82 anos do fim do cangaço: em Maranduba, Liberato enfrenta Lampião; Manoel Neto chega em seu socorro

Este relato de Ranulfo Prata, romancista sergipano, foi o primeiro a condensar em livro, em 1933, uma vaga biografia, ou documentário sobre o chefe do cangaço. Seu livro “Lampião”, embora cheio de imprecisões, desperta ainda hoje interesse, porque baseado em narrativas orais, cartas de amigos. Reza a lenda que, em Angico, a volante de João Bezerra encontrou um exemplar do livro de Ranulfo no bornal que o próprio Virgulino carregava.

O relato a seguir, tem como referência as campanhas da polícia baiana contra Lampião iniciados em outubro de 1931, sob o comando do tenente João Costa, comissionado tenente-coronel, e comandante-em-chefe com sede em Jeremoabo.

Imagem: Foto original de Benjamim Abraão. O cangaceiro Gato e Maria Bonita ao centro

Nesta campanha, devido à falta de militares, surgem os “contratados” ou “provisórios”, estações de rádio se espalham por vilas e cidades de toda a caatinga: Jeremoabo, Paripiranga, Santa Brígida, Brejo do Burgo, Serra Negra, Santo Antônio da Glória, Chorrochó e outras localidades.

Lampião, que já conhece os efeitos da nova tecnologia empregada contra ele, adverte:

- “No dia qui em pegá um “trem” deste, o macaco qui tiver cum ele tem qui engoli todo”...

Virgulino, em 31, aumenta a pressão sobre vilas e fazendeiros com bilhetes extorquindo ricos e remediados. O tenente do Exército, Liberato de Carvalho, está no encalço do bando, dia e noite, sem descanso no comando de uma volante que viria a ficar famosa. E ziguezagueando pelo sertão, Liberato e sua volante chega a Maranduba, “região erma e triste entre Serra Negra e Cipó de Leite”, onde choca-se com o bando de Lampião.

Os cangaceiros “invisíveis dentro de trincheiras magníficas, oferecidas pela sua velha aliada, a caatinga, a dominam com vantagens alarmantes”. Liberato de Carvalho é salvo por uma “intervenção providencial”.

“No mais aceso da peleja, quando o pânico já se esboça entre os soldados, que veem caídos mais de uma dezena de companheiros, intercede um socorro esperado e oportuno”. É o Tenente Manoel Neto que surge com sua tropa pela retaguarda dos cangaceiros.

Tenente do exército Liberato de Carvalho

“O bando de Lampião, atacado pela retaguarda, se espanta, fraqueja, esmorece nas réplicas e segue a velha tática atordoante de fuga”, narra Ranulfo Prata.

“No chão jaziam 17 homens, entre mortos e feridos”; baixas humilhantes para as forças legais. “Do bando de Lampião três ficam no campo de luta, indicando pingos de sangue que outros feridos, puderam fugir” Mas dias depois, foram encontrados mais três cadáveres.

Em São Paulo explode uma revolução, Liberato deixa o combate a Lampião para seguir o Exército até o Sul. Quem assume o comando em Jeremoabo, é o capitão João Miguel, comissionado em tenente na Paraíba e em capitão na Bahia. Esse João Miguel é narrado como militar incompetente, chefe de rádio, que atrai a desconfiança geral.

Volante dos nazarenos comandada pelo tenente Manoel Neto(D), um dos maiores perseguidores de lampião

Simplesmente, após a prisão do Cangaceiro Quixabeira, João Miguel o transforma e promove o facínora em seu ordenança, responsável por açoitar, torturar coiteiros e quem ele suspeitava. Esse Quixabeira, antes de assessorar o comandante João Miguel, fora o cangaceiro apontado como responsável por sangrar e matar seis caçadores no Raso da Catarina, anos antes.

Fonte. Lampião, de Ranulfo Prata, segunda edição

Imagens da Abba Filmes. Originais de Benjamim Abraão

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