Ataque a Sousa II: Paizinho aterroriza o Judiciário; pressionado, Cel. Zé Pereira muda de lado

Por João Costa


Uma “tempestade perfeita” desabou sobre a população de Sousa, na Paraíba, no dia 27 de julho de 1924, quando 89 cangaceiros distribuídos em cinco grupos comandados por Antônio e Livino Ferreira, Sabino das Abóboras, Meia-Noite e Chico Pereira atacaram a cidade, naquele que seria considerado a mais rendosa de todas as razias realizadas pelo bando de Lampião, que não participou do saque.


Casa do cel. Marçal Diniz, coiteiro de Lampião, Serra do Pau Ferrado, em Patos de Irerê


-“Dou minha palavra e ponho minha mão no fogo por Chico Pereira que não vai haver ataque”, teria dito na noite anterior o prefeito da cidade, Dr. José Gomes de Sá, amigo do cangaceiro e correligionário político.


O Palácio da Redenção havia sido notificado sobre a marcha dos cangaceiros sobre Sousa e ordenado aos destacamentos de Pombal e Cajazeiras que reforçassem a segurança em Sousa, três dias antes do ataque. Mas a despeito de tudo, a horda de bandoleiros encontrou pouca ou quase nenhuma resistência.


O destacamento policial de Sousa, composto por 12 praças sob o comando do sargento Apolônio, acovardou-se. O próprio juiz da Comarca, em seu relato ao Tribunal de Justiça da Paraíba, cravou: “a força policial, comandada pelo sargento Apolônio, não se moveu nem promoveu a menor resistência aos assaltantes, pois não disparara uma só arma, conservando-se indiferente no seu cômodo aquartelamento na cadeia”.


Capela de São Sebastião na cidadela de Patos de Irerê, espécie de spa de Virgulino Ferreira

Mas três sousenses não se dobraram ao assombro do terrível ataque. Do Posto do Telégrafo, os cidadãos, Antônio Amorim, telegrafista, Júlio Marques e Luiz Preto, manejavam seus rifles winchester com disparos cadenciados até a munição acabar. Tiveram que fugir após essa frágil reação diante de 89 cangaceiros bem municiados.


A primeira providência tomada pelo comando de Antônio Ferreira foi atacar a Cadeia pública onde desarmou os soldados a li assustados e libertou todos os presos que imediatamente se associaram aos saqueadores.


Livino Ferreira, Sabino das Abóboras, Meia-Noite e seus comandados barbarizavam pela cidade saqueando estabelecimentos comerciais, adentrando em residências e violentando mulheres, numa fúria tamanha que a cidade preferiu apagar da memória e da sua história tudo que se passou naquela manhã de domingo.


Coronel Zé Pereira, deputado estadual, rompeu com Lampião, movendo forte campanha contra o cangaço


Chico Pereira nada podia fazer e não comandava coisíssima nenhuma, a não ser seus cabras, na maioria vaqueiros e agricultores desajustados que viram a oportunidade de fazerem fortuna nesse ataque.


- Danou-se, não façam uma desgraça dessa não!


Resmungava o cangaceiro Chico Pereira, que nada pode fazer diante de tanta violência sexual e truculências praticadas. O trato firmado com Lampião e Marcolino Diniz para que algumas famílias sousenses fossem poupadas foi totalmente ignorado.

Bem próximo à Igreja Mariz residia o juiz da Comarca, Archimedes Souto Maior, que teve a sua porta arrombada, para logo em seguida enfrentar um verdadeiro martírio.


- Não se bula nem faça alarido!


Gritou o cangaceiro de nome Severino Alves de Farias, vulgo Paizinho, que tempos atrás havia sido condenado a 30 anos de reclusão pelo juiz Archimedes acusado de latrocínio e ali estava de corpo e alma para ajustar contas com o magistrado

- Prepara-se doutor, e se dessa quiser sair vivo, que pague em dinheiro e joias, senão morre! Vociferou Paizinho.


O cangaceiro Paizinho cobrou vultoso resgate da família, além de impor ao magistrado terríveis humilhações; Archimedes foi arrancado de sua residência ainda de pijama, arrastado e espancado pelo cangaceiro pelas ruas de Sousa.


Ninguém foi poupado no ataque a Sousa, nem adversários ou correligionários políticos de Chico Pereira, muito menos cidadãos comuns e suas famílias.


Cangaceiro Chico Perreira, de Nazarezinho, organizou o ataque a Sousa, em 1924


O apurado do ataque, segundo alguns relatos, ultrapassou uma centena de contos de réis; cavalos e burros pertencentes às famílias foram levados e utilizados para o transporte da mercadoria roubada das mercearias, além de ouro e joias subtraídas das famílias saqueadas e tratadas a coice de rifle e chicotadas.


O bando se desfez após o ataque, tendo os grupos liderados por Antônio, Livino, Sabino e Meia-Noite retornados ao coito onde Lampião convalescia, em Patos de Irerê.


O bando de Chico Pereira também se dispersou levando o seu butim tendo alguns “cabras” acompanhado o sanguinário Paizinho no rumo de Monteiro e depois Pesqueira(PE). Em setembro de 1924, Paizinho foi capturado pela polícia de Pernambuco, recambiado para Sousa, onde respondeu a processo para depois ser transferido para o presídio da capital, onde cumpriu pena.


Depois se escafedeu no oco do mundo.


Casa de Marcolino Diniz, coito de Lampião em Patos de Irerê


O ataque a Sousa causou tamanha repercussão social e política na Paraíba, que obrigou o governador Sólon de Lucena e o seu sucessor João Suassuna, a uma mudança de postura em relação ao cangaço e seus coiteiros na Paraíba.


Como consequência, relatam que o Cel, José Pereira rompeu relações com Lampião; mudou de lado, recebendo armas e comprometendo-se com o governo a combater o cangaço no Sertão.


Depois desse ataque, o Cel José Pereira recrutou Clementino Quelé, ex-cangaceiro do bando de Lampião, o incorporou na polícia paraibana com a patente de sargento.


Virgulino Ferreira Lampião no início do cangaço, em foto provavelmente de 1922


Quelé se notabilizou na Paraíba como o maior inimigo e caçador de Lampião, além de ter sido um dos maiores protagonistas da Guerra de Princesa, combatendo ao lado do governo e não de Zé Pereira com quem rompeu relações.


Em 1926 quando esteve em Juazeiro do Norte(CE), Lampião em entrevista não escondeu o que sentia pelo Cel. Zé Pereira, e ainda cobrou 70 contos de réis – certamente dinheiro de agiotagem e espólio do ataque a Sousa


Fontes de Consulta: História do Cangaço – O Ataque a Sousa, de Bismarck Martins de Oliveira.

Relatos orais.

Imagens de domínio público