Aventura histórica de Benjamim Abraão - testemunha ocular do cangaço nordestino

O sírio-libanês Benjamim Abraão passou para a história do cangaço como testemunha ocular da história, tanto pelo seu envolvimento nos fatos, como pela sua aproximação com líderes políticos, a exemplo do deputado Floro Bartolomeu, que se tornou seu desafeto, padre Cícero Romão, de quem foi secretário particular e de Virgulino Ferreira da Silva, Lampião, o lendário cangaceiro que depositou em Benjamim uma confiança inimaginável com o objetivo declarado de tornar-se mais famoso do que já era.


Imagem: Benjamim Abraão ao lado filho, em Juazeiro do Norte


Garimpando a trajetória do libanês, o leitor acaba descobrindo que Benjamim conheceu e tornou-se próximo de Lampião em 1926, quando Virgulino vai a Juazeiro do Norte para um encontro com o padre Cícero, organizado pelo deputado federal Floro Bartolomeu. Sabe-se que entre regabofes, reuniões e encontros reservados, Benjamim ciceroneou Lampião em encontros com comerciantes e ourives do Juazeiro; atribui-se ao próprio libanês na qualidade de secretário particular do padre Cícero, o engodo de conferir a Lampião a patente de capitão das Forças Patrióticas para o combate a Coluna Prestes.

Ao longo de sua trajetória no Juazeiro, Benjamim Abraão fez política a ponto de ter reuniões com o governador do estado, militares de alta patente, foi correspondente do jornal O Globo em 1927, e como os demais protagonistas de seu tempo, também era corrupto. Tirou proveito do momento político, lançou mão no óbolo dos fiéis, manipulou a fé dos romeiros fanáticos, a ponto de transformar a morte de padre Cícero em fonte de renda por um bom tempo.


Benjamim posa ao lado de maria Bonita e de Lampião, de quem se tornou íntimo e de confiança para filmar o bando


Ao se lançar à procura de Lampião com o declarado objetivo de fotografar e fazer um filme sobre o Reio do Cangaço, “o Turco”, como era conhecido, lançou mão das suas relações pessoais com coronéis coiteiros; ao longo de 18 meses (1936/37), viajando pelo sertão de Alagoas, Bahia, Paraíba, Pernambuco e Sergipe.


Sabia o que queria e fazia. Segundo anotações em sua caderneta de campo, esse foi o início de seu trajeto:


10 de maio – partiu de Fortaleza para a missão/ 12 de maio – está em Missão Velha / 13 de maio – Brejo Santo / 14 de maio – Jati / 15 de maio – Belmonte, e Fazenda Boqueirão, em Pernambuco / 16 a 21 de maio – Vila Bela, atual Serra Talhada / 22 e 23 de maio – Custódia e Rio Branco, atual Arcoverde / 24 de maio – Pedra de Buíque / dia 25 de maio – de Negras a Jaburu, quando deixa Pernambuco e chega a Alagoas / dia 26 de maio – de Caititu a Mata Grande / 27 de maio – de Manuel Gomes ao Capiá / 28 de maio – Olho d´Água do Chicão/ 3 de junho – Maravilha.


Qualquer jornalista, o mais ingênuo dos focas, sabe que o repórter depende de suas fontes; informações seguras, e as fontes do “Turco” eram confiáveis, basta deduzir do roteiro acima seguido. Benjamin radicou-se na vila do Pau Ferro, município de Águas Belas, em Pernambuco, tomando o lugar como sua base de operações.


Fotógrafo torna-se íntimo e de confiança de Lampião


No primeiro encontro, segundo o jornal O Povo, edição de 12/01/1937, “O Turco” permaneceu cinco dias no grupo de Lampião em confabulações. Além de comerem bem e beberem uísque e conhaque Macieira à vontade, o que conversavam?

Ninguém sabe, mas o fato é que entre os dois criou-se uma afinidade. Benjamim voltou em junho de 37 a encontrar Lampião, com quem passou mais três dias, em total cumplicidade, intimidade até que Benjamim começa a rodar seu filme, com cenas inacreditáveis do dia-a-dia do bando.


Em 28 de setembro de 37, os cangaceiros atacaram a cidade de Piranhas, em Alagoas, para libertar Inacinha, a mulher do cangaceiro Gato, que havia sido baleada e presa pela volante do tenente João Bezerra da Silva. Porém, ela estava presa na cadeia da Pedra de Delmiro Gouveia. O “Turco” estava em cima do lance e sobre o ocorrido, Benjamin assinalou em sua caderneta:


Atravessava o rio quando se travou o combate. Encontrava-me a uma distância de meia légua da cidade. Corri ansioso para lá. Era uma oportunidade que não devia deixar escapar. Infelizmente, cheguei tarde. Os bandidos já se retiravam. Bem junto a mim, em um sofá, ferido, passou Gato, chefe do grupo. Quando entrava na cidade, tomaram-me por bandido e, por um triz, não me bateram”.


Até outubro de 37, Benjamin fez diversas incursões a cada um dos chefes de subgrupos de Lampião. Produziu mais fotografias e, desassombrado, começou a dar publicidade sobre seu trabalho com requinte de detalhes, a ponto de revelar o gosto literário de Lampião que lia os livros do belga Georges Simenon (1903 – 1989) autor de 192 romances, 158 novelas, além dos romances policiais do jornalista inglês Edgard Wallace (1875 – 1932). O lado intelectual de Virgulino, digamos assim.


Benjamin Abrahão foi assassinado com 42 facadas, em Águas Belas, hoje Itaíba, no interior de Pernambuco, em 7 de maio de 1938. Pesquisadores sugerem “trama da polícia em conluio com coiteiros”, mas...


Cangaceiro Candeeiro, que no bando exercia a função de segurança pessoal do capitão Virgulino Ferreira, Lampião


Segundo o ex-cangaceiro Manuel Dantas Loiola, conhecido como Candeeiro, em 6 de maio de 38, véspera do assassinato de Benjamin, Lampião e seu bando estavam acampados perto do riacho do Mel, a menos de duas léguas do Pau Ferro, perto de Águas Belas, base de Benjamim.


Sobre o crime, há também um relato de que “O Turco” saiu do bar rumo à pensão onde se hospedava quando as ruas principais da cidade ficaram às escuras. Foi atacado, gritou por socorro e seu amigo Antônio Paranhos que foi ao seu encontro, mas foi detido pela voz de um desconhecido que o avisou:


- Arreda, cabra, que é encrenca.


A versão da polícia para o assassinato fora um crime passional, mas queima de arquivo é a mais plausível.


Fontes de consulta: Benjamin Abrahão – entre anjos e cangaceiros, de Frederico Pernambucano de Mello.

Site Cinema Cearense

Site História do Cinema Brasileiro

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