Angico 1938: operação de comando ordenada pelo coronel José Lucena matou Lampião

Por João Costa


No longo espaço entre duas décadas do cangaço (1920/38), a trajetória de Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, os historiadores registram assassinatos a sangue frio, cerco e emboscadas, combates diurnos e noturnos; uma guerra de terra arrasada com todas as nuances de uma conflagração rural: injustiças, ódios, rapina, coragem, covardias e traições – e uma traição tanto pode espoletar a guerra como acabar com uma. A que antecedeu Angico pôs fim à guerra ao cangaço.


Ilustração: artefatos do folclore e do artesanato nordestino


Muito se fala no famoso telegrama, em linguagem codifica, do sargento Aniceto Rodrigues para o tenente João Bezerra dando conta da presença de Lampião e seu bando nos arredores do rio São Francisco, margeando o município de Piranhas(AL), bem debaixo das “barbas” de várias volantes ensandecidas à procura do famoso bandoleiro.


E não houve só um telegrama; houveram dois, sendo o segundo mais detalhado e ameaçador. Ao tempo em que o tenente João Bezerra fora alertado da presença de Lampião nas redondezas, o mesmo telegrama chegou às mãos do coronel José Lucena, comandante das forças que davam combate ao cangaço. E, de novo, Lucena, está de volta à história, desta feita no comanda das operações.


De posse do telegrama ditado pelo sargento Aniceto e despachado por Waldemar Damasceno e compartilhado, simultaneamente, com o comando das operações não foi tarefa difícil para o coronel Lucena e seu aparato de espiões decifrarem o que se desenrolava no terreno; tanto assim que o coronel Lucena despacha para o tenente João Bezerra, um segundo telegrama, em tons ameaçadores.


Tenente Bezerra – Piranhas 27. Garrote no curral. Fazenda Angico. Vaqueiro Pedro de Cândido. Cabeça do garrote ou a sua e de Pedro. Cumpra-se. Tenente-coronel Lucena.


Emparedado e no comando da linha de frente, o tenente João Bezerra, coordena com o aspirante Ferreira e o sargento Aniceto Rodrigues, encetando a “solução final” na localidade chamada Forquilha, 2 da manhã do dia 28.


- Não quero um pio, cigarro ou lanterna acesa, todos com dedos nos gatilhos, porque agora não vamos enfrentar Zé Sereno ou Zé Baiano, nós vamos dar combate a Lampião, o nosso alvo é o próprio Lampião, eis a revelação final de João Bezerra aos 50 homens em armas, que para amenizar o impacto, afastar o medo e dar coragem, distribui cachaça com a tropa.


O plano final: João Bezerra, portando uma metralhadora e à frente de dez homens, segue pela direita margeando o riacho Ouro Fino; Antônio Bertholdo da Silva no comando de 8 homens, na mesma direção de João Bezerra, cobrindo o flanco esquerdo.


Aniceto Rodrigues liderando 15 soldados, na mesma encosta e à frente da tropa de João Bezerra, tem a missão de fechar qualquer saída do coito; Juvêncio Correia de Lima e mais dois homens, atravessariam o riacho, para se aproximar de Angico pela esquerda.


Volantes Nortinho(E), Sandes(C) e o repórter Melchiades da Rocha, em Piranhas(AL) 1938


Aspirante Francisco Ferreira de Mello, segue na vanguarda da volante pelo leito beirando a encosta do riacho para varrer de baixo pra cima comandando 15 homens e com o coiteiro Pedro de Cândido, amarrado a Sebastião Vieira sandes, ou soldado Santo, indicando o caminho.


As barracas dos cangaceiros surgem espalhadas, as mais isoladas estavam os cangaceiros casados. A tropa de vanguarda com o aspirante Ferreira chega no ponto em que o leito seco do riacho Ouro Fino se divide em dois – um leito segue para o São Francisco e, ou outro, em direção à casa-grande da fazenda Angico.


Nesse ponto do riacho, o aspirante Ferreira recebe, de novo, a garantia de Pedro de Cândido de guia-lo até a barraca de Lampião, tinha chegada a hora de Ferreira colocar à prova a confiança de João Bezerra na sua capacidade militar de ter a primazia de matar o “rei do cangaço”.


