Cantado em prosa e verso, cangaceiro implorou para ser morto: Sabino Gomes - a Lenda!

João Costa


“Lá vem Sabino mais Lampião/Chapéu quebrado, fuzil na mão!”


Dos cabras de Lampião, o cangaceiro Sabino Gomes, ou Sabino das Abóboras, ocupa um lugar épico em qualquer narrativa, a começar pelo verso ou pela prosa; suas origens, a chegada ou sua partida em qualquer lugar; os combates que travou e sua morte na Fazenda Piçarra mereceram relatos épicos, cuja dramaticidade encontra um lugar cativo na história.


Imagem: Sabino Gomes, um dos cangaceiros que liderou o ataque a Sousa


Em fevereiro de 1928, duas volantes pernambucanas percorriam o Ceará com o firme propósito de desbaratar uma rede de proteção a cangaceiros na região do Cariri. Dois chefes de volantes calejados em combates com Lampião: Arlindo Rocha, tivera o maxilar quebrado por um balaço, a ponto de ganhar os apelidos de “Queixo de Prata”, dado pela sua tropa; ou “Queixo Quebrado”, dado por Lampião.


E Manoel Neto, que tivera suas duas pernas quebradas, também em entreveros com os Irmãos Ferreira, e também recebera o apelido de “Mané Fumaça”. Para esses dois combatentes do cangaço, Coiteiro não merecia complacência, e o Cariri estava repleto deles, sendo Antônio da Piçarra o mais conhecido deles e declaradamente amigo de Lampião.


Lampião chegara à fazenda Piçarra com menos de 15 homens e pouquíssima munição. Depois de bem acomodado no coito, despachou Antônio da Piçarra para Juazeiro do Norte com o intuito de comprar e trazer munição. A missão fracassou. Ao voltar, Antônio da Piçarra encontrou em seus domínios as duas feras da Polícia liderando duas volantes, 60 homens bem municiados.

Capturado, interrogado e ameaçado de morte, não restou outra alternativa, a não ser colaborar com as volantes na preparação de uma emboscada, que fracassou, exatamente em função de Sabino Gomes, cangaceiro dos mais experientes, desconfiado e perspicaz. A noite caíra com trovões e relâmpagos, sacudindo a terra.


Enquanto as volantes armavam o cerco com indicações do coiteiro, este mesmo deixara o coito para voltar à casa da fazenda em busca de mais comida e de alguma munição, pois Antônio da Piçarra já havia relatado ao capitão Virgulino o fracasso de sua missão ao Juazeiro do Norte. O fornecedor havia dado o calote em Lampião: recebera o pagamento adiantado, mas não entregou a munição encomendada.


A adrenalina e a desconfiança de Sabino dispararam com a demora do coiteiro em retornar, passava da meia noite.

-“Compadre, vamos tomar cuidado... Antônio da Piçarra está sendo falso com nós. Se já não foi, está sendo. Está demorando muito pra voltar. Se os macacos pegam ele, ele acaba dando com a língua nos dentes”, advertiu Sabino.


Lampião defendeu o coiteiro:


- Você está doido, Sabino? Ele está demorando, mas deve ser por causa dessa chuva. Eu confio em Antônio da Piçarra; se ele cavar um buraco no chão e mandar entrar, eu entro”, respondeu Lampião.


Já era 27 de março, o temporal era assustador e passava da meia noite. Ainda assim, Sabino resolvera deixar o coito e ir até a sede da fazenda, ele mesmo, pegar a munição e alimentos – o homem que só andava acompanhado de seu filho de criação Luiz de Sabino, estava só. Ao deixar o coito, a poucos metros, precisou ultrapassar uma cerca de varas.



A tentar pulá-la, foi iluminado por um relâmpago. Os soldados estavam tão perto, espalhados se protegendo da chuva, que o sargento Hercílio Nogueira, ao ver o vulto, foi rápido no gatilho. Sabino gritou:


- Inimiiigo!


Estabeleceu-se um tremendo tiroteio por parte dos soldados das volantes. Sem munição, Lampião e seus cabras trataram de fugir mas, antes, Virgínio e Ezequiel, rastejando, conseguiram resgatar Sabino, que havia sido alvejado. O calvário de Sabino Gomes durou uma semana.


Virgulino Ferreira, Lampião, em retrato feito na juventude; o olho esquerdo já apresentava problema com glaucoma


Lampião fez o que pode para salvar Sabino, que estava em estado grave e a sua luta contra a morte durou uma semana pedindo, constantemente, que o acabassem de matar, mas Lampião não permitia. O mês de abril começa com Sabino desejando suicidar-se; chegou a pedir a Luis Pedro que lhe emprestasse o seu parabélum.


Queria ver aquela arma pela última vez. E foi o Luís Pedro fez: deu seu parabélum a Sabino, tomando a precaução de descarrega-la. Sabino Gomes não titubeou, levou o parabélum ao ouvido e puxou o gatilho, ouvindo-se apenas o estalo seco.

Moribundo, Sabino protestou.


- Por que você faz isso comigo?


- Nós estamos com você e não queremos que você morra, respondeu Luís Pedro.


- Mas eu estou quase morto e atrapalhando vocês, e se você é meu amigo, acabe com meu sofrimento, suplicou Sabino diretamente a Lampião.


- Não. Não faço isso, respondeu Lampião com firmeza, mas indagou aos demais cangaceiros.


- Algum de vocês tem coragem? E recebeu o silêncio de todos como resposta.


Nesse impasse, Mergulhão interveio.


- Compadre Sabino, estou aqui às suas ordens. Eu faço isso, mas faço com muita pena. Mas se o compadre quer...

Sabino Gomes começou assim sua orações e pediu que cobrissem os seus olhos com um pano e disse:


- Estou pronto!


Bando liderado por Corisco(E) e Dadá(D) em foto do libanês Benjamim Abraão, feita provavelmente no Raso da Catarina


De temperamento frio, Mergulhão encostou a pistola no ouvido do companheiro e apertou o gatilho. Após o estampido, seguiu-se o silêncio sepulcral dos demais cangaceiros.


Assim morreu Sabino Gomes de Melo, também conhecido como Sabino Gore, ou Góis, ou Sabino das Abóboras, filho de uma sertaneja cozinheira de fazenda, àquele que se destacou no ataque a Sousa(PB), e também no fracasso de Mossoró; o cangaceiro que abrigou Lampião quando este foi ferido no pé; acompanhava o Capitão desde 1924; e que, a cada combate, tornara-se homem de confiança e compadre de Capitão, mas também agia com autonomia, liderando seu próprio grupo, dentro dos limites do Cariri.

Fonte: “Lampião – A Raposa da Caatinga”, de José Bezerra Lima Irmão.

Cariri Cangaço

Imagens: Sabino, foto editada do "Diário do Sertão"

Foto de Lampião. Cariri Cangaço

Corisco, foto de Benjamim Abrão, Acervo da Abba Filmes


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