Arranjos políticos que tornaram Virgulino capitão do Exército para combater uma Revolução que nunca

Corria o ano da graça de 1926, o governo federal enfrentava uma rebelião militar, liderada por jovens oficiais do Exército, que resultou na criação da Coluna Miguel Costa-Prestes, que passou à História como Coluna Prestes. Não era uma revolução. Como nos dias atuais, uma combinação perigosa: Miguel Costa, da Polícia Militar de São Paulo; Carlos Prestes, capitão do Exército.

Parafraseando o professor Carlos Chiarelli, que ficou famoso pela frase "os professores fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem e o governo finge que controla" ( 1992) podemos retroceder no tempo e afirmar, em relação à postura do governo Artur Bernardes em relação à Coluna Prestes: “os revoltosos fingiam uma revolução, o governo fingia que Exército fingia que combatia, os revolucionários só caminhavam e o governo fingia que controlava a situação”. Era esta a situação do país. Mas ao se aproximar a Coluna da região do Juazeiro do Norte, o caldo ameaça engrossar.

Imagem: Família Ferreira posa para fotos em Juazeiro. Sentado(E), Antonio Ferreira; Lampião, último à direita

Em 1925, estava mais que claro que o Exército fazia corpo mole em combater a Coluna. O governo passa a recrutar Polícias Militares nos estados, jagunços que serviam aos latifundiários. Eis aí a origem dos “Batalhões Patrióticos”. O do Juazeiro do Norte era composto por soldados do Exército, jagunços e cangaceiros – homens com expertise no manejo das armas. É neste contexto que o deputado Floro Bartolomeu tira uma carta da manga, a sua bala de prata: Virgulino Ferreira da Silva.

Três anos antes, a família Ferreira mudara-se para o Juazeiro, sob a proteção da batina do Padre Cícero. E, em 1926, recrutar o chefe de cangaceiros de maior destaque para o Batalhão Patriótico não foi tarefa difícil. Para sua formação, o Exército entrou com 360 soldados, 45 graduados; Lampião chegou na cidade à frente de 50 cangaceiros. É nesse contexto que morre, no Rio de Janeiro, o deputado Floro, o articulador do ingresso de Virgulino no batalhão – de sífilis.

Irmãos Ferreira: Virgulino(E), Antônio(D). Na chegada ao Juazeiro, Lampião suava chapéu de cangaceiro

Virgulino entra no Juazeiro com todos seus 50 homens a cavalo

Virgulino entra no Juazeiro com todos seus homens a cavalo, e encontra o padre Cícero, nos seus 82 anos, desnorteado e sem saber o que fazer, mas que tinha de manter o acordo de guerra feito por Floro com Virgulino Ferreira, que a imprensa já tornara famoso nacionalmente.

Virgulino a todos do Juazeiro causou boa impressão. “Falava baixo, quase sussurrando, sem largar o seu mosquetão, assessorado por Antônio Ferreira o tempo todo”, fez marqueting social: distribuiu doces com as crianças e moedas com os desvalidos a sorte. De longe, na cobertura, Luiz Pedro, Nevoeiro, Chumbinho e o implacável, frio e meticuloso Sabino Gomes. Virgulino chamava a atenção, pois até espada portava, segundo o historiador Frederico Pernambucano de Mello.

É neste clima que Virgulino troca de indumentária: deixa o chapéu de aba quebrada pra cima, por chapéu de capitão do Exército, participa de bailes e retretas, almoços com a elite do lugar, encontros reservados com o Cícero e seu secretário particular, o libanês Benjamim Abraão. E deixa o Juazeiro com a patente de Capitão, passada por ordem expressa do padre Cícero, atendendo exigências do próprio Virgulino.

Ao deixar o Juazeiro, Lampião já ostenta chapéu de capitão do Exército

“Manuscrita em papel almaço ( que serviu de documento oficial) e assinada pelo adjunto de inspetor do Ministério da Agricultura Pedro de Albuquerque Uchôa, única autoridade federal no Juazeiro”.

Lampião foi morto em julho de 1938, sem abrir mão da patente de Capitão. Claro que esta patente de oficial nunca teve valor legal.

Lampião na verdade nunca combateu a Coluna Prestes pra valer, esta composta 1.200 homens. Mas saiu de Juazeiro com fardamento, armas modernas e novinhas em folha. Pelo resto da vida, Pedro Uchoa, debochou dessa patente. “não dei uma patente de general porque o bandoleiro exigiu apenas de capitão”. A farsa política brasileira nunca foi exceção, mas regra.

João Costa

Imagens: Fotos de Lampião e Família, Lauro Cabral de Oliveira

Foto de Lampião trabalhada, Rubens Antônio

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