Angico como palco do combate em 1938: minutos de tiros, fugas, desespero e degolas de cangaceiros

Por João Costa

A guerra rural se diferencia da guerra urbana no aspecto em que o combate, mesmo de tocaia, cerco ou mesmo planejado, abrigos de proteção são escassos e o confronto praticamente resvala para o duelo frente-a-frente dos guerreiros – ninguém permanece o tempo todo por trás da trincheira, e o foi o que ocorreu em Angico, em 1938.


Virgulino Ferreira da Silva Lampião e Maria Bonita em foto de Benjamim Abraão feita em 1937


Flashs do combate:


Na narrativa do cangaceiro Vila Nova, depois dos primeiros disparos, houve um pequeno intervalo, e quem estava perto de Lampião tombou sem muita chance de reação; logo caíram, mortalmente feridos, Quinta-feira, Mergulhão, Colchete, Maria Bonita e Marcela.


Segundo contou o soldado José Panta, o cangaceiro Alecrim também tombou na mesma sequência.


“Na área da barraca do chefe, caem, logo, logo, sete cangaceiros”, narrou Panta, que cortou a cabeça do cangaceiro Poço Redondo e de mais três cangaceiros a ponto da sua farda ficar “vermelha com os esguichos”.


Mas houve uma reação imediata à volante, o cangaceiro Luiz Pedro, lugar-tenente de Lampião, ensaia uma fuga riacho acima; aos 40 anos de idade, no cangaço desde 1922, abriga-se por trás de tronco grosso de uma ingazeira, vê o soldado Antônio Jacó, da volante de Zé Bezerra, e passa fogo.


Descarrega cinco tiros do seu mosquetão, mas a sorte está do lado do magrelo e ligeiro Antônio Jacó que, com agilidade felina, livra-se das balas; Luiz Pedro larga o mosquetão e, ao tentar sacar sua pistola, leva um balaço. O volante Jacó quase foi impedido pelo tenente João Bezerra de fazer o disparo pois tentou poupar a vida de Luiz Pedro, com quem mantivera amizade estreita até um passado recente.


Luiz Pedro, compadre e lugar-tenente de lampião ao lado de neném do Ouro, sua companheira


Já na porta do inferno que se abatia sobre Angico, os cangaceiros Cobra Verde e Laranjeira, retornam de uma vacaria onde foram apanhar suprimentos para o café da manhã, dão meia volta; ainda assim Cobra Verde leva um tiro de raspão na coxa, tal a intensidade das descargas de metralhadoras e fuzis em todas as direções e, ainda assim, se escafederam pela caatinga.

Os soldados da volante do aspirante Ferreira, que vinham na esteira do riacho, em função da inexperiência, abre fogo sem mira; o cangaceiro Zé Sereno estava de volta do olho d’água do referido riacho, se depara com a soldadesca à sua frente.


- Não atire, é companheiro, não atire! Gritava Zé Sereno para os soldados, que acreditaram nesse blefe do experiente cangaceiro. A sorte e por não usar naquele momento chapéu de couro da aba larga e quebrada, favoreceu Zé Sereno que foge deixando para trás a sua amada Sila, que dormia sono pesado e fora despertada pelo pipocar dos tiros e gritos.


Sila narrou, anos depois, que não esperou tempo ruim. Pulou da sua “cama”, passa mão nos bornais, corre descalça na intenção de escapar dos tiros; agachada, vê o chefe de grupo Criança e Dulce, sua companheira, passando em desabalada carreira e gesticulando com a mão, chamando-a.


- Vai, vai, ligeiro! Ordenava Criança para as duas mulheres.


Em menos de 50 metros, o grupo se depara com o cangaceiro Candeeiro que revida os tiros com seu fuzil, mas não dura muito e, em questão de segundos, Candeeiro tomba ferido com um balaço no braço por fogo amigo disparado pelo cangaceiro Santa Cruz que corria disparando para trás.

- Pega meu mosquetão, pega! Foi o pedido feito de relance por Candeeiro a Sila, ao tempo em que amarrava o lenço-jabiraca no braço ferido, já inutilizado.

