Alcoolismo tornava Corisco imprevisível; Dadá compartilhava o comando

Por João Costa

Na leitura de textos de pesquisadores, livros de memórias, depoimentos e entrevistas de ex-cangaceiros, coiteiros ou testemunhos sobre o cangaço, observa-se que são poucas as convergências; múltiplas são as versões: muitas delas fantasiosas, outras falsas, algumas confiáveis e próximas à verdade – enfim, são histórias de cangaceiros.


Corisco(E) e Dadá compartilhavam decisões durante as ações do bando nos anos 1930


E quando se trata da saga do ex-operário, ex-soldado do Exército que se meteu numa revolta para depois desertar e que se tornou trabalhador temporário em fazendas e até comerciante chamado Cristino Gomes, Corisco, tudo ou quase tudo vira lenda em meio às narrativas cruéis, trágicas, transcendental até, por conta da sua companheira Sérgia Ribeiro, Dadá.


No decorrer do ano de 1935, os bandos de Corisco, Mariano e Ângelo Roque, o Labareda, em coalizão ou isoladamente, tocam o terror nos sertões da Bahia, Sergipe e Alagoas deixando um rastro de sangue, saques, incêndios e depredações, razias que deixavam as volantes desnorteadas e as populações tomadas de pavor por conta da violência desmedida, quando tratava-se de Corisco e seu bando.


Os jornais de Recife e de Salvador tratavam de “carregar nas tintas” ao noticiarem os fatos em tons sensacionalistas, talvez no esforço jornalístico para traduzir o clímax dos acontecimentos e da população assediada pelas hordas de bandoleiros.


O amanhecer do dia 25 de abril daquele ano na fazenda Mulungu, a 40 quilômetros de Mata Grande, foi violento; após um saque exitoso, Corisco, antes de abandonar o local, sacou seu parabélum e disparou à queima roupa no proprietário do lugar.

No Jornal Diário de Pernambuco, o cenário sertanejo é descrito do como de desolação e terror.


“O grupo do famigerado cangaceiro Corisco é composto por seis bandidos, e esse grupo de seis age sem embaraço há meses”, diz a matéria para logo em seguida reportar o caso do fazendeiro Antônio Magdalena:


Corisco e Dadá pela lente de Benjamim Abraão; foto colorizada


Capturado pelos bandidos, o homem pediu de joelhos que não o matassem, mas nada o demoveu Corisco que disse:


- Nem Deus será capaz de socorrê-lo, porque vou matá-lo, para você aprender a não andar misturado com polícia para me perseguir”, foram as últimas palavras do “Diabo Louro” antes de apertar o gatilho.


“Fazendeiro é morto sem motivo relevante”, assim narrava a imprensa o infortúnio de Antônio Magdalena, que não era tido coiteiro e nem teria resistido ao assalto.


“O já famoso bandoleiro, discípulo de Virgulino Ferreira, surge nas localidades sertanejas de súbito, e da mesma forma desaparece, deixando para trás o pranto da viuvez e da orfandade, o saque, o incêndio e o terror”, narrava uma matéria do Jornal de Alagoas nesse mesmo ano.


As ações de Corisco tornaram-se mais temerárias porque era impossível, tanto para as volantes, quanto para os próprios cangaceiros, estabelecerem um “padrão” de conduta, exatamente devido à sua imprevisibilidade.


“Eu conheci Corisco no final de 1937, quando ele, acompanhado de Dadá e outros do seu grupo, esteve com o Capitão Virgulino Ferreira, depois o vi em várias visitas recorrentes; era brincalhão sem destratar ninguém, falava com todo mundo e mantinha sua voz baixa, sem alteração o tempo todo”, relatou o cangaceiro Candeeiro muitos anos depois.


- Mas quando ficava bêbado, aí ninguém segurava; virava outra pessoa. Ficava violento e quando aborrecido bebia muito mais, disse Candeeiro.


Em entrevistas ou depoimentos para o resgate das suas memórias sobre o tempo em que viveu “da espingarda e debaixo do chapéu”, Antônio Ignácio de Silva, o Moreno, corroborou com Candeeiro.


Das vezes em que encontramos Corisco, ele estava embriagado, encostado em alguma pedra ou pé-de-pau para se equilibrar. Era um homem disposto, mas se prejudicou muito por conta da bebedeira”, disse Moreno.


Durante o ano de 35 a escalada sangrenta de Corisco é precedida de bilhetes de extorsão; quando não atendidos seguiam-se o peso das operações de saques as fazendas banhadas pelo rio Ipanema. Vilarejos como Belo Monte e até Mata Grande não estavam a salvo do bando.


Os jornais reproduzem os relatos dos sertanejos, que agora se reportam à companheira de Corisco, a cangaceira Dadá, presente nas ações e também na tomada de decisões.


O escritor Bezerra e Silva enfatiza o papel de Dadá no bando que não era decorativo.


Nas ações do bando nos arredores da serra de Mata Grande, a cangaceira Dadá reconhecidamente toma parte nas decisões tomadas pelo seu marido e chefe do bando.


No do ataque à propriedade do agricultor José Calixto Alves, que resultou no seu assassinato, Corisco tomou a inesperada decisão de poupa-lo, depois de ter deixado claro, dentro do bando, a promessa de mata-lo.


- Quem promete, deve, teria cobrado Dadá.


Corisco, ouvindo a advertência da companheira, sacou do parabélum e alvejou o José Calixto, que caiu agonizando; O cangaceiro Limoeiro puxou o punhal e sangrou a vítima completando o serviço”.


Do jornal Correio, edição de julho de 1935.


“As informações colhidas nos centros infestados por essa horda sinistra, dizem que Dadá é um dos elementos mais perigosos do grupo: mata com espantosa facilidade”.


A cavalgada violenta do bando de Corisco, inesperadamente, se retrai, hiberna nas caatingas sem deixar rastros para as volantes, que se mostram ineptas marchando em círculos.


Sérgia Ribeiro, Dadá, sobreviveu ao cangaço, casou novamente e lutou para resgatar restos mortais de Corisco


O motivo real para o bando aliviar suas ações: Dadá, por essa época, apresenta sinais de gravidez, e o bando procura coito seguro porque a companheira de Corisco está prestes a parir.


Sua parceira de armas, Joana Gomes dos Santos, chamada de Moça pelos cangaceiros e companheira de Cirilo Ribeiro, o Cirilo de Engrácia, devido às suas habilidades, auxilia no parto.


O bebê imediatamente é despachado sob escolta para ser entregue ao vigário da Freguesia de Santa de Ipanema, padre José Bulhões.


Mas aqui já é outra história.


Fonte de consulta: Corisco – A Sombra de Lampião, de Sérgio Augusto de S. Dantas. Fotos de Benjamim Abraão.



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