Na segunda onda de cerco e ataque, seguiam Antônio Honorato, o Noratinho, José, Abdon Cosmo e Antônio Francisco Lima, seguidos de José Tertuliano, o Terto, Antônio Vieira da Silva e João Leandro de Souza.


No coice da volante seguiam João Tibúrcio, o João Toste, Guilherme Francisco e Adrião Pedro de Souza, que se tornaria a única baixa entre os militares.


A vanguarda avança riacho seco à cima no modo stealth com o aspirante Ferreira portando a metralhadora emprestada pelo sargento nazareno Odilon Flor, tendo ao seu lado o soldado Agostinho Teixeira de Souza, militar com expertise em combate e também com uma metralhadora Royal.


Na cobertura, o volante contratado Venceslau Ramos, o Zé Cocadinha; ao fundo, o soldado Sebastião Vieira Sandes, mais conhecido como soldado Santo, atrelado por uma amarração ao coiteiro Pedro de Cândido.


A missão de Sandes e de Pedro, inicialmente, era identificar e apontar ao aspirante Ferreira quem era Lampião; de fato, pois à exceção desses dois e do tenente João Bezerra, ninguém naquela tropa conhecia de perto Virgulino Ferreira.


Inesperadamente, o aspirante Ferreira deixa o leito seco do riacho e segue pelo barranco, toma à dianteira, tendo Pedro de Cândido amarrado ao soldado Santo e a uma curta distância, porque chegaram ao ponto da tomada de posição.


Gesticulando com uma das mãos o aspirante manda Pedro de Cândido se aproximar da borda do penhasco, o coiteiro dá alguns passos e recua lívido, pois avistara Lampião logo abaixo, em frente a uma pedra pontuda muito grande.


Virgulino Ferreira da Silva está “a menos de oito metros de distância, em pé, inteiramente equipado, salvo pelo chapéu e pela cartucheira de ombro, pousados sobre a pedra”.

Pedro de Cândido olha para o soldado Santo, que com a cabeça e gestos para o aspirante Ferreira confirma numa linguagem subliminar com a boca.

- É ele.

Em resposta, o aspirante Francisco Ferreira olha para o soldado Santo e amolega o dedo indicador na direção de Pedro de Cândido – era a senha para que o coiteiro também fosse eliminado logo nos primeiros disparos.


Acima da barraca de Lampião e Maria Bonita, um pouco afastadas, dezesseis barracas de cangaceiros se espalham pelo riacho. Vozes de cangaceiros são ouvidas.


Naquele mesmo instante Lampião se afasta da barraca, suspense entre os atiradores que já têm Lampião na alça de mira, e este volta mansamente para a barraca trazendo nas mãos a chaleira com café.


Em cima da grota, o aspirante posiciona sua Bergmann, mas desiste do gesto, fazendo o sinal para o soldado Santo, um franco-atirador dos melhores na volante e, com gestos de cabeça, o autoriza a usar o fuzil Mauser alemão, calibre 7 mm, cano extralongo.


Santo se prepara tomando posição, quando vê um cangaceiro tomando a sua visão. É Zé Sereno que surge para pegar café com o capitão; depois se afasta. Mas quem agora se aproxima é Luiz Pedro para depois se afastar; o capitão Virgulino se abaixa para atacar a alpercata ao pé esquerdo. Novamente em pé, pega a caneca de café e quando vai levando-a à boca...

-Pou!


O tiro fatal que matou o ‘Rei do Cangaço” de cima para baixo, fora disparado pelo soldado Santo.


Lamppião(E) e bando em Ribeira do Pombal(BA), em 1928, depois da travessia do rio São Francisco


- Foi uma queda desconjuntada, queda de quem cai para não se levantar mais, revelou muito tempo depois Sebastião Vieira Sandes, o soldado Santo, que no passado também havia sido amigo e coiteiro de Lampião e que era tratado pelo casal Lampião e Maria Bonita como “Galeguinho”.

Fotos de Domínio Público

Acesse. Blogdojoaocosta.com.br

Fonte de consulta: Apagando Lampião – Vida e Morte do Rei do Cangaço, de Frederico Pernambucano de Mello

.