Angico 1938: Joca Bernardo, João Bezerra, Pedro de Cândido e a metralhadora de Odilon Flor

Por João Costa (Parte II)


Em uma entrevista publicada pelo Jornal do Brasil, edição de 11 de maio de 1977, Joca Bernardo entrou em detalhes sobre a sua delação que resultou na morte de Lampião, Maria de Déa, e mais 9 cangaceiros no Ataque à Grota de Angico em 28 de julho de 1938. Segundo ele, seu desejo “era apenas que a polícia desse uma surra em Pedro de Cândido.”


Sentados: tenente João Bezerra(E) e aspirante Francisco Ferreira; comando para matar Lampião


- Pedro de Cândido sabia que eu fabricava queijos. Certo dia, lá vem ele atrás de queijo. Eu disse que não tinha; ele olhou para uns queijos que eu ia entregar, de encomenda, e disse pra mim:


- E esses aí, cabra safado, de quem são?


- Do juiz de Pão de Açúcar, não posso vender, argumentei com Pedro de Cândido.


Ele não quis saber.


- “levou todo o queijo, fiquei com raiva e logo arranjei um jeito de me vingar de Pedro, pois descobri logo depois que os queijos eram para Lampião e seu bando. Aí procurei o sargento Aniceto, em Piranhas, e disse que não sabia onde Lampião estava, mas que apertasse Pedro de Cândido que ele dizia tudo”, detalhou Joca Bernardo, para concluir:


Sargento Aniceto Rodrigues, cabecilha de uma das volantes presentes em Angico, 1938


- O que eu queira, na verdade, era que Pero de Cândido levasse uma surra da polícia. Isso se deu no dia 26 de julho, no dia seguinte, uma quarta-feira, dia de feira, em Piranhas, tem início as consequências da delação do Joca.


O relógio assinala 9 horas da manhã quando, discretamente, o sargento Aniceto, chega ao guichê de trabalho de Waldemar Damasceno dos Santo, adjunto da agência dos Correios, em Piranhas, e passa aditar, pausadamente, o famoso telegrama:


- Tenente João Bezerra da Silva, Pedra de Delmiro Gouveia, Alagoas, 27 – Tudo certo. Boi no pasto. Venha. Saudações Sargento Aniceto Rodrigues dos Santos.


Uma ordem em vigor nos quartéis deste 1936 e que alcançava as agências dos Correios, em Alagoas, determinava que as comunicações militares tinham prioridade absoluta.


Não muito longe de Piranhas, na vila de Pedra de Delmiro, o tenente João Bezerra, está em casa do subdelegado José Bandeira, ou Zé Miúdo, desfrutando de um reforçado lanche ao lado do aspirante Ferreira de Mello e do sargento Odilon Flor, cabecilha de uma volante dos nazarenos, retornando de diligências na Bahia e de passagem para o lado Pernambucano do rio São Francisco.


Incrível, mas o famoso telegrama não chegou diretamente às mãos do tenente João Bezerra. Antes, ele passa pelas mãos e pelo crivo do coronel político Elizeu Gomes, que espera o fim daquele encontro amistoso entre os três chefes de volantes e, principalmente, a saída do sargento Odilon Flor em direção a Pernambuco, para só então entregar a missiva cifrada a João Bezerra.


De posse do telegrama e conhecedor da mensagem, João Bezerra supostamente teria confabulado numa conversa pé-de-orelha, com o aspirante Ferreira o seu conteúdo, porque o aspirante, ali mesmo, vira-se para o sargento Odilon Flor e faz um pedido inusitado, que só a camaradagem entre militares, impede a recusa.


- Me empresta essa metralhadora, ela é perfeita para dar uns tiros em ladrões de cavalos.


Sem pestanejar ou apresentar óbices o sargento Odilon Flor empresta a sua metralhadora portátil Bergmann, 9mm, carregador em cofre para rajada de 33 tiros – a arma mais moderna em poder de uma volante. Coincidência ou não, e sob o mesmo pretexto de “atirar em ladrões de cavalo”, o tenente João Bezerra já dispunha de uma metralhadora, pedida de empréstimo ao tenente Gabriel Mariano de Queiroz, também cabecilha de volante pernambucana.


