Saga dos Irmãos Ferreira: grávida aos 15, Maria Sulema da Purificação – A mãe do Cangaço

Os conflitos da família Ferreira no final do século 19 abalaram Vila-Bela, o Sertão do Pajeú; sacudiu sete estados do Nordeste, tornando-se o capítulo mais apaixonante na história das famílias rurais brasileiras, algo como uma tragédia Shakespeariana com “luz e sombra”; muita sombra enquanto viveu e luz nos relatos de historiadores. Tem um início novelesco e de paixão proibida.

Eis que uma jovem cabocla, Maria Sulema da Purificação, aos 15 anos, surge grávida de uma relação com um jovem de uma família economicamente poderosa, Venâncio Barbosa Nogueira, de 18 anos, cujas diferenças sociais no meio rural daquele século (1895), torna o casamento inviável. Mas a garota também não era de família de “pés-rapados”, (para usar uma expressão preconceituosa tão recorrente no Sertão), ser escorraçada ou deserdada.

Imagem: Antônio Ferreira, irmão de Lampião, em Juazeiro do Norte, 1926

A gravidez indesejada de Maria Sulema exigia uma solução, e esta foi sugerida por um velho negro, descendente de escravos, conhecido como “Brucutu” segundo narra José Alves Sobrinho, no seu livro “Lampião, Antônio Ferreira e Levino,” da Editora Babecco. Maria Sulema era da família Lopes, não tão rica como a família Nogueira, mas de linhagem respeitada. De tal modo, que “Brucutu” tem uma solução capaz de “abafar” tudo.

- “Arranja-se um rapaz que queira casar com a moça, que é bonita e ainda receber um bônus em dinheiro,” propôs Brucutu às famílias Nogueira e Lopes.

Proposta aceita, e ele mesmo, “Brucutu,” deixou a Serra Vermelha, em Serra Talhada, “vasculhou toda a área da região do Navio à Mata Grande no estado de Alagoas, fazenda por fazenda em busca de um rapaz com o perfil desejado". Fracassou. Mudou de roteiro. Voltou para Pernambuco, “garimpando um rapaz” até Triunfo. Novo Fracasso.

O tempo passando e a gravidez de Maria Sulema em segredo. Em Triunfo, Brucuto toma conhecimento de festa de apartação em Conceição do Piancó, já na Paraíba. Ao chegar em Conceição, dia domingo e de feira, não teve dificuldade em aproximar-se de jovens que bebiam numa confraternização de amigos e lançar seu desafio.

Todos ali naquela farra de fim de feira, com Brucutu já familiarizado, um dos rapazes indaga: “E o coroa para onde vai?

- “Eu estou procurando um rapaz que queira se casar com uma moça bonita. Alguém se candidata?”, narra José Alves Sobrinho em seu livro.

- Que idade tem a moça?

Indagou um dos rapazes. Este moço era José Ferreira. Ali mesmo naquela confraternização, e diante do “sim, eu caso” do rapaz, Brucutu, tomou providências, comprou e pagou por cavalo e sela, e os dois deixaram Conceição rumando no sentido de Serra Talhada.

Atores paraibanos numa cena de "Maria Madalena Padroeira do Brasil e o Cangaceiro é seu Procurador"

Já na fazenda dos Nogueiras, em Serra Vermelha, o rapaz foi apresentado; familiarizou-se com o drama familiar dos Nogueira, conheceu e se entendeu com a jovem; casou e, em vez de dinheiro vivo prometido, optou por receber de comum acordo com a jovem, uma faixa de terra desmembrada da fazenda, que viria a tornar-se Sítio Passagem das Pedras. Meses depois, nascia Antônio Ferreira, o primeiro de mais 8 irmãos da família Ferreira.

Essa novela shakespeariana, está na raiz dos conflitos entre os Irmãos Ferreira e Zé Saturnino, o primeiro inimigo de Lampião. E quem disse isso foi o próprio Zé Saturnino, em 1970, numa depoimento ao historiador Frederico Pernambucano de Melo.

“Quem arrastou isso pra riba de mim foram os Nogueira. Quando a pessoa cai num abismo, como eu caí mode ou outros, e eles fizeram o que fizeram comigo depois, muito encrenqueiros, a vontade que dá é de meter a espingarda pra riba e matar gente do nosso lado, se não fosse dar gosto ao inimigo”, relatou Zé Saturnino. Briga por chocalhos, foi apenas a gota d’água, que detonou a guerra épica que arrastou os irmãos Ferreira para o Cangaço.

Saturnino diz que a aurora do conflito sempre foi entre os Ferreira e os Nogueira, a quem ele deposita culpa por ter se envolvido na disputa; “findou por cair no meu colo, por ter casado na família”, acrescenta Saturnino.

Antônio sempre seguia no coice do bando e não usava chapéu nem roupas de cangaceiro

Antônio Ferreira não usava chapéu e vestimentas típicas dos cangaceiros; liderava três a cinco homens experientes nas armas que sempre seguiam no coice do bando de Lampião - o que explica os sucessivos fracassos das volantes. Estabelecido o combate, Antônio sempre chegava minutos depois pelos flancos ou pela retaguarda cercando a polícia. Sem roupa ou chapéu de cangaceiro, facilmente se misturava aos volantes, a ponto de matá-los de punhal.

Ator Felipe Lima interpreta papel numa cena de cangaceiro na montagem "Quem Inventou o Brasil?"

O maior desafio dos escritores é entender como os irmãos Ferreira “administravam” a realidade de ter um irmão (Antônio) com sangue Nogueira, ou como Maria Sulema tocou a vida com José, se o primogênito era um Nogueira.

Zé Saturnino deu uma pista. O ódio dos irmãos Ferreira aos Nogueira ocorreu em solidariedade ao tio de Virgulino, chamado Manoel Lopes, irmão de Maria Sulema que, envolvido num crime, fora espancado quando preso e sob custódia dos Nogueira. Mas aqui já é outra história, outro capítulo shakespeariano da história familiar de Lampião.

Fonte

:

“Lampião, Antônio Ferreira e Levino,” de José Alves Sobrinho; Editora Babecco

“Apagando Lampião”, de Frederico Pernambucano de Melo.

Fotos: 1. Antônio Ferreira. Em Juazeiro do Norte.

Fotos 2, 3,. Cangaceiro, cena da peça “Maria Madalena é a padroeira e o cangaceiro seu procurador” Atores: Lúcia Macedo(E), Felipe Lima(C) e Victor Alves(D)

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