O grupo segue subindo o riacho quando Enedina, mulher do cangaceiro Cajazeiras, se junta ao grupo, liderado por Dulce e Criança. O tiroteio é cerrado e...

Pou!



Um tiro destampa o crânio da cangaceira adolescente Enedina, lançando parte dos miolos nas vestes de Sila.


No outro front, Manoel Pedro Miguel que atendia pela algunha de Elétrico devido às suas habilidades já integrava o círculo fechado da guarda pessoal do capitão Lampião, foi o protagonista da escassa reação cangaceira ao ataque feroz e relâmpago das 3 volantes a Angico.


Elétrico não abandonou o combate e naquele momento entre a fuga fácil e à morte, fez valer sua gratidão e promessa feita no passado a Virgulino Ferreira e à sua própria família.


- Se um dia o padrinho Lampião morrer, o cangaço só se acaba se eu morrer com ele, fora o juramento feito por Elétrico, em 1937, ao ingressar na vida bandoleira.


A barraca de Elétrico ficava na encosta à esquerda do riacho e acima do salão do coito de Angico, livre do tiroteio devido o atraso do sargento Juvêncio em fechar o cerco.


Sem pressa, mas de raciocínio rápido, aproveitando a redução do tiroteio, sorrateiramente, Elétrico vai de encontro ao centro do coito, estanca, toma posição de tiro, mira bem e...


Pou!


O soldado Adrião Pedro de Souza, que vinha no coice da volante do aspirante Ferreira, é abatido com um tiro no pescoço e o soldado Guilherme Francisco da Silva, também tem um braço quebrado.


Depois desse disparo certeiro, Elétrico fica exposto; quando se prepara para uma nova descarga de fuzil, não longe dali, amparado por trás de uma moita, o negro João Tostes, veterano da volante do sargento Aniceto, mira calmamente e passa fogo em Elétrico, acertando-o com um tiro na barriga.


Elétrico cai, perde força para manejar o fuzil, saca da pistola e, deitado por debaixo dos arbustos, passa a atirar, revelando a sua posição. O tenente Bezerra é orientado para o local de onde os tiros são disparados, posiciona sua Bergmann na direção onde se esconde Elétrico e manda duas rajadas.


Elétrico cessa os disparos, pois está agonizante nos seus momentos finais, mesmo cuspindo sangue, mas ainda assim tem forças para insultar o tenente Bezerra.


-Traidor se-vergonha!


Elétrico tem sua agonia abreviada, é morto a golpes de punhais que surgem de todos os lados nas mãos de soldados ensandecidos.


Sebastião Vieira Sandes, o soldado Santo, o atirador da volante que matou Lampião


Não longe desse combate, o soldado Sebastião Vieira Sandes, após acertar Lampião, desce a ribanceira protegido pelo fumacê do tiroteio e pela névoa que caía em Angico, se depara com Maria Bonita, atingida por um tiro dado pelas costas, que sai pela clavícula, está entre ‘deitada e sentada” reconhece o antigo amigo que era tratado no diminutivo pelo casal real do cangaço como Galeguinho. Fez seu último apelo:


- Galeguinho, pelo amor de Deus, não deixe acabarem de me matar!


Apelo inútil da rainha do cangaço, pois os volantes Noratinho e Abdon se aproximam, o soldado Santo apenas acende um cigarro e oferece a Maria Bonita.


Grota de Angico, pelo ângulo da posição de tiro de Sebastião Vieira Sandes

Por trás e de forma apressada vem se aproximando Zé Panta e atira por cima dos colegas.


- Eu dei o primeiro disparo e tenho o direito de terminar de matar a bandida, justifica Panta já sacando seu facão para cortar a cabeça de Maria Déa, a rainha do cangaço, a poucos metros de onde jazia o rei do cangaço.


Fonte de consulta: Apagando Lampião, Vida e Morte do Rei do Cangaço, de Frederico Pernambucano de Mello.

Por Trás do Blog
Leitura Recomendada
Procurar por Tags
Siga "PELO MUNDO"
  • Facebook Basic Black
  • Twitter Basic Black
  • Google+ Basic Black