Cangaço: moral conservadora do Sertão impedia sororidade entre as mulheres em luta

A relação de poder existente entre homem/mulher no cangaço é de dependência; a cangaceira era associada ao companheiro seja enquanto mulher, companheira ou amante. O que resume a ideia de pertencimento a alguém e todo universo moral da religião católica; do poder econômico de homens sobre mulheres. Fora ou dentro do cangaço, elas tinham que enfrentar a tirania da moral conservadora do seu tempo.


Imagem: Cristina(E) e Maria Bonita (1936)


O caso da sergipana Cristina, de Português é emblemático. A chegada à fazenda onde morava de um bando de homens jovens e bem armados, trajes exóticos e exibindo joias despertou a empatia nas moças do lugar. Ganhar o mundo, ser livre e correr riscos eram sonhos de muitas jovens, e Cristina pensava assim.


Ela mesma se ofereceu ao cangaceiro Português, chefe de bando, para segui-lo, tipo “amor à primeira vista”. Nos dias atuais, Cristina seria aceita e passaria por mulher liberada, tipo modelo de passarela: alta, magra, de sobrancelhas e olhos marcantes, cabelos pretos e bastante compridos.


Mas seu comportamento liberal não se enquadrava no padrão feminino da sua época. Seu espírito de mulher livre incomodava, tornou-se perigoso.


Além de Português, Cristina passou a se relacionar com o cangaceiro Gitirana, descrito como moreno escuro e poeta repentista.


O formidável escritor Antônio Amaury conta o desfecho desse triângulo amoroso:


Cristino - Corisco posa para foto ao lado dos cães que seguiam seu bando; Raso da Catarina(BA) 1936


Durante uma reunião dos bandos de Lampião e Corisco, em Alagoas, “Português cochichou algumas palavras ao ouvido do seu cabra de confiança chamado Catingueira e se afastou”. Este gesto despertou a atenção e desconfiança de Corisco e Dadá.


“Vai ter coisa”, disse Corisco para Dadá.


Cristino, o Diabo Loiro, conhecia o seu gado. O cangaceiro Catingueira era cabra de confiança de Português, pois a mando deste, eliminara à traição Marreca, um desafeto.


Rapidamente, ao perceber a artimanha, Corisco interveio.


- Que é isso boi do cu branco, quer matar meu rapaz? Você está pensando que vai fazer aqui o que fez com Marreca? Você não é homem para atirar num rapaz meu! Advertiu Corisco.


Se instalou um clima barra pesada entre os bandos. Todos de armas engatilhadas. Nesse momento então, Lampião, o capo de tutticapo que acompanhava a confusão de longe, resolveu intervir. Com os ânimos controlados, se instalou o tribunal de inquisição e de justiçamento.


A própria Maria Bonita, mulher do chefe maior, não teve uma atitude de sororidade para com Cristina, pois deu seu voto favorável à sua execução sumária. Mas Corisco se posicionou contra.


- Ela deu o que era dela, ninguém tem nada com isso, argumentou Corisco.


Maria Bonita então expressou sua posição, favorável a Português.


- É, mas desse jeito, Português vai ficar desmoralizado”, replicou Maria Bonita.

E Corisco foi para a tréplica.


- Ele que cuida da mulher dele; do meu rapaz cuido eu!


Agindo feito um magistrado, Lampião deu a sentença final


- Compadre Corisco está com a razão, Português que cuide de Cristina, que é a mulher dele e Corisco faz o que quiser com Gitirana, disse Virgulino para arrematar:


- Já está tudo se acabando na boca dos fuzis das volantes, e nós ainda vamos dar esse gosto a eles de se matar uns aos outros?


A solução encontrada foi devolver Cristina à família. Ela ganhou roupas novas confeccionadas por Dadá, que coseu dinheiro na barra da saia da moça e ela partiu a cavalo escoltada por um coiteiro de confiança.


Não demorou muito, o dito coiteiro retornou às pressas, sozinho, ao bando com um relato trágico.


- Capitão, foi uma desgraça! Na beira do caminho saltaram, de repente, Luiz Pedro, Juriti e o Cadeeiro, que nos obrigaram saltar dos cavalos. Cristina implorou, chorou, pediu por todos os santos, mas não teve jeito, disse o coiteiro.


Para a execução da cangaceira, os três carrascos alegaram que Cristina poderia ser capturada e delataria os pontos e coitos dos bandos. A moça que sonhava correr o mundo em liberdade, foi morta a facadas, a sangue frio.


Já uma certa Maria, do cangaceiro pancada Pancada, quase teve o mesmo destino de Cristina. Ela é mostrada de forma preconceituosa numa biografia curta e machista. É descrita como “fogosa” e por conta de suas múltiplas relações com outros cangaceiros, quase foi executada por Corisco. Em seu socorro acudiu Dadá e Maria recebeu como punição a expulsão do bando e devolvida para casa dos pais.


Tal qual Maria Fernandes, de Juriti, que também foi devolvida à família, durante o período das entregas, sob a alegação do cangaceiro de que não era mais virgem quando o acompanhou.


Essa Maria de Juriti durou apenas 3 meses no cangaço, esteve em Angico, e foi salva pelo próprio Juriti, que a arrastou pelos cabelos durante a chuva de balas, despejada na grota de Angico pelas volantes do aspirante Francisco Ferreira de Melo e de João Bezerra.


João Costa. Acesse: @ajoaosousacosta

Fotos: F1. Cristina e maria Bonita.F2 Corisco. (cor de LFCapellao) Acervo Benjamim Abraão. Abba Filmes

Fonte “Amantes e Guerreiras”, de Geraldo Maia

“Lampião, as mulheres e o cangaço”, de Antônio Amaury


Por Trás do Blog
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