Batismo de fogo de Zé Saturnino como cabecilha de volante ao lado do ten. Mané Fumaça

Por João Costa


Ser o inimigo figadal de Virgulino Ferreira da Silva, antes mesmo deste se tornar Lampião, trouxe algumas vantagens para José Saturnino, como também desassossego, arrastado que fora para o conflito por conta das desavenças intermináveis dos irmãos Ferreira com a família Nogueira.


Volante do tenente Manoel Neto(D), os implacáveis nazarenos, inimigos de Lampião


- Quem arrastou isso pra riba de mim foram os Nogueira, essa briga deles findou por cair no meu colo por ter casado na família... Até casar com a filha de João Nogueira, eu não tinha encrenca com Virgulino: nascemos e fomos criamos juntos, Mãe Xanda, minha, mãe, era madrinha dele”, foi a explicação dada por Zé Saturnino muitos anos depois sobre a tão famosa inimizade.


Em dado momento a perseguição a Lampião e seu bando, por parte das volantes dos nazarenos recrudesceu exatamente por causa de novos conflitos, desta feita entre os irmãos Ferreira a várias famílias de Nazaré do Pico, distrito de Floresta(PE).

Simultaneamente, Lampião não dá sossego aos seus inimigos do lado da Serra Vermelha, tocando fogo e abatendo animais dos Nogueira e, por tabela, também de Saturnino que, para se proteger, resolve “sentar praça” na polícia.


Saturnino ingressou na polícia pernambucana como 2º Sargento, pulando assim várias etapas que um sertanejo teria que passar ao ingressar na Polícia e com pretensão de fazer carreira militar.


E Lampião, acossado pelas volantes pernambucanas, organiza retirada para Paraíba.


“Nesta nova jornada, mata e esquarteja o Sr. Chiquinho do Triângulo”, narra João Gomes; crime que gerou muita revolta até em famílias amigas dos Ferreira.


Mas antes de seguir para o Saco dos Caçulas, região de Princesa Isabel(PB), ocorreu um tremendo confronto na Fazenda Favela.

Nesse período José Saturnino residia na Barra do Exu; apreensivo, deixa em segredo a região de Exu e segue para Vila-Bela, onde se apresentou diretamente ao Major Teófanes Ferraz Torres.

- “A quem, minuciosamente, explicou tudo o que ocorria entre ele e os irmãos Ferreira”, informa João Gomes que acrescenta em suas memórias:


Zé Saturnino já na velhice, primeiro inimigo de Virgulino Ferreira o Lampião


“Com satisfação o Major Teófanes o convidou para ingressar na Polícia, no posto de 2º Sargento. Saturnino aceitou a oferta, muito embora fosse para brigar com Lampião”. Incorporado à polícia, em Vila-Bela, passa a receber treinamento de guerra.

Convocados para uma reunião com superiores no Recife, o Major Teófanes e o Ten. Higino deixam Vila-Bela e Saturnino, como o mais graduado, assume o comando da Força Volante do lugar.


Entre ordens expressas para não abandonar a cidade e oportunidade para perseguir Lampião se este reaparecesse nas imediações


Saturnino foi alertado da presença de Virgulino e seu bando na região; opta por perseguir o bando, deixando Vila-Bela à frente de sua volante tendo como imediato Manoel Neto, na época incorporado à tropa como Anspeçada.


-“Nesta jornada, em meio do caminho, desertaram dezesseis soldados”, conta o ex-volante.


Desconfiaram que a parada ia ser dura. Não demorou para a volante de Saturnino e Manoel Neto ter batismo de fogo na Fazenda Favela. A volante foi dividida em duas: Saturnino lidera um grupo que vasculha a mata e Manoel Neto bate de porta em porta à procura de Lampião.


O famoso “Mané Fumaça” (apelido dado por Lampião a Manoel Neto), não acha Virgulino, mas se depara com Antônio Ferreira numa dessas casas.


A blitz é generalizada, com Mané Neto batendo de porta em porta com o coice do mosquetão.

- “Quem está batendo aí fora? É o Anspeçada Manoel Neto quem está falando”? Aqui é Antônio Ferreira.

De mosquetão engatilhado, respondeu Manoel Neto.


- “Abra a porta, Antônio Ferreira, para brigar!”


Abriu-se a porta de cima, deixando a debaixo fechada. (casas do Sertão têm portas assim) E por portas e janelas, os cangaceiros deram uma grande descarga de tiros.


“Caíram no terreiro, mortos e feridos, vários soldados”, foi o relato da polícia após o combate.


Manoel Neto que estava rente à parede da casa e próximo à porta, deu descarga no seu mosquetão para o interior da residência.


- Saia, seu filho de uma égua! Gritou Mané Fumaça.


No tiroteio que se estabeleceu, os cangaceiros começaram a clamar por todos os santos.


-“Valei-me minha Nossa Senhora!” “Vala-me meu Padim Ciço do Juazeiro!”


O pavor tomara conta dos cangaceiros, mas Antônio Ferreira buscava reanimar e reagia gritando.


- “Briga, Briga cabra!” “Não esmorece, cabra!” “Fogo nos macacos, fogo!


Na fazendo Favela, neste dia, vomitavam projetis de aço cerca de duzentas armas; o mundo estremecia num inferno de fogo e balas; a fumaça fazia nuvens no ar.


Os cangaceiros vendo o mundo transformado em fumaça, gritavam:


- “Eita Mané Fumaça da peste! Você hoje veio com o Diabo no couro!”


Cangaceiro Antônio Ferreira, irmão mais velho de Virgulino Ferreira Lampião


Mas a sorte está do lado de Antônio Ferreira pois Virgulino e mais alguns cangaceiros aparecem sem seu socorro.


Manoel Neto, ainda encostado a parede, passou a receber descarga de tiros vindos de outra residência onde Lampião e alguns cabras estavam entrincheirados.


- É pra matar e quem sobrar vai ser sangrado, bando de macacos! Gritava Lampião, ao perceber que vários soldados já tombavam à sua frente.


“Via, assim, o bravo Anspeçada Mané Fumaça, de instante a instante, tombarem mortos e feridos no terreiro, seus subordinados”, lamentou João Gomes tempos depois.


Mas onde se metera Saturnino?


Vasculhava a mata da fazenda Favela, momento em que simplesmente se deparou com Sabino Gomes e seu grupo que já de armas engatilhadas abrem fogo, fazendo Zé Saturnino e alguns soldados se escafederem por dentro dos matos.


- Corra não, Saturnino!


Teria sido este o batismo de fogo de Zé Saturnino na condição de sargento chefe de volante.


*Anspeçada – posto militar acima de soldado e subordinado ao cabo


Fonte: Lampião, Memórias de um Soldado de Volante, Volume 2, de João Gomes de Lira.


Apagando Lampião – Vida e Morte do Reio do Cangaço, de Frederico Pernambucano de Mello.

E narrativas de Folheto de cordel anônimo Fogo no Pajeú.


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