Aurora nordestina: em meio às injustiças, surge Antônio Silvino - "Rifle de Ouro"

A partir desta semana o blog passa a publicar artigos do professor Julierme Wanderley sobre História Nordestina, especialmente focado na trajetória do cangaceiro Antônio Silvino.


A gênese de um Cangaceiro.

Por Julierme do Nascimento Wanderley.


Os sertões nordestinos da segunda metade do século XIX, não era um lugar afeito a bondades e mimos, muito pelo contrario era uma terra em que a lei do mais forte valia muito mais do que qualquer lei instituída pelo estado, estado esse que quase sempre se curvava aos caprichos devassos daqueles que tinham na verdade o poder supremo sobre a vida e a morte dos desafortunados que nasciam à margem de qualquer possibilidade de crescimento social. Esses senhores da vida e da morte recebiam a alcunha de “Coronéis”, que na sua grande maioria nunca na vida tinham vestido uma farda de militar e muito menos tinham comandados homens em campos de batalha.

Manoel Baptista de Morais, entrou para história do Nordeste com o vulgo de Antônio Silvino - O Rifle de Ouro


Na verdade esses que se intitulavam de “Coronéis”, eram comandantes de hordas de facínoras que se chamavam “Jagunços”, prodigiosos fazedores de viúvas e órfãos e que imponham o terror sem limites a todo aquele que por ventura tivessem a ousadia de se levantar contra essa ordem vigente. É dentro desse palco cheio de práticas injustas que vai surgir um fenômeno social que iria marcar a história dessa região e esse fenômeno viria a ser chamado de cangaço e os seus desenvolvedores seriam chamados de cangaceiros que viriam a ser um ponto de resistência a essa ordem vigente mesmo que sendo de forma torta baseada na violência quase que absoluta.


Ao longo dessa caminhada encharcada de injustiças, sangue, atrocidades das mais variadas, vão surgir homens diferenciados que foram moldados por toda essa história que beirava a insanidade quase que total. Esses homens diferenciados que ao mesmo tempo poderiam causar uma admiração quase que sobrenatural também poderia causar uma sensação de terror sem limites pelo simples fato de terem seus nomes pronunciados.


Essa história que será contada agora é relacionada a um desses homens diferenciados que diferentemente dos outros nasceu em uma família considerada para os padrões daquela época muito bem afortunada do sertão de Pernambuco mais precisamente na área geográfica do atual município de Afogados da Ingazeira região fronteiriça ao estado da Paraíba. Esse personagem vai ser um verdadeiro produto de uma região influenciada por um meio físico de clima inclemente e vegetação rústica constituída pelo bioma de caatinga que por se só moldou as formas de produção e consequentemente as formas de agir da sociedade que nela se desenvolvia.


Para entendermos o surgimento desses homens diferenciados voltemos aos séculos XVII e XVIII, no período da expansão da criação de gado bovino, sendo essa atividade econômica responsável de fato pela ficção do homem colonial nessas paragens interioranas do nordeste brasileiro. Essa empreitada colonizadora se verificou pela extrema necessidade que os criadores de gado bovino tiveram de relocar seus rebanhos para áreas distantes das zonas produtoras de cana de açúcar, pois era incompatível essa atividade baseada na criação extensiva de animais com atividade canavieira, pois produzia grandes danos provocando grandes prejuízos aos senhores de engenho.


Por conta disso e pela pressão exercida por parte dos senhores de engenhos a criação de gado bovino foi forçada a se estabelecer nas regiões de predomínio da caatinga e é nesse período que levas de pessoas adentram em áreas de sertão bravio enfrentando as agruras do semiárido do nordeste brasileiro.


Com o desenvolvimento das grandes fazendas de criação de gado surgiu pequenos aglomerados de casas com alguma feição urbana e a entrada de elementos humanos vindos de outras partes da colônia aumentou de maneira considerável fazendo com quer abrisse grandes áreas de pastagens.


Deve-se salientar que os surgimentos das fazendas de gado bovino tiveram também o objetivo de consolidar a autoridade da coroa portuguesa nessas áreas interioranas e um dos fatores que mais complicaram para a manutenção das pessoas nessas regiões semiáridas foi à rudeza desse meio natural que apresentava escassez de água e vegetação espinhenta e extremamente seca nos períodos de estiagem e desde logo as situações adversas das regiões cobertas pela caatinga fizeram com que a questão de adaptação ao meio hostil se torne vital.


A expansão da pecuária bovina, sertões adentro fez com quer o acumulo de terras criasse grandes propriedades rurais aos modos feudais criando zonas abissais entre os detentores dessas grandes glebas de terras e aqueles desafortunados que coube o nada a não a ser vassalagem criando com isso uma sociedade dividida em castas onde a casta de menor valia se submetia aos caprichos dos detentores dos meios de produção. Automaticamente a pressão sobre o meio natural foi enorme, mas a necessidade de ser manter a vida nesse meio hostil estava em primeiro lugar.


As atividades econômicas dessa época estavam ligadas estreitamente a criação de gado bovino com as grandes fazendas de criação modificando as paisagens primitivas de caatinga e os homens que nela viviam ao feitio desse meio rustico dentro de uma estrutura rígida onde reinava o patriarcalismo com uma relação social que possuía características distintas de outras regiões do Brasil. A secura das paragens do semiárido nordestino foi responsável por criar uma sociedade adaptada a esse meio rustico, homens afeitos a luta diária pela vida, endurecidos pela rudeza do meio social e natural.


O homem da caatinga é o resultado da mistura de raças que constituíram a nação brasileira, mais intrinsicamente a mistura da população de origem europeia e a população de origem nativa sendo essa mistura a formula para o surgimento de uma população de titãs que consolidaram a colonização do interior do nordeste do Brasil. Esse homem responsável pela penetração e conquista dessa região fazia parte de um sistema perverso baseado na exploração da mão de obra por uma elite agraria que disponha como queria da força de trabalho utilizando de maneira descarada seu poderio adquirido pelo acumulo de terras contra qualquer possibilidade de insurgência por parte dos explorados.


É nesse meio hostil que a figura do “Capitão Antônio Silvino”, surge como tempestade varrendo os sertões criando história, virando lenda, instalando o caos, trazendo o medo, fazendo justiça num frenesi quase ininterrupto de combates épicos, pilhagens, sangue, traições e reinados sem coroa e sem limites.


Prof. Julierme Wanderley, pesquisador focado na trajetória de Antônio Baptista de Morais - o Antônio Silvino


Julierme do Nascimento Wanderley é natural de campina Grande-PB, graduado em Licenciatura Plena em Geografia Pela Universidade Estadual da Paraíba e com Especialização em Educação Ambiental.

O professor Julieme é autor de textos para jornais e revistas. Entre eles, "Caatinga, homem e cultura", Diário da Borborema; ""Louzeiro de Campina Grande", Revista Conviver. Atualmente desenvolve pesquisa de campo e elaboração de narrativa sobre Manoel Baptista de Morais, o famoso cangaceiro Antônio Silvino.



Por Trás do Blog
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