Angico 1938: a chuva como fator surpresa, os cachorros e o cabelo a la garçonne de Maria Bonita

Por João Costa

Após 83 anos dos acontecimentos de 28 de julho de 1938 na Grota de Angico(SE) que ensejou o fim do cangaço Lampiônico, eles ainda estimulam a publicação de livros, reportagens, realização de debates acalorados nas redes sociais, tudo em torno de Lampião, que se tornou mito ainda em vida, e fonte de inspiração para a cultura nordestina. Um painel dos acontecimentos, um enredo de traições, vaidades, violência e horror.


Lampião e Maria Bonita, imagem colorizada a partir do filme do libanês Benjamim Abraão, em 1936


Comecemos por um ato de traição motivado por inveja, ressentimento e vilania do coiteiro Joca Bernardo, em relação a Pedro de Cândido, outro coiteiro de cangaceiros.


- O que eu queria, na verdade, era que Pedro de Cândido levasse uma surra da Polícia”, foi o desejo manifesto por Joca Bernardo em relação a Pedro de Cândido, seu desafeto e o que motivou a sua delação aos ouvidos do sargento Aniceto Rodrigues, que não perdeu tempo nem a oportunidade.


- Tenente João Bezerra da Silva, Pedra de Delmiro Gouveia, Alagoas, 27 – Tudo certo. Boi no pasto. Venha. Saudações – Sargento Ancieto Rodrigues dos Santos. Este foi o teor do telegrama que espoletou a operação militar para matar Lampião.

Na esteira da informação do coiteiro Joca Bernardo, outro telegrama militar do coronel Lucena foi despacha para o tenente João Bezerra em tons ameaçadores.


Tenente Bezerra – Piranhas 27. Garrote no curral. Fazenda Angico. Vaqueiro Pedro de Cândido. Cabeça do garrote ou a sua e de Pedro. Cumpra-se. Tenente-coronel Lucena.


A seguir a mobilização de quase 50 homens distribuídos em três volantes, os desdobramentos da operação e, enquanto isso, em Angico, na noite de 27 de julho, 42 cangaceiros estão reunidos à espera de outros, para importante tomada de decisão de Virgulino Ferreira Lampião, que alheio a tudo, mas de mau humor com Maria de Déa, numa “briga de marido e mulher”, por um motivo trivial.


Sebastião Vieira Sandes, ou soldado Santo, o matador de Virgulino, também já havia sido coiteiro do bando


Maria de Déa, como as demais mulheres do cangaço, primava pela vaidade feminina, não abrindo mão de seguir a moda das mulheres da cidade, cortou o seu cabelo à moda la garçonne, que desagradou o marido.


Enquanto tragam um cigarro atrás do outro, um pouco afastadas do bando, Maria desabafa com Sila, sem entender porque Lampião não morre, mesmo após 20 anos de guerra.


- Quando tanta gente nova no bando está morrendo.


Uma chuva fina, constante, começa a cair sobre Angico, tão cara aos sertanejas, foi também o fator chave para o sucesso do cerco e aniquilamento do “rei do cangaço”, segundo explicações do coronel Theodoreto, comandante da Polícia Militar de Alagoas, em entrevista ao jornal Estado da Bahia, em agosto de 1938.


- Só a chuva foi o fator surpresa de que resultou na morte de Lampião, o bando possuía cinco cães que ficavam de guarda, a boa distância do coito; na manhã do cerco, os animais, vencidos pela chuva que tombava sem cessar, retiram-se dos seus postos; nenhum sinal avisou os cangaceiros de que a força se aproximava”.


Uma explicação plausível em relação aos cachorros, mas qual a razão para 42 bandoleiros se reunirem num coito, sem vigilância, ainda que aparentemente seguro?


A tese de que não havia sentinelas em Angico, caiu por terra após declarações do jovem cangaceiro Santa Cruz, primo de outro cangaceiro de alcunha Criança, seu chefe imediato e um dos que escaparam ao cerco.


Segundo ele, as atenções das sentinelas estavam voltadas para uma vereda de bodes que levava à vila de Poço Redondo, caminho recorrentemente usado pelas volantes.


Luiz Pedro, lugar-tenente de Lampião e sua companheira Neném do Ouro, 1937, imagem de Benjamim Abraão


Descartando a possibilidade ataque a partir do rio São Francisco, as sentinelas estavam de costas para a Grota de Angico; Santa Cruz revelou à reportagem do Jornal de Alagoas, em matéria publicada no dia 8 de novembro de 1938.


- A força atacou por baixo, pelo lado do riacho, por isso nada vimos.


Em entrevista ao mesmo jornal, edição de 25 de outubro de 1938, o cangaceiro Vila Nova, deu a sua versão para a hora H do dia D - o inferno que se abateu sobre Angico.


- Imediatamente depois dos tiros, houve um pequeno intervalo, e os cabras que estavam perto de Lampião foram acossados por fortes rajadas que partiam quase da mesma direção, vinda de cima de uma elevação. Logo caíram, mortalmente feridos, Quinta-Feira, Mergulhão, Colchete, Maria Bonita e Marcela.


Balão, cangaceiro experiente em combate e um dos que sobreviveram a Angico, para a revista Realidade, edição de novembro de 1973, disse o seguinte:


- Numa rajada, a metralhadora serrou a ponta da minha barraca. Meu companheiro, Mergulhão, levantou-se de um salto, mas caiu, partido ao meio por nova rajada; as balas batiam nas pedras, soltando faíscas e lascas, gritaria por toda parte um inferno, ouvi Luiz Pedro gritar:


-Vamos pegar o dinheiro e o ouro na barraca de Lampião, não conseguiu, levou uma rajada; corri até ele, peguei o seu mosquetão e, com Zé Sereno, consegui furar o cerco, para mim, foi Deus na causa, lamentou o cangaceiro sobrevivente.

Mas Também outros relatos que corroboram ou que se conflitam.


O que disse o soldado Sebastião Vieira Sandes, o soldado Santo, que já fora coiteiro e Lampião e atendia no cangaço pela alcunha de Galeguinho, sessenta anos depois do acontecimentos, reivindicando para si a autoria do tiro de fuzil Mauser alemão, 7mm, cano extra longo que matou Lampião.


- Foi um único tiro a mesmo de 8 metros de distância, foi uma queda desconjuntada, queda de quem cai para não se levantar mais.


Mas os admiradores do cangaço podem ficar com outra versão dos acontecimentos – a do sargento Antônio Honorato da Silva, o Noratinho. Ao Jornal Diário de Pernambuco de 2 de agosto de 1938, Noratinho deu a sua versão numa narrativa elaborada. Disse ele:


“Vi Lampião se erguer, apresentando na face a expressão de um enorme pavor. Levei o fuzil ao rosto. Mirei bem. A mulher do bandoleiro, nesse instante, estendeu os braços pedindo clemência. Fiz fogo e o chefe dos cangaceiros baqueou. Acompanhei sua queda com dois tiros”.


Disse o sargento Honorato nunca vira antes Lampião nem de longe nem de perto.


Angico: Cruzes marcam o local exato onde estava Lampião, imagem a partir do ângulo do tiro fatal


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Fonte de consulta: Apagando Lampião – Vida e Morte do Rei do Cangaço, de Frederico Pernambucano de Mello.

Lampião: a Raposa das Caatingas, de José Bezerra Lima Irmão

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