Ataque a Sousa: a conspiração de Lampião, Cel. Zé Pereira, Marcolino Diniz e Chico Pereira

Por João Costa


O ataque do bando de Lampião a cidade de Sousa na Paraíba, em 27 de julho de 1924, já foi abordado por vários ângulos, entretanto, é um assunto que teima em não se exaurir, ser devidamente explicado o que de fato aconteceu naquela cidadela, embora os motivos para a razia sejam explorados e explicados à exaustão. O escritor Bismarck Martins, em seu livro História do Cangaço, é fonte segura de compreensão.


Casa de Marcolino Diniz, em Patos de Irerê, coito de Virgulino Ferreira Lampião


Eis que Virgulino Ferreira da Silva Lampião se encontrava militarmente incapacitado, convalescendo de um perigoso ferimento à bala no pé, e ainda assim organizou e perpetrou o ataque, após mobilizar 89 cangaceiros e despachá-los de onde estava, o sítio Saco dos Caçulas, nos domínios do coronel José Pereira, em Princesa Isabel.


Na Arte da Guerra um pelotão de soldados se forma com 20 a 50 homens, no ataque a Sousa, Virgulino organizou “cinco pelotões”, digamos assim, distribuídos sob os comandos de: Antônio Ferreira, Livino Ferreira, Sabino das Abóboras, Meia-Noite e Chico Pereira, cangaceiro nativo de Sousa, chefe de bando próprio e sócio na empreitada com Lampião e o coronel Zé Pereira que tinha no sobrinho Marcolino Diniz, seu preposto.

No mês de julho do ano da graça de 1924, o cangaceiro Chico Pereira e sua família, radicados na zona rural de Nazarezinho, distrito de Sousa, enfrentavam violenta disputa política que envolvia, além dos poderosos do lugar, o juiz da comarca, Arquimedes Souto Maior.


Um “laranja” e cabra de confiança da família de Chico Pereira, de nome Chico Lopes, fora surrado em Sousa e ao retornar à Fazenda Jacu, de propriedade dos Pereira, informou que “uma outra” surra estaria reservada para Chico Pereira, para isto acontecer, bastava aparecer em Sousa.


A oportunidade esperada por Chico Pereira para ir a Sousa apareceu no mês de julho de 1924, quando se espalhou a informação que Virgulino Ferreira estava acoitado em uma das fazendas do Coronel Marçal Diniz, em Patos de Irerê(PB) na divisa entre os municípios de Princesa Isabel e Triunfo(PE).


Chico Pereira esboça seu plano inicial contra seus inimigos em Sousa.


Partiu sozinho disfarçado de tropeiro para o coito onde estava Lampião, viajando à noite e dormindo na caatinga. Ao chegar ao seu destino apresentou argumentos convincentes para uma ação de razia a Sousa. A cidade já tinha quase 4 mil habitantes, mal protegida pela polícia e um comércio pujante.


Quadro de Marcolino Diniz, no museu de Princesa Isabel


No famoso coito de Patos de Irerê, sentado à mesa com Marcolino Diniz e Virgulino Ferreira, num suculento almoço onde foi servida carne de bode assada, queijo e muita cachaça, Chico Pereira apresentou sua demanda e ali mesmo o plano de ataque a Sousa foi esboçado.


Ao coronel Zé Pereira coube o financiamento e a logística. “Nada se movia debaixo do Sol em Princesa Isabel sem a concordância de Zé Pereira, que tinha ao alcance das mãos e na folha de pagamento um exército de jagunços e cangaceiros que lhe deviam favores e lealdade canina”, relatavam seus adversários.


Mas o que fazia Lampião numa propriedade do deputado Zé Pereira, homem mais poderoso do sertão paraibano?

Reza a lenda que Lampião barbarizava em Pernambuco e descansava na Paraíba, exatamente em Patos de Irerê, espécie de spa do cangaceiro. Desta feita Lampião aí se encontrava convalescendo de ferimento no pé, após tremendo combate nas imediações da Pedra do Reino na Serra do Catolé, em São José do Belmonte(PE) com a volante cujo cabecilha era o major Theóphanes Ferraz.


Incapacitado de caminhar, Lampião foi removido das cercanias na Serra do Catolé para Patos de Irerê onde recebeu tratamento do médico Severiano Diniz, primo de Marcolino.


Cangaceiro Chico Pereira, portando arma privativa do Exército, planejou o ataque a Sousa


À cabeça da mesa na famosa casa que servia de coito em Patos de Irerê, Lampião foi didático.


- Todos os grupos estarão sob o comando de Antônio Ferreira, inclusive o seu Chico Pereira e o do meu compadre Sabino das Abóbora, irmão de criação e homem de confiança de Marcolino.


- Capitão! Tenho um reparo a fazer, teria ponderado Chico Pereira.


- Fale agora para não haver lamúria depois, respondeu Virgulino.


- Em Sousa, tenho muitos amigos comerciantes e correligionários políticos; seria de bom alvitre poupar seus estabelecimentos e ainda assim vai sobrar muita bodega pra saquear, o comércio é grande, capitão.


Dito isto, Chico Pereira passou a nomear os comerciantes e os estabelecimentos que deveriam ser saqueados e os que seriam poupados.


- Oxente! Tenha paciência. Se assim é e desse jeito for, não vai sobrar comércio nenhum pra ser saqueado, atalhou Antônio Pereira. Os convivas riram com a piada, mas se estabeleceu um pacto para preservar algumas famílias.


Assim uma horda de oitenta e nove cangaceiros bem armados e municiados partiu de Patos de Irerê com destino à fazenda Jacu, em Nazarezinho, onde os grupos se reagruparam, comeram e beberam, para logo em seguida partir para Sousa.


Entretanto, pelo caminho, o bando promoveu roubos e espancamentos nos arredores do povoado de São José da Lagoa Tapada. O pavor se espalhou e a notícia também, a ponto de vários telegramas relatando os fatos e pedindo providências chegaram à mesa do governador da Paraíba, Sólon de Lucena, todos datados de 20 de julho.


Sólon convocou ao Palácio da Redenção, o Dr. Demócrito de Almeida, chefe da segurança pública, que recebeu ordens para que os destacamentos de Cajazeiras e Pombal desdobrasse reforços para Sousa. Mobilização inútil.


Virgulino Ferreira Lampião em Juazeiro do Norte, 1926


Na noite de 26 de julho a sociedade sousense é tomada de pavor por conta dos boatos. Os chefes políticos se reúnem, esboçam uma organização, mas a reunião acaba com acusações de lado a lado, mas com o prefeito de Sousa, Cel. José Gomes de Sá, amigo e correligionário de Chico Pereira assegurando que nada aconteceria na cidade, e que “botava a mão no fogo por Chico Pereira e que se responsabilizaria por qualquer invasão que viesse ocorrer”.

O domingo 27 de julho de 1927 amanheceu com Sousa tomada por 89 cangaceiros sob o comando de Antônio e Levino Ferreira, Meia-Noite, Sabino das Abóboras e Chico Pereira, domingo este que se tornaria sombrio na História de Sousa, por conta dos saques e dezenas de estupros praticados pela horda de bandoleiros.


Fonte de consulta: História do Cangaço – O saque de Sousa, de Bismarck Martins.

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