Arlindo Rocha e os bastidores políticos para forçar Lampião a deixar Pernambuco

Por João Costa


Causa admiração a trajetória de volantes famosas e seus cabecilhas exatamente porque foram homens arrastados para guerra por conta de vinditas e intrigas; uns em busca de fortuna; outros pela proteção do estado.


Uma dezena de livros não esgotaria a saga dos Nazarenos, nem sintetizaria a aventura militar de Arlindo Rocha – e é sobre ele a prosa de hoje pedindo, antecipadamente, desculpas por imprecisões.


Bando de Lampião em Vieira do Pombal, já na Bahia, após deixar o estado de Pernambuco


Arlindo Rocha não foi um militar de carreira, mas as circunstâncias o arrastaram para o combate ao cangaço de maneira individual, inicialmente, e depois de forma corporativa quando galgou patente e promoções na Polícia de Pernambuco.


Próspero comerciante em Barreiros, lá por volta de 1924, Arlindo Rocha recebeu um bilhete de Virgulino Ferreira, Lampião, pedindo munição de guerra e suprimentos. Sua reação foi instantânea: rasgou o bilhete na frente de várias pessoas presentes em seu estabelecimento, inclusive coiteiros do bandoleiro.


Não demorou muito e novo bilhete de Lampião para Arlindo Rocha avisando que o bando, em breve, estaria de passagem por sua propriedade para arrancar as orelhas dele e de familiares, sem deixar de pé casa, plantações e animais. Tudo viraria cinzas.


Diante de uma sentença de Lampião, cristão nenhum tinha a quem recorrer ou apelar, era a crença corrente entre os sertanejos pobres, remediados ou ricos.


Arlindo Rocha não teve dúvida do caminho a seguir: reuniu dezenove parentes, distribuiu armamento, munição, apetrechos e foi à guerra por conta própria. Mas toda guerra tem custos financeiros e Arlindo não suportou os gastos com uma milícia privada.


Politicamente habilidoso, pediu e obteve socorro do chefe político de Salgueiro, coronel Veremundo Soares que o incorporou à Polícia Miliar já como terceiro-sargento e os demais parentes milicianos como soldados volantes, transformados agora em Força Auxiliar Arlindo Rocha.


E com razão. Não demorou muito, Arlindo Rocha e sua tropa eliminam dois cangaceiros em Brejo Santo, Ceará e, de quebra, deixou vários feridos que foram capturados. Por outro lado, Arlindo Rocha parecia ter o corpo fechado.


O homem é uma fera já foi baleado várias vezes e não morreu; tem corpo fechado, diziam seus subordinados.


Em telegrama ao governo de Pernambucano o comandante da PM Theopanhes Torres relatou o seguinte sobre Arlindo Rocha:

“O referido inferior, pelo modo como vem se conduzindo desde o início da campanha contra os bandoleiros...É merecedor da estima e admiração de seus superiores, já tendo recebido diversos ferimentos nos combates em que tem tomado parte”.

A volante do já então tenente Arlindo Rocha nesse mesmo ano de 1924, durante combates ferrenhos, despacha para o outro mundo cangaceiros famosos como Antônio

Padre e Gavião. E também contabiliza derrotas. Em 1926 participa da Batalha de Serra Grande, relatada até hoje como a maior vitória de Lampião sobre as forças volantes.


- Hoje os cangaceiros vão comer bala, foi a frase dita por Arlindo Rocha em tom de bravata antes da batalha, porque quem comeu bala foi ele.


Levou um tiro na boca que destruiu parte da mandíbula, ferimento este que lhe trouxe problemas de mastigação e uma cicatriz atroz.


Em fevereiro de 1927 Arlindo Rocha em companhia do também tenente Eurico Rocha e do sargento nazareno Manoel Neto cercaram a fazenda do coiteiro Antônio Teixeira Leite, o famoso Antônio da Piçarra.


Noite de chuva e trovoada, a tropa se abriga debaixo de mocambos e marmeleiros, eis que um relâmpago clareia o lugar, um vulto surge em cima de uma cerca e um soldado da volante de Arlindo Rocha não titubeia e dispara um tiro certeiro.


Pou!


Começava ali o início do fim do célebre cangaceiro Sabino Gomes, ou Sabino das Abóboras, o mais importante cangaceiro do bando de Lampião.


O tenente Arlindo Rocha é descrito como homem moreno, alto e magro, cicatriz profunda na face esquerda; tornou-se comandante das tropas volantes pernambucanas que varriam para fora do estado bandoleiros famosos, inclusive Lampião e seu bando.


Tenente Arlindo Rocha, antes de ingressar na PM, montou uma milícia privada para combater Lampião


A trajetória de Arlindo Rocha, de simples comerciante em Barreiros a comandante de tropa, causava e inveja na corporação e gerou até motins liderados por oficiais que não o aceitavam e se recusavam a seguir suas ordens.


Por último e não por fim, em 1928, Arlindo Rocha foi a Vila de Pau Ferro, município de Água Belas, à frente sua última missão: desta feita não mais com fuzil na mão, mas à frente de uma missão de inteligência por demais secreta.


Trata-se de encontro decisivo entre Arlindo Rocha, enviado do governo, e o coronel Francisco Martins Albuquerque, coiteiro de Lampião e chefe político.


Arlindo Rocha está em companhia de um tal Paulo Lopes, conhecido como Sebasto, o primo queridíssimo de Virgulino Ferreira da Silva. Rocha vai direito ao assunto porque ele sabe que o teor da conversa travada ali, chegaria aos ouvidos de Lampião, “mais rápido que ligeiro”, na linguagem sertaneja.


- Estou aqui em missão secreta designada pelo chefe-geral da Polícia. Este aqui é Sabasto; levem-no até Lampião com o ultimato: ele deve se entregar e ser recambiado com segurança para Cadeia do Recife, ou deve deixar o estado de Pernambuco.


Volante de Arlindo Rocha durante a guerra ao Cangaço no estado de Pernambuco


O resultado dessa reunião ocorreria dias depois. Em agosto, informantes reportam uma visita de despedidas feita por Lampião a uma irmã que residia nas proximidades de Pedra de Delmiro e vem a público o teor de um telegrama da Polícia de Floresta para o chefe de polícia, em Recife:


“Comunico vossência que bandido Lampião, companhia cinco comparsas bastante municiados, dia 19 corrente atravessou rio São Francisco, proximidades de Sobrado, município Tacaratu, destino estado da Bahia. Saudações, Augusto Ferraz, delegado de Polícia.


Arlindo Rocha não capturou nem matou Lampião como pretendia, mas foi diretamente responsável pelas articulações de bastidores que levaram Virgulino Ferreira a abandonar Pernambuco e Paraíba, obrigando-o a atravessar o rio São Francisco em direção a Bahia.



Fonte de consulta. Apagando Lampião, Vida e Morte do Reio do Cangaço, de Frederico Pernambucano de Melo



Por Trás do Blog
Leitura Recomendada
Procurar por Tags
Siga "PELO MUNDO"
  • Facebook Basic Black
  • Twitter Basic Black
  • Google+ Basic Black