Caatinga: durante décadas, Bioma serviu de palco para guerra entre volantes e cangaceiros

Julierme Wanderley


A caatinga brasileira se configura como um dos ambientes naturais mais inóspitos do mundo possuindo características únicas que transforma esse meio natural numa grande variedade de espécimes vegetais e animais. Outra característica que marca esse meio natural é a sua grande capacidade de se transmutar de uma estação climática para outra como um passe de mágica que transforma uma paisagem tórrida dos períodos de estiagem em um panorama exuberante onde o predomínio do verde se faz sentir de maneira sufocante.



A caatinga é considerada o grande bioma da região nordeste abrangendo praticamente todo interior dos estados dessa área geográfica como também partes de Minas Gerais. O clima dessas áreas de caatinga caracteriza-se pelo regime irregular das chuvas registrando baixos índices pluviométricos durante o ano, influenciando esteticamente sua vegetação.


A caatinga influenciou e influência a cultura da população que vive nela dando traços marcantes de rusticidade à mesma, as regiões de seu predomínio começou a ser ocupadas durante os séculos XVII e XVIII, tendo como mola mestra a criação de gado bovino, como também a agricultura de subsistência.


A paisagem das regiões semiáridas do nordeste brasileiro rejuvenesce com os primeiros pingos de chuva que prenunciam as invernadas de maio a junho, e, são essas chuvas que fazem da caatinga um imenso jardim com seu cortejo de vegetais floridos, a ponto de servir como inspiração ao poeta popular surgindo, figuras míticas e místicas que povoam o imaginário da população humilde do semiárido nordestino e ao contrário do inverno, a seca transmuta para uma paisagem cheia de melancolia, destruição e morte, mas, mesmo assim serve de tema ao trovador quando ele canta;


No meu Cariri// Quando a chuva não vem// Não fica lá ninguém// Somente Deus ajuda// Se não vier do céu// Chuva que nos acuda// Macambira morre// Xique-xique seca// Juriti se muda// Se meu Deus der um jeito// De chover todo ano// Se acaba o desengano// O meu viver lá é certo// No meu Cariri// Pode ser vê de perto// Tanta boniteza// Pois, a natureza// É um paraíso aberto.

(Cavalcanti-Melo).


Como se ver na canção acima, o meio natural das regiões de caatinga, mais uma vez instiga o poeta popular a fazer versos que mostram as dificuldades de sobrevivência dos habitantes dessas áreas, mas, ao mesmo tempo, usando como anteparo simbólico, os elementos vegetais desse bioma representado pela macambira o xique-xique, e pela juriti, surge assim, um cenário de fartura causada pela chuva que transforma esses espaços como enunciam os últimos versos dessa poesia, em verdadeiro paraíso onde homem do Cariri se deleita com tanta formosura.


A caatinga torna-se um modelador natural da sociedade, do interior nordestino, transformando-a ao feitio desse frágil e, ao mesmo tempo, rústico bioma. Essa sociedade caracteriza-se por sua simplicidade e timidez, mas, ao mesmo tempo, por sua robustez inigualável, com condições extremas de se adaptar às circunstâncias mais adversas que só se explica pela influência que esse mesmo povo sofre do bioma de caatinga.


Julierme Wanderley é professor de Geografia e pesquisador da História do Cangaço.

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