Banditismo rural: cangaceiros atuavam como braço armado de coronéis em PE

Julierme Wanderley


As primeiras décadas do século passado nas regiões rurais do nordeste brasileiro era um misto de atenção, apreensão, ansiedade e por fim terror que enchia as vidas de todos que viveram nessa época de ininterrupta sensação de insegurança que beirava a histeria, pois, o estado oficial não se apresentava deixando uma grande lacuna em áreas que faltava quase tudo desde educação ao alimento e nesse panorama a segurança pública era frágil quase que inexistente.


Ilustração: engenho de produção de açúcar, fonte de poder e riqueza dos coronéis


A falta da presença estatal transformava essas regiões em campo fértil para o banditismo representado pelo cangaço que se entrelaçava com os interesses nada altruístas de chefes políticos que na grande maioria representava as elites rurais desses lugares e que imponham as suas vontades sem medo algum da reação estatal, pois, os representantes desse estado ineficaz eram quase sem exceção, indicações desses senhores e, quando não eram indicados esses agentes que deveriam honradamente representar o estado se davam de maneira promiscua a corrupção que era largamente incentivada sem nenhuma preocupação relacionada ao pudor por essas elites que assim agindo mantinham seus privilégios em detrimento do bem-estar da imensa maioria da sociedade.


Em diversas ocasiões os cangaceiros serviram de braço armado em guerras particulares de coronéis favorecendo aqueles que davam suporte as práticas criminosas desses bandoleiros que consistia em fornecer armas, munição, dinheiro, alimento, proteção politica e como não poderia deixar de ser coito seguro contra as investidas das volantes policiais que se dedicavam ao combate a esses grupos criminosos que tiravam o sossego dessas áreas do interior do nordeste brasileiro.


Para que possamos compreender com mais exatidão como se processava a relação indigna para não dizer criminosa entre os grupos cangaceiros e os coronéis — farei o seguinte relato relacionado a um dos episódios mais violentos levados a cabo pelo grupo criminoso do capitão Antônio Silvino contra o antigo engenho Figueira que se localizava no município pernambucano de Orobó que na época do fato ocorrido pertencia ao município de Bom Jardim também localizado em terras pernambucanas e tinha como pano de fundo uma querela antiga entre duas figuras importantes dessa região que eram o coronel João Florentino da Cunha Azevedo também conhecido por coronel Joca proprietário do engenho atacado e o Senhor João Guilherme de Moura Coutinho dono do engenho Jundiaí também localizado em Orobó. Sigamos com o relato:


Ferocidade do "Rifle de Ouro"


O dia 17 de julho de 1912 tinha começado como qualquer outro dia no engenho Figueira de propriedade do coronel João Florentino da Cunha Azevedo os trabalhadores cuidavam dos seus afazeres e o coronel João Florentino como de habito envolto nas suas obrigações diárias e por volta das 09h 00min da manhã do referido dia com o astro-rei mostrando toda a sua força e de repente esse engenho é tomado de assalto por uma horda endiabrada de cangaceiros capitaneada pelo famigerado e celebre Antônio Silvino “o Rifle de Ouro”, que se mostrou na sua forma mais feroz agindo com uma truculência desmedida dando formas dantescas a ação criminosa que se perpetrava.


O coronel Joca tenta se defender dessa ação hedionda, mas, não consegue sendo alvejado à queima-roupa por um tiro de arma de fogo desferido pelo próprio Silvino que o atinge no antebraço esquerdo lhe tirando assim qualquer possibilidade de resistir e, assim segue o cortejo de horrores praticados pelos facínoras que adentram em outro compartimento da residência onde encontram a senhora Maria de Oliveira Azevedo esposa do proprietário do engenho que é espancada com requintes de extrema crueldade, onde os malfeitores utilizaram, na prática, do ator brutal uma corrente que servia para armar redes provocando os mais variados hematomas que ficaram espalhados por todo o corpo da pobre mulher.


Saque e depredação


Depois desse ato vergonhoso praticado contra uma mulher indefesa o grupo de celerados se dirige ao escritório comercial do coronel Joca onde se guardava documentos diversos e quantias em dinheiro proveniente de negócios do referido coronel esse local foi revirado milimetricamente como se estivessem procurando agulha no palheiro, mas o que eles procuravam, na verdade, eram documentos referentes assuntos criminais dirigidos ao Senhor João Guilherme de Moura Coutinho que além de grande desafeto do proprietário do engenho Figueira era o maior coiteiro do cangaceiro Antônio Silvino na região de influência do município de Bom Jardim.


Cangaceiro Antônio Silvino: saques, depredação e terror contra seus inimigos


Finalmente eles encontram o que queriam e de quebra para não perder a viagem levam todo o dinheiro que estava guardado nesse dito escritório que de pronto foi abandonado pela malta diabólica de bandidos que não satisfeitos voltam para a casa grande do engenho quebrando moveis e utensílios usados no dia a dia nos afazeres da casa que posteriormente se toca fogo provocando um grande incêndio com se fosse um grande ritual para comemorar o êxito da ação maligna de destruição e terror.


A coisa não parou aí eles se voltam contra os armazéns dessa propriedade que estavam repletos de fardos de algodão e ateiam fogo sem dó e nem piedade em mais de mil fardos desse produto e com esse último ato de selvageria seguiram segundo relato do coronel Joca o caminho denominado de Olhos d’água levando com eles um cangaceiro que tinha sido baleado na peleja e que se soube depois que tinha vindo a óbito num lugar chamado de Mata Verde.


O rastro de destruição e prejuízos foi de uma magnitude inacreditável segundo levantamentos feitos pelo coronel João Florentino da Cunha Azevedo chegando à astronômica cifra de 160 contos de réis demonstrando com isso como foi extremante violenta a ação do grupo de asseclas comandados por Antônio Silvino que contava com vinte seis cangaceiros fora o próprio Silvino dentro do engenho Figueira.


Com esses atos de barbárie prova-se que a relação entre cangaço e coronelismo fora uma das composições mais nocivas para não disser diabólicas já constituídas que obrigavam as zonas rurais do nordeste brasileiro a padecer com um reino de terror, violência e falta de compaixão que não admitia espaços para tergiversar e que simplesmente riscava do mapa qualquer questão que fosse considerada um empecilho e era assim que as coisas funcionavam nesses sertões sem lei e sem Deus.