Cangaço 1922: Lampião assume o comando; seu rival Baliza morre alvejado por "fogo amigo"

João Costa

Na guerra, o comandar de homens pode demanda de hierarquia, mas o que conta mesmo, é a capacidade de dar combate, liderar e, acima de tudo, raciocinar. Foi o que aconteceu em 1921 na disputa entre Virgulino Ferreira e Baliza pelo comando do Bando de cangaceiros sob a liderança de Sinhô Pereira, às vésperas de deixar o ofício das armas, aconselhado pelo padre Cícero Romão e seguir o rastro do primo, Luiz Padre, que arribara para o estado de Goiás.


Imagem: bando em 1922; sentados: Lampião é o 2o e Baliza seu rival, o último sentado (D)


Sinhô Pereira reúne o bando na fazenda Preá em Serrinha, atual Salgueiro(PE), para comunicar seu desligamento do cangaço mas, antes, precisa deixar a questão do comando resolvida. Durante seis anos seguidos o cangaceiro Baliza atuara como o segundo em comando no bando de Sinhô e, naturalmente, seria o sucessor. Não foi o que aconteceu.


Com apenas 27 anos, mas calejado pelas disputas familiares e pelas recorrentes atividades de saques e combates, Sinhô Pereira não escondia sua surpresa com Virgulino Ferreira, outro jovem cangaceiro de 24 anos, frio, de fala mansa e cordato e meticuloso no planejamento das ações. Ao mesmo tempo promovia intimamente uma avaliação dos homens em armas ao seu dispor.


Em seu livro “Apagando Lampião”, o pesquisador Frederico Pernambucano de Melo reproduziu o “dilema” de Sinhô Pereira ao avaliar “psicologicamente” seus comandados, a começar pelos irmãos Ferreira, Antônio, Virgulino e Levino.


Sinhô Pereira deixou o cangaço em 1922 a pedido do Padre Cícero; escapou para Goiás e, depois Minas Gerais


- Virgulino se comportava como um homem “cordato”; Antônio Ferreira vivia o tempo todo de “cara-amarrada sem dar confiança a ninguém” e Levino: ‘muito grosseiro, bruto, um verdadeiro selvagem”. Mas o que deixara mesmo Sinhô Pereira, inclinado a escolher Virgulino como seus sucessor?


- O planejamento, ações secretas em Leopoldina na coleta de informações e o saque espetacular do tesouro da baronesa de Água Branca, costumava comentar Sinhô Pereira em conversas reservadas com sua própria família, sem revelar seu motivo real para escolher Virgulino, que confessou depois ao amigo e confidente Né da Carnaúba.


- Eu não escolhi Lampião como meu substituto só por sua coragem, inteligência e liderança, não... O que realmente pesou na escolha foi que Lampião e os irmãos são inimigos dos nossos inimigos. Eu vou embora, mas os Piranhas não vão ter motivo para ficar rindo de mim, pois vão continuar sem ter sossego, e se pensarem em vir pra cima da minha família, vão ter quem os enfrente”.


Teria sido este o acordo reservado entre Virgulino e o seu chefe, o que explica as ações imediatas de Lampião, em resolver vinditas pendentes da família Pereira, partindo logo em seguida para S. José de Belmonte para acertar contas com desafetos de Ioiô Maroto, parente de Sinhô Pereira.


E o jovem cangaceiro Virgulino Ferreira mudou o modus operandi do bando: antes dos assaltos e saques, promovia associação nos “negócios” levantando dinheiro com coiteiros para cuidar da logística do bando com munição, armamento e mantimentos. Foi esta capacidade de organizar o fator determinante para Virgulino suceder Sinhô Pereira no comando, que tomou a seguinte forma na primeira composição:


Os irmãos Antônio e Levino, Antônio Rosa, conhecido como Toinho do Gelo, Joaquim, o Coqueiro; Plínio, Bem-Te-Vi, Patrício, Raimundo Agostinho: João de Genoveva, Pedrão; Zé Dedé o Baliza; João e Antônio Mariano; José Melão e Laurindo.


Um relato atribuído ao cangaceiro Miguel Feitosa, o Medalha; o calejado cangaceiro Baliza não digeriu bem a nova situação: sendo o cangaceiro mais velho, ser comandado por Virgulino, de 24 anos. E para assinalar a nova chefia do bando deixado por Sinhô Pereira, teve até festa de posse: setembro de 1922.


Lampião(E) e seu irmão Antônio Ferreira, em Juazeiro do Norte atendendo chamado do Pe. Cícero


O local escolhido para festa fora a fazenda Pedra com as presenças do prefeito de Triunfo(PE) e do juiz de Princesa Isabel(PB).


E qual foi o desfecho de Zé Dedé, o Baliza? Tombou no ataque à casa do Senhor Luiz Gonzaga Lopes Ferraz, em S. José do Belmonte, 1922, um mês após Virgulino ser ungido chefe do bando.


Uma versão dá conta que Baliza morreu em decorrência de “fogo amigo”, um tiro nas costas à queima-roupa disparado por outro cangaceiro, Antônio Rosa. Há uma outra versão que relata a morte de Baliza por esquartejamento no centro de S. J. do Belmonte. O fato é que Virgulino livrou-se do rival, pavimentando sua trajetória até tornar-se “Rei do Cangaço”, título dado pelo libanês Benjamim Abraão muitos anos depois, em 1936 para o seu o filme sobre o Lampião, segundo matéria do Jornal Diário de Pernambuco.


João Costa. Blogdojoaocosta.com.br Acesse e @joaosousacosta (Instagram)


Fonte “Apagando Lampião”, de Frederico Pernambucano de Melo

“Lampião – a Raposa das Caatingas”, de João Bezerra Lima Irmão.

Imagens de domínio público Wikipédia

Por Trás do Blog
Leitura Recomendada
Procurar por Tags
Siga "PELO MUNDO"
  • Facebook Basic Black
  • Twitter Basic Black
  • Google+ Basic Black