82 anos de Angico: Saturnino, inimigo de Lampião, ingressa na Polícia já como sargento e chefe de v

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Ser o “inimigo figadal” de Virgulino Ferreira da Silva, antes mesmo deste se tornar Lampíão, trouxe vantagens a José Saturnino, é o que revela João Gomes de Lira, no Segundo volume de suas memórias como soldado da volante dos “nazarés”; no exato momento em que recrudescia a perseguição a Lampião e seu bando, Saturnino ingressou na polícia pernambucana como 2º Sargento, pulando assim várias etapas que um sertanejo teria que passar ao ingressar na Polícia.

Lampião, ao se restabelecer de ferimento a bala, reassumiu o comando do bando, que estava sendo exercido pelos irmãos Antônio e Levino Ferreira, homiziando-se no Poço do Ferro, região do Moxotó, em função do aumento da pressão e perseguição. Daí, resolve trocar Pernambuco pela Paraíba. “Nesta nova jornada, mata e esquarteja o Sr. Chiquinho do Triângulo”.

Imagem: Manoel Neto(D) comandante de Volante dos "nazarés"

Mas antes de seguir para região de Princesa, ocorreu o confronto na Fazenda Favela.

Período em que José Saturnino residia na Barra do Exu; apreensivo e sem confiança, deixa em segredo a região de Exu e segue para Vila-Bela, onde se apresentou diretamente ao Major Teófanes Ferraz Torres, “a quem, minuciosamente, explicou tudo o que ocorria entre ele e os irmãos Ferreira”, informa João Gomes que acrescenta em suas memórias:

“Com satisfação o Major Teófanes o convidou para ingressar na Polícia, no posto de 2º Sargento. Saturnino aceitou a oferta, muito embora fosse para brigar com Lampião”. Incorporado à polícia, em Vila-Bela, passa a receber treinamento de guerra.

Convocados para uma reunião com superiores no Recife, o Major Teófanes e o Ten. Higino deixam Vila-Bela e Saturnino, como o mais graduado, assume o comando da Força Volante do lugar. Entre ordens expressas para não abandonar a cidade e contraordens para perseguir Lampião se este reaparecesse nas imediações, Saturnino foi alertado da presença de Virgulino e seu bando na região; opta por perseguir o bando, deixando Vila-Bela à frente de sua volante tendo como imediato Manoel Neto, na época incorporado à tropa como Anspeçada.

Deserção em massa de policiais pouco antes do combate da Fazenda favela

Segundo João Gomes de Lira em suas memórias, “nesta jornada, em meio do caminho, desertaram dezesseis soldados”. Desconfiaram que a parada ia ser dura. Não demorou para a volante de Saturnino e Manoel Neto ter batismo de fogo na Fazenda Favela. A volante foi dividida em duas: Saturnino lidera um grupo que vasculha a mata e Manoel Neto bate de porta em porta à procura de Lampião. O famoso “Mané Fumaça” (apelido dado por Lampião a Manoel Neto), não acha Virgulino, mas se depara com Antônio Ferreira numa dessas casas.

Amigos deste grupo, vejam só que narrativa fantástica João Gomes de Lira sobre este encontro, na pag. 10, do segundo volume de suas memórias.

Batidas de porta em porta.

- “Quem está batendo? É o Anspeçada Manoel Neto quem está falando”? Aqui é Antônio Ferreira.

Respondeu Manoel Neto.

- “Abra a porta, Antônio Ferreira, para brigar!”

Abriu-se a porta de cima, deixando a debaixo fechada. (casas do Sertão tem portas assim) E por portas e janelas, os cangaceiros deram uma grande descarga de tiros.

“Caíram no terreiro, mortos e feridos, vários soldados”.

Manoel Neto que estava rente à parede da casa e próximo à porta, deu descarga no seu mosquetão para o interior da residência. No tiroteio que se estabeleceu, os cangaceiros começaram a clamar por todos os santos.

-“Valei-me minha Nossa Senhora!” “Vala-me meu Padim Ciço do Juazeiro!”

O pavor tomara conta dos cangaceiros, mas Antônio Ferreira buscava reanimar e reagia gritando.

- “Briga, Briga cabra!” “Não esmorece, cabra!”.

Virgulino Ferreira e Antônio seu irmão, em Juazeiro do Norte, pouco antes de receber a patente de capitão

Na fazendo Favela, neste dia, vomitavam fogo cerca de duzentas armas. O mundo estremecia, um inferno de fogo e balas; a fumaça fazia nuvens no ar. Os cangaceiros vendo o mundo transformado em fumaça, gritavam:

- “Eita Mané Fumaça da peste! Você hoje veio com o Diabo no couro!”

Manoel Neto, ainda encostado à parede, passou a receber descarga de tiros vindos de outra residência onde dormira Lampião e alguns cabras.“Via, assim, o bravo Anspeçada Mané Fumaça, de instante a instante, tombarem mortos e feridos no terreiro, seus subordinados”, narra João Gomes.

Mas onde se metera Saturnino?

Vasculhava a mata da fazenda Favela. Simplesmente se deparou com Sabino Gomes e seu grupo. Sabino das Abóboras, outra lenda do cangaço, mas aí já é outra história.

*Anspeçada – posto militar acima de soldado e subordinado ao cabo

Fonte: Lampião, Memórias de um Soldado de Volante, Volume 2, de João Gomes de Lira.

Fotos: de domínio público

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