Amor e tragédias femininas no cangaço refletiam as relações de poder

Por João Costa


Às mulheres do cangaço pode-se atribuir a base do arquétipo da mulher sertaneja por terem sido elas responsáveis pela mudança do paradigma feminino numa região de poucos recursos naturais, assolada por estiagens duradouras, fanatismo religioso, violência extrema, padrões medievais de moral; sem vitimização, lançadas à própria sorte numa “guerra suja” tiveram fins violento, à exceção de Durvinha e outras.


Imagem: Durvinha e Virgílio durante filmagens feitas por Benjamim Abraão


Comecemos pela trajetória da famosa baiana Durvalina Gomes, a Durvinha, que se apaixonou e fugiu de casa com Virgínio Fortunato, um cangaceiro bonitão e viúvo, cunhado de Lampião. Após a morte do amado não deixou o cangaço, tornando-se companheira de Moreno até o fim da vida, vivendo na mais absoluta clandestinidade – nem os filhos sabiam do seu passado.


Virgínio foi morto em um tiroteio provavelmente atingido por “fogo amigo”; pois recentemente, uma filha de Durvinha atribuiu a seu pai, Moreno, a autoria do disparo mortal no rival para ficar com a moça. Durvinha foi uma mulher de muitos segredos!


O caso da sergipana Cristina, de Português é emblemático. A chegada à fazenda onde morava de um bando de homens jovens e bem armados, trajes exóticos e exibindo joias despertou a empatia nas moças do lugar. A moça decidiu seguir o chefe do bando, chamado de Português.


Além de Português, Cristina passou a se relacionar com o cangaceiro Gitirana, descrito como moreno escuro e poeta repentista e por isso mesmo bom de papo. Essa relação provocou a instalação de um tribunal do cangaço, em que os cangaceiros decidiram devolver Cristina aos pais.


Cristina e seu companheiro chefe de bando cangaceiro Português


Ela ganhou roupas novas confeccionadas por Dadá, que coseu dinheiro na barra da saia da moça e ela partiu a cavalo escoltada por um coiteiro de confiança.


Não demorou muito, o dito coiteiro retornou às pressas, sozinho, ao bando com um relato trágico.


- Capitão, foi uma desgraça! Na beira do caminho saltaram, de repente, Luiz Pedro, Juriti e o Cadeeiro, que nos obrigaram saltar dos cavalos. Cristina implorou, chorou, pediu por todos os santos, mas não teve jeito, disse o coiteiro. Os cangaceiros alegaram que Cristina poderia delatar coitos e relações com coronéis e coiteiros.

No fim do cangaço pós-Angico foi trágico para Delmira, de Calais, a segunda mulher do cangaceiro João Calais. O casal caiu numa emboscada urdida pelo coiteiro Totonho Preá. Calais levou um tiro na mão e se escafedeu, Delmira foi ferida no abdome, recebeu socorro, mas não resistiu ao ferimento.


No massacre de Angico em 38, estava por lá uma cangaceira chamada Dinda, que escapou, desapareceu sem deixar rastro ou mandar notícia; Dinha foi outra mulher do cangaceiro Delicado e Doninha, de Boa Vista, casal que se entregou e sobreviveu.


Ninguém sabe que fim levou Dória, de Arvoredo, assim como Dulce, de Criança, que também esteve em Angico; Teve a jovem Maria do Santo, chamada de Dussanto, que viveu com Alecrim, cangaceiro que gostava de banhar-se me perfume e que mereceu o apelido de erva aromática


Chocante foi a trajetória das irmãs Eleonora e Aristéia. A primeira casada com Serra Branca encerrou sua vida fuzilada e decapitada; Aristéia sobreviveu para contar história, falecendo aos 98 anos.


Um tribunal formado por cangaceiros sob chefia de Lampião condenou à morte a cangaceira Cristina, de Português, por adultério. Lídia, de Zé Baiano, teve a mesma desventura.


Todos cochichavam, mas não há registro sobre uma cangaceira, “amiga próxima” de Virgulino Ferreira, chamada de Eneida. Ninguém sabe se gostou ou viveu com alguém, mas sua amizade com Lampião ninguém esqueceu. Quem foi a cangaceira Eneida? Ou não foi cangaceira?


O cangaceiro Cobra Viva também tinha mulher e se chamava Estrelinha, e Elétrico vivia com Eufrozina e Veado Branco casou com Idalina; Jacaré que casou Joana Gomes, e esta, depois de ficar viúva contraiu núpcias com o cangaceiro Antônio de Engrácia.


Uma sina feminina: a moça era raptada ou saía de casa em busca de aventura, seguindo o cangaceiro amado, ficava viúva, mas não podia deixar o cangaço nem voltar pra casa de maínha, pois isso significava morte certa. O melhor mesmo era se arranjar com um novo amor.

O famoso cangaceiro Sabonete, guardacostas de Maria Bonita, tinha a sua Josefina Maria, já o cangaceiro Relâmpago gostava e vivia com uma tal Josefa Maria. Josefina escapou e ninguém sabe que destino tomou


O bando de Lampião também teve uma Julinha, mulher de sangue quente e de ascendência indígena da tribo Pankararé; não estava só e ingressou no cangaço ao lado das irmãs Catarina, Joaquina, Joana, uma Chamada Rosa e a mais nova que se chamava de Sabrina.


Dizem que faziam o tipo “eram de todos e não pertenciam a ninguém”. Logo, não podiam criar raízes porque não havia vaga para solteiras no bando.


Como eram estas irmãs? Se amavam ou seguiam alguém, não há relatos, como também nada se sabe sobre uma bela cangaceira chamada Luazinha, tratada assim no diminutivo por ser mignon, biotipo de mulher pequena, bundinha empinada, seios modestos e rosto angelical.


Cangaceiras Nenê, Maria Jovina e Durvinha seguiram seus companheiros na aventura do cangaço


As Marias foram muitas, mas para fechar, abrindo um destaque para Maria Doréa, ou Dora, de Azulão.


Contam que Azulão, ao ver o capitão Virgulino retornar ao bando depois de um percurso na Malhada da Caiçara, trazendo uma mulher, já casada e apartada do marido, chamada Maria de Déa e a apresentou como sua, Azulão não se fez de rogado, imediatamente foi em busca de sua Maria e a incorporou no bando.


O casal teve vida breve no cangaço. Azulão era chegado a fazer suas razias liderando poucos cangaceiros, separados do bando de Lampião. E numa dessas Azulão e seu bando deram de cara com o implacável Zé Rufino e sua volante.


Nesse tiroteio escaparam Arvoredo, Calais e um mulher, mas os cangaceiros Cangica, Zabelê, Azulão e sua Maria foram crivados de balas e suas cabeças levadas pelo tenente Zé Rufino como prova e prêmio para Geremoabo.


Baseado nos livros “Amantes Guerreiras”, de Geraldo Maia Nascimento, e “Lampião: As mulheres e o cangaço”, de Antônio Amaury Correia.


Fotos acervo de Benjamim Abraão

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