Amadas e amantes: papel das mulheres no cangaço excedia os padrões do patriarcado rural

João Costa

As relações entre homens e mulheres em tempos de guerra, fome e injustiças só podem ser compreendidas depois dos fatos acorridos e passando ao largo de conceitos morais ou religiosos. O papel da mulher na sociedade brasileira ainda está sendo escrito, mas a inserção das mulheres no cangaço sugere múltiplas interpretações.


O fato é que elas foram à luta por amor, algumas raptadas, outras buscando liberdade e aventura ou tangidas por tragédias familiares, despedaçadas pela tortura das volantes, perseguições, e a oportunidade de um nova vida.


Maria Bonita em pose para o fotógrafo Benjamim Abraão


Para os admiradores da saga do cangaço, vai aqui uma abordagem copidescada a partir de alguns livros (abaixo nos créditos) e narrada na forma interpretativa livre, partindo da noção de pertencimento, que é a maneira de amar mais comum em nossa sociedade, ainda patriarcal.


A violência não é um fenômeno passageiro na aventura do homem aqui na Terra, mas é a essência de sua própria natureza; lembrando também, que o amor romântico como nós conhecemos, tipo amar e ser amado, é uma impossibilidade em qualquer época ou talvez um desejo a ser alcançado.


Foram tantas e tão poucas, mas não tardias em seu tempo; a começar por Maria de Déa, que seduziu Virgulino Ferreira, deixando para trás um casamento sem amor para abraçar uma paixão que poderia ter sido efêmera, mas que durou o tempo suficiente de uma tragédia shakespereana.


Sila, esposa de Zé Sereno; casal sobreviveu ao massacre de Angico e ela tornou-se escritora efigurinista de TV


O casal Lampião e Maria Bonita viveu e morreu sob um Sol inclemente e debaixo de chuvas de balas. Sérgia Ribeiro, a Dadá, foi raptada ainda menina por Corisco, com ele viveu o “amor possível”, assistiu a sua morte e viveu o suficiente para reconstruir a vida e dar ao próprio Corisco um enterro digno muitos anos depois.


Após de citar as duas primeiras-damas, vamos as demais senhoras da Corte do cangaço e seus cônjuges.


Lídia, segundo relatos a mais bonita de todas e que foi companheira de Zé Baiano citado como mais cruel, e que a matou a pauladas em função de adultério; Florência casada com Rio Branco – o casal que acompanhava Corisco e Dadá no momento em que Zé Rufino deu cabo de Corisco, e que desapareceu no ôco do mundo; Otília, que foi a primeira companheira de Mariano; Bidia, que seguia Volta-Seca; Maria Jovina, que viveu com Pancada: Gertrudes, que seguia Beija-Flor.


Lembrar de Durvalina que amava Virgínio; Leónida, chamada Lió, que ninguém sabe com quem convivia; Moça, que amava e seguia Cirilo de Ingrácia; a Lili, que gostava de Lavandeira e o seguiu até a morte para depois escolher Moita Brava como marido e que terminou sendo morta por infidelidade; Quitéria que era a amante de Pedra Roxa; a Lica, que seguia Passarinho: Sabina, que viveu ao lado de Mourão; Mariquinha, a mulher de Labareda.


Destacando Neném, de Luis Pedro; Antônia Maria, casada com Balisa: Inacinha, a amada de Gato; Eufrásia, conhecida como Florzinha, que foi amante de muitos cangaceiros e que terminou com Saracura, e tinha também uma tal Maria Isidoro, que se dizia da Bahia e pouco se sabe com quem viveu.


Não esquecer outras que também se tornaram famosas, a exemplo de Dulce, casada com Criança; e sua irmã Rosinha que acompanhava Mariano; Sila que sobreviveu e ficou famosa ao lado de Zé Sereno, ainda tem Adelaide que um certo tempo viveu com Criança; Adília que seguia Canário, Enedina que acompanhou o marido quando este ingressou no cangaço; Maria Fernanda, de Juriti e Áurea, quer amava Manoel Moreno, o cangaceiro que veio da Bahia.


Sérgia Ribeiro, a Dadá de Corisco, foi a única cangaceira manejar um fuzil; grávida em foto no Raso da Catarina


Sem esquecer de Laura, apelidada de Doninha e era casada com Boa Vista; ainda Cristina, de Português e Sebastiana que ficou com Moita Brava após a morte de Lili.


Tais mulheres jamais pisaram em terras e coitos da Paraíba, Ceará ou Rio Grande do Norte. A maioria era sergipana e outra leva de baianas. Elas já chegaram no cangaço banhadas pelas águas do Rio São Francisco, para depois serem banhadas de renda e adornadas joias; contempladas com uma pequena arma de defesa, perfumes e paparicos.


Não há relatos de solteiras nos bandos, as relações eram monogâmicas; a maternidade era de risco e seguida de apartação de suas crias. Deram um toque de civilização as hordas de celerados, escreveram com sangue, dor e amor suas histórias.

Elas não esperavam no terreiro de casa pelos seus amados; estavam lá com eles nas razias e vinditas, sem tempo para lamentar da sorte ou azar, mas que viveram uma aventura digna de heroínas em um tempo governado por homens maus, que tornavam-se bons em suas presenças.


@joaosousacosta pelo Instagram


Fonte “Amantes e Guerreiras”, de Geraldo Maia do Nascimento

“Os Últimos Dias de Lampião e Maria Bonita”, de Victoria Shorr; tradução de Marisa Motta

“Maria Bonita” – Entre o Punhal e o Afeto”, de Nadja Claudino

Imagens: Benjamim Abraão

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