O tenente João Bezerra e o aspirante Ferreira impõem à tropa uma marcha forçada rumo à Piranhas. Por sorte aparece na estrada um caminhão com uma carga de sal grosso que é interceptado por João Bezerra.


- Desce, pode descer, o veículo está requisitado pela polícia, desce! Ordenou João Bezerra ao chofer, completando a ordem para os seus subordinados.


- Descarreguem o caminhão, ligeiro!


O caminhão chega à Piranhas no finalzinho da tarde do dia 27; a tropa é imediatamente aquartalada num casarão que servia para esse fim de acomodação para tropas em trânsito ou permanente.


- No quartel ninguém entra nem sai, nem pra comprar cigarros, e que fechem todas as janelas! Foi a ordem taxativa transmitida.


João Bezerra, Aniceto Rodrigues e o aspirante Ferreira discutem sobre a informação dada pelo Joca Bernardo; em seguida, o próprio João Bezerra, ao cair da noite, convoca canoeiros que ato contínuo fazem o ajoujamento de três canoas de vela.

Antes de deixarem o casarão improvisado em quartel, nova ordem do tenente.


- Nada de conversa, não quero ver cigarro aceso, disse João Bezerra aos cinquentas soldados reunidos e apinhados em três canoas, que vara a escuridão da noite singrando o rio São Francisco debaixo de chuva fina até o arruado de Entremontes.

- Encontrem Pedro de Cândido e me tragam aqui, ordenou João Bezerra ao cabo Francisco Nery, conhecido como cabo Bida e ao soldado Elias Marques.


Coiteiro Pedro de Cândido, o delator: homem de confiança de Lampião e amigo do tenente João Bezerra


O cabo Bida bate à porta de Pedro de Cândido e comunica a ordem de prisão dada pelo tenente João Bezerra. O coiteiro sente o clima e esboça um ardil.


- Estou com febre, não posso levar chuva. Diga ao tenente que venha conversar comigo aqui em casa, por obséquio, foi a resposta dada por Pedro de Cândido à dupla de militares, que retorna sem cumpri a missão de prender o coiteiro.


- Como é? O sujeito não veio e nem vem? Foi a contida explosão do aspirante Ferreira, que mira João Bezerra olho no olho e dispara.


- Compadre Bezerra, é ousadia demais desse cabra; vai ver já fugiu!


-Voltem lá, levem mais dois homens e tragam o Pedro de Cândido, nem que seja pendurado! Ordenou Bezerra. Estava desfeita assim a amizade entre o coiteiro e o tenente. Seguem-se dez minutos de suspense e silêncio sepulcral.


Os momentos seguintes foram os decisivos para aquela operação que representaria praticamente o fim do cangaço no Nordeste, e angustiantes para o coiteiro Pedro de Cândido, que levado à presença dos cabecilhas da volantes, enfrentou a sua hora da verdade.


Como um Pôncio Pilatos, tenente João Bezerra lava as mãos diante do amigo Pedro de Cândido ali capturado e já com o aspirante Francisco Ferreira enfiando-lhe o punhal entre as costelas.


-Hoje aqui você debulha e ninguém vai vir em seu socorro e nem vou perguntar duas vezes; onde está Virgulino, fale seu cabra! Pedro de Cândido sob o fio na navalha leva os dois comandantes à alvíssima casa-grande da fazenda, onde batem à porta e o garoto de 18, Durval Rosa, irmão de Pedro, responde ingenuamente.


-Não tem bebida mais não. A que tinha, já levei toda para os senhores, foi a resposta de Durval, julgando ser cangaceiros do lado de fora em busca de mais aguardente.


O rapaz se denunciara sabedor da localização do bando ao tempo em que é arrastado sob espancamentos para o lado de fora.


- Meu irmão, não adianta. Ou cabeça de Lampião ou a da gente! Disse Pedro de Cândido.


Virgulino Ferreira, Lampião, morto na Grota de Angico há 32 anos e o fim do cangaço


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Fonte: Apagando o Lampião – Vida e Morte do Rei do Cangaço, de Frederico Pernambucano de Mello.


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