Acossado e em fuga, Lampião é agraciado com almoço mortal oferecido pelo cel. Isaías Arruda

Por João Costa


Após o ataque fracassado a Mossoró em 13 de junho de 1927, Virgulino Ferreira enfrenta como desdobramentos uma “louca escapada” rumo ao Ceará, racha no bando, baixas e tiroteios com as volantes paraibanas do tenente Zé Guedes e do sargento Clementino Quelé, que acossam sem dar fôlego ao bando no rumo do Ceará para a fazenda Aurora, mesmo lugar de onde partira.


Coronel e coiteiro Isaías Arruda, personagem lendária de proteção a Vigulino Ferreira


No dia seguinte ao ataque, Clementino Quelé e sua volante vasculham sítios e arruados próximo a Mossoró em busca de pistas, informações valiosas que possam apontar o paradeiro do bando; a cidade demonstra alívio com a chegada da feroz força volante de Quelé, que vai até a cadeia pública onde se encontra preso e ferido o cangaceiro José Leite de Santana, o Jararaca.


Ressabiado, Clementino Quelé evita um encontro cara a cara com Jararaca; os dois eram velhos conhecidos desde o tempo em que Quelé fora cangaceiro como ele, e também sob as ordens de Virgulino Ferreira, mas agora, como cabecilha de volante e inimigo figadal de Lampião, quer informações detalhadas sobre o bando, mas sem o “olho no olho” com Jararaca, um ex-soldado do exército e agora cangaceiro dos mais ferozes, encarcerado e esperando a morte chegar.


Clementino posta-se do lado de fora da cadeia, permanece na calçada enquanto despacha um homem de confiança para interrogar Jararaca, que se encontra ferido à tiro de rifle.


O cangaceiro ainda traz no pescoço corrente de ouro e nos dedos anéis valiosos e logo enfrenta o interrogatório, transformado em sessão de espancamentos: a corrente de ouro lhe arrancada do pescoço após tremenda coronhada com o coice do fuzil do soldado de confiança do sargento Quelé.


- Estire as suas mãos que vou lhe cortar esses dedos, porque você não vai precisar mais deles nem dos anéis, disse o homem de confiança de Quelé.


O médico João Marcelino de Oliveira, que se encontrava no local tratando dos ferimentos no cangaceiro, fez enérgica intervenção, impedindo que o calvário de Jararaca se consumasse ali mesmo.


- O senhor não vai fazer isso, cortar os dedos do detento; não na minha frente, disse energicamente o doutor João Marcelino.


O soldado se retira irritado e, do lado de fora, na calçada, Clementino Quelé escuta Jararaca que fala quase gritando.


- Apareça Quelé, quero lhe dizer cara a cara quem você é, eu lhe conheço e não é de hoje, seu Tamanduá Vermelho, xinga Jararaca ao relembrar o apelido de Quelé no bando e também sua vida pregressa como cangaceiro de Lampião.


Mas Quelé não tem tempo a perder, colhe informações da polícia local e arriba com sua tropa; a esta altura sem chances de alcançar Lampião.


Virgulino Ferreira Lampião(E) e Antônio Rosa(D) em formação do bando em 1923


Nesta arrancada de fuga Virgulino e seu bando buscam refúgio seguro no lugar de nome Aurora em terras do coronel e também coiteiro Isaías Arruda, que de pronto presta assistência ao bando, indicando lugar seguro para descansar e esperar a poeira baixar.


Mas o que Lampião não esperava era que Isaías Arruda, o cérebro planejador do ataque a Mossoró ficara de mãos vazias e também colaborava com as volantes além de estar de concluiu com o governo cearense num plano secreto e sinistro:

Dar cabo de Virgulino Ferreira Lampião - não a tiros, mas envenenado.


Isaías Arruada havia chegado de Fortaleza com o ardiloso plano de envenenar Lampião já traçado: abrigar o bando, acolher em coito seguro e fornecer comida pronta, para evitar fogueira e fumaça na região capazes de denunciar sua presença às volantes de Zé Guedes e Clementino Quelé que estavam do lado paraibano e às volantes cearenses comandas por Veríssimo Alves, Germano Solano e Ósimo de Alencar, estas do lado do Ceará.


Furtivo, o coronel Arruda põe o “plano perfeito” em andamento; pede dinheiro a Lampião sob o argumento de subornar as volantes que estão na região e convence Virgulino em seguir para coito seguro em Ipueiras. E mais: indica que caberá ao vaqueiro de sua estrita confiança de nome Manoel Saraiva levar comida pronta para o bando.


Simultaneamente, uma volante com 30 soldados tendo como cabecilha o major Bruno Valente e 100 jagunços de Arruda, armavam o carco final ao coito.


Era chagada a hora da onça beber água, segredou o coronel Arruda aos seus comandados.

Mas nesses casos nem sempre a onça tem sede ou tem água para beber. O relógio marca e se aproxima da Hora H de um certo dia de junho e 1927; o cerco se fecha e o vaqueiro Manoel Saraiva, como de costume, aparece com o almoço do bando.

Desconfiado como sempre se conduzira, Lampião manda que “os cabras” comam primeiro, porque geralmente, ele só comia por último.


O cangaceiro de nome Oliveira, o mais jovem do bando, com uma “fome da gota serena” se apressa a comer e logo sente o gosto estranho. De supetão dá um pulo e joga fora a cuia cheia de feijão, arroz, farinha e carne seca.


- Essa comida tá amargando demais, oxe! Que danado é isso?


Imediatamente, os demais cangaceiros passam a sentir sintomas de enjoos.


Mergulhão, Fortaleza e Gavião regurgitaram a comida e buscaram água desesperadamente, contou tempos depois o cangaceiro Mormaço, durante depoimento sobre o ocorrido.


Virgulino, “mais depressa que ligeiro”, ordenou:


-Tragam pó de carvão! Engulam pó de carvão! Agora! (pó de Carvão é considerado um bom antídoto para envenenamento)

O pandemônio louco se instaurou porque nos arredores irrompeu um tremendo incêndio em torno do coito.


O inferno começa a arder na caatinga, labaredas de fogo sobem, simultaneamente a uma tremenda descarga de tiros que é despejada pela volante do major Bruno Valente.


Artesanato com tema do cangaço


O cerco não é dos melhores e os cangaceiros em desespero xingam, revidam os tiros, buscam e encontram um meio de furar o cerco militar e o fogo que devora o mato.


O plano do coronel e coiteiro Isaías Arruda era considerado tão perfeito que, não muito longe dali uma composição de trem estava estacionada em uma plataforma da estação ferroviária da cidade de Aurora, à espera dos cadáveres de Virgulino Ferreira e de seus cangaceiros para serem levados até Fortaleza, onde o governador da época já cantava vitória - inutilmente.

Fonte de consulta: Lampião na Paraíba – Notas para a História, de Sérgio Augusto de Souza Dantas.

Com informações do historiador Zé Tavares.

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