleza ao primeira nome da mulher do mais temido dos cangaceiros, foi “coisa da criatividade de repórteres do Rio de Janeiro”, Mechiadas entre eles. E a informação que revela os arquétipos da feminilidade do inicio do século XX: o padrão de beleza feminina das mulheres brasileiras – urbanas ou rurais – tinha como fonte romances e o cinema. Eis aí a origem do apelido “Maria Bonita”.

Pose com os cães que seguiam o bando, exibindo jóias, fruto de saques, mas ostentação do seu poder

No jornalismo de ontem, como hoje, os apelidos pelos quais personagens famosos foram (são) conhecidos dão padronização às reportagens, porque facilitam a compreensão do leitor, além de criar um universo paralelo ao que se descreve numa reportagem. Assim, jornalistas e escritores – em qualquer época - lançam mão de nomes e apelidos. O “Maria Bonita”, revela Machiades, veio da literatura adaptada ao cinema.

Maria Bonita, um romance de 1914 de autoria de Júlio Afrânio Peixoto, escritor e médico baiano, famoso e radicado na capital federal – o Rio de Janeiro, tornou-se algo como “leitura obrigatória” das moçoilas urbanas e também daquelas que tinham acesso à educação e residiam nos sertões.

Esse romance, Maria Bonita, mereceu oito edições. Maria Bonita deu “nome a muita mocinha registrada em cartório no começo do século XX”. Nada de extraordinário, porque esse hábito, de dar nomes aos filhos por influência literária, do cinema ou das novelas de TV , é recorrente na sociedade brasileira por influência portuguesa, de país colonizado.

Maria Bonita, a do romance, narra a trajetória de “uma matutinha que emigra dos Sertões para o Litoral” e tal e qual muitas outras heroínas cantadas em prosa e verso, encarna a “mulher pura de pensamento e de conduta que padece pela vida, arcando com o ônus de uma beleza que enlouquece os homens, sem conseguir evitar que as maiores desgraças se abatam sobre as pessoas que lhe são mais caras”, assinala Frederico Pernambucano em seu indispensável livro “Apagando Lampião”.

Mulheres no cangaço portavam armas leves e não combatiam; à exceção de Dadá que chegou a manejar fuzil

Aliás, pouco se sabe, por exemplo, sobre José Miguel da Silva (Zé de Neném), primeiro marido de Maria de Déa, nossa heroína. Além do fato de ter sido alcoólatra, estéril, violento – e que morreu rico. José Miguel jamais deu entrevista ou falou sobre sua vida com Maria.

O romance Maria Bonita virou filme de sucesso nos anos 30, e ficou em longa temporada na Cinelândia. Os jornalistas que reportavam o Cangaço, a partir do Rio de Janeiro, baseados em telegramas oficiais ou relatos, assim, disse Mechiades, recorreram ao nome de fantasia e cinematográfico “Maria Bonita” associando-o à companheira de Lampião. Dava mais “charme” às reportagens sobre o cangaço, digamos assim.

Relato de Bezerra sobre o ataque a Angico já cita o nome Maria Bonita

Depois disso, dessa apropriação do “Bonita” pela imprensa, os relatos oficiais passam a identificar a companheira de Lampião pelo nome de fantasia “Maria Bonita” referido não só por repórteres, mas em documentos. No telegrama que o tenente João Bezerra envia ao comandante-geral do Regimento Policial Militar de Alagoas, Theodoreto Camargo, está grafado o seguinte:

Maria Bonita e cães; ao lado, cangaceiro exibe revista editada no Rio de Janeiro com foto atleta na capa

“Piranhas 28 – Hora 14 Cmte Theodoreto – Maceió. Rejubilado vitória nossa força, cumpre-me cientificar vossoria que hoje, conjuntamente volantes aspirante Ferreira, sargento Aniceto, cercamos Lampião no lugar Angico no Estado de Sergipe, o tiroteio resultou morte nove bandidos duas bandidas inclusive Lampião, Ângelo Roque, Luiz Pedro, Maria Bonita, os quais foram reconhecidos. Da Volante aspirante Ferreira, houve baixa um soldado saindo outro ferido. Também me encontro ferido”. Saudações Tenente João Bezerra – comte Volante.

Um folheto “A Morte de Lampião”, de João Martins Athayde, escrito na semana seguinte aos acontecimentos de Angico, diz o seguinte:

A tal Maria Bonita/Amante de Lampião/Sua cabeça está inteira/Mostrando grande inchação/Mas assim mesmo se via/Uns traços de simpatia/Da cabocla do Sertão/Morreu Maria Bonita: que Deus tenha compaixão/Perdoando os grandes crimes/Que ela fez pelo Sertão/Nos livre de outra desdita/Que outra Maria Bonita/Não surja mais no Sertão.

Maria Gomes de Oliveira, ao ingressar no cangaço, já era mulher muito além do seus tempo. A mulher infeliz no casamento que se separa do marido e larga tudo por um novo amor; segue esse “amado e amante” que vive das armas, e ainda em vida torna-se uma lenda na região onde vive. “A vida imitando a arte”.

João Costa

Fonte: “Apagando Lampião”, de Frederico P. de Mello.

“A Morte de Lampião”, folheto de J. Athaide, vendido em trens da Great Western. Anexo História do Cordel 1980.

Fotos: Benjamim Abraão. Acervo “Aba Filmes” Wikipédia

coloridas por Rubens Antônio

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