Angico 1938: o corte de cabelo a la garçonne de Maria Déa e as condições do ataque

Por João Costa


Após 83 anos dos acontecimentos de 28 de julho de 1938 na Grota de Angico(SE) que ensejou o fim do cangaço Lampiônico, eles ainda estimulam a publicação de livros, reportagens, realização de debates acalorados nas redes sociais, tudo em torno de Lampião, que se tornou mito ainda em vida, e fonte de inspiração para a cultura nordestina.


Maria Bonita e seu corte de cabelo curto que causava ciúmes e desaprovação do seu companheiro


Um painel dos acontecimentos, um enredo de traições, vaidades, violência e horror. Comecemos por um ato de traição motivado por inveja, ressentimento e vilania do coiteiro Joca Bernardo, em relação a Pedro de Cândido, outro coiteiro de cangaceiros.


- O que eu queria, na verdade, era que Pedro de Cândido levasse uma surra da Polícia”, foi o desejo manifesto por Joca Bernardo em relação a Pedro de Cândido, seu desafeto e o que motivou a sua delação aos ouvidos do sargento Aniceto Rodrigues, que não perdeu tempo nem a oportunidade.


- Tenente João Bezerra da Silva, Pedra de Delmiro Gouveia, Alagoas, 27 – Tudo certo. Boi no pasto. Venha. Saudações – Sargento Aniceto Rodrigues dos Santos.


Este foi o teor do telegrama que espoletou a operação militar para matar Lampião.


Na esteira da informação do coiteiro Joca Bernardo, outro telegrama militar do coronel Lucena foi despacha para o tenente João Bezerra em tons ameaçadores.


Tenente Bezerra – Piranhas 27. Garrote no curral. Fazenda Angico. Vaqueiro Pedro de Cândido. Cabeça do garrote ou a sua e de Pedro. Cumpra-se. Tenente-coronel José Lucena.


A seguir a mobilização de quase 50 homens distribuídos em três volantes, os desdobramentos da operação e, enquanto isso, em Angico, na noite de 27 de julho, 42 cangaceiros estão reunidos à espera de outros, para importante tomada de decisão de Virgulino Ferreira Lampião, que alheio a tudo, mas de mau humor com Maria de Déa, numa “briga de marido e mulher”, por um motivo trivial.


Maria de Déa, como as demais mulheres do cangaço, primava pela vaidade feminina, não abrindo mão de seguir a moda das mulheres da cidade, cortou o seu cabelo à moda la garçonne, que desagradou o marido.


Enquanto tragam um cigarro atrás do outro, um pouco afastadas do bando, Maria desabafa com Sila, sem entender porque Lampião não morre, mesmo após 20 anos de guerra.


- Quando tanta gente nova no bando está morrendo.


Uma chuva fina, constante, começa a cair sobre Angico, tão cara aos sertanejas, foi também o fator chave para o sucesso do cerco e aniquilamento do “rei do cangaço”, segundo explicações do coronel Theodoreto, comandante da Polícia Militar de Alagoas, em entrevista ao jornal Estado da Bahia, em agosto de 1938.


Angico, uma semana após o ataque, repórter Mechiades da Rocha leva o coiteiro Pedro de cândido(vestido de preto) ao local


Só a chuva foi o fator surpresa de que resultou na morte de Lampião, o bando possuía cinco cães que ficavam de guarda, a boa distância do coito; na manhã do cerco, os animais, vencidos pela chuva que tombava sem cessar, retiram-se dos seus postos; nenhum sinal avisou os cangaceiros de que a força se aproximava”.


Uma explicação plausível em relação aos cachorros, mas qual a razão para 42 bandoleiros se reunirem num coito, sem vigilância, ainda que aparentemente seguro?


A tese de que não havia sentinelas em Angico, caiu por terra após declarações do jovem cangaceiro Santa Cruz, primo de outro cangaceiro de alcunha Criança, seu chefe imediato e um dos que escaparam ao cerco.


Segundo ele, as atenções das sentinelas estavam voltadas para uma vereda de bodes que levava à vila de Poço Redondo, caminho recorrentemente usado pelas volantes.


Descartando a possibilidade ataque a partir do rio São Francisco, as sentinelas estavam de costas para a Grota de Angico; Santa Cruz revelou à reportagem do Jornal de Alagoas, em matéria publicada no dia 8 de novembro de 1938.


- A força atacou por baixo, pelo lado do riacho, por isso nada vimos.


Em entrevista ao mesmo jornal, edição de 25 de outubro de 1938, o cangaceiro Vila Nova, deu a sua versão para a hora H do dia D - o inferno que se abateu sobre Angico.


- Imediatamente depois dos tiros, houve um pequeno intervalo, e os cabras que estavam perto de Lampião foram acossados por fortes rajadas que partiam quase da mesma direção, vinda de cima de uma elevação. Logo caíram, mortalmente feridos, Quinta-Feira, Mergulhão, Colchete, Maria Bonita e Marcela.


Balão, cangaceiro experiente em combate e um dos que sobreviveram a Angico, para a revista Realidade, edição de novembro de 1973, disse o seguinte:


- Numa rajada, a metralhadora serrou a ponta da minha barraca. Meu companheiro, Mergulhão, levantou-se de um salto, mas caiu, partido ao meio por nova rajada; as balas batiam nas pedras, soltando faíscas e lascas, gritaria por toda parte um inferno, ouvi Luiz Pedro gritar:


-Vamos pegar o dinheiro e o ouro na barraca de Lampião, não conseguiu, levou uma rajada; corri até ele, peguei o seu mosquetão e, com Zé Sereno, consegui furar o cerco, para mim, foi Deus na causa, lamentou o cangaceiro sobrevivente.

Mas Também outros relatos que corroboram ou que se conflitam.


O que disse o soldado Sebastião Vieira Sandes, o soldado Santo, que já fora coiteiro e Lampião e atendia no cangaço pela alcunha de Galeguinho, sessenta anos depois do acontecimentos, reivindicando para si a autoria do tiro de fuzil Mauser alemão, 7mm, cano extra longo que matou Lampião.


- Foi um único tiro a mesmo de 8 metros de distância, foi uma queda desconjuntada, queda de quem cai para não se levantar mais.


Sandes, João Bezerra e Pedro de Cândido, eram os únicos em Angico que conheciam, pessoalmente, Lampião e que poderiam identifica-lo até à distância.


Mas os admiradores do cangaço podem ficar com outra versão dos acontecimentos – a do sargento Antônio Honorato da Silva, o Noratinho. Ao Jornal Diário de Pernambuco de 2 de agosto de 1938, Noratinho deu a sua versão numa narrativa elaborada. Disse ele:


Virgulino Ferreira e Maria Bonita, em imagens de Benjamim Abraão, 1936


“Vi Lampião se erguer, apresentando na face a expressão de um enorme pavor. Levei o fuzil ao rosto. Mirei bem. A mulher do bandoleiro, nesse instante, estendeu os braços pedindo clemência. Fiz fogo e o chefe dos cangaceiros baqueou. Acompanhei sua queda com dois tiros”.


Disse o sargento Honorato que nunca vira antes Lampião nem de longe nem de perto.

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Fonte de consulta: Apagando Lampião – Vida e Morte do Rei do Cangaço, de Frederico Pernambucano de Mello.

Lampião: a Raposa das Caatingas, de José Bezerra Lima Irmão.