Cercado, ferido e esfomeado, Lampião pensou em se entregar à volante; acabou salvo por um menino

João Costa


No cariri cearense, na fazenda Queimadas, em Milagres, em conflito com o padre José Furtado de Lacerda, o irmão de Lampião, Antônio Ferreira, é baleado no braço. Logo depois se registra combates no Pajeú, e em Conceição do Piancó, na Paraíba. Na fazenda Tabuleiro, de Neco Alves, Virgulino é alvejado por dois tiros transfixiantes, acima do peito e na virilha, atingindo um dos testículos, obrigando-o a tratamento médico.


Imagem: Antônio Ferreira, irmão de Lampião, não usava chapéu nem roupas de cangaceiro


Em março de 1924, Lampião é ferido, de novo, no dorso do pé direito. Com a bala saindo pelo calcanhar e esfarelando parte do calcâneo, durante tiroteio com a força pernambucana comandada pelo Major Teófanes, em que morre o famoso cangaceiro paraibano Cícero Costa. Feridos, os irmãos Ferreira se desligam do bando, tomando rumo ignorado; assumem o comando os cangaceiros Antônio Rosa e Azulão.


Convalescendo e sem mantimentos, Lampião e Antônio Ferreira somem dentro das caatingas, ao tempo que as volantes vasculham moita por moita.


O ex-soldado de volante e escritor João Gomes de Lira, narra que a volante esteve tão perto dos irmãos feridos que Lampião chegou a ouvir a voz do soldado Odilon Flor em conversa com outros solados da volante e, pela primeira vez na vida, Lampião teria vacilado, apelando ao irmão Antônio para que se entregassem, pois estavam feridos e à beira da morte.


Antônio Ferreira discordou.


- De jeito nenhum. E se fizer esse movimento, de se entregar, dou-lhe um tiro na cabeça, teria dito o irmão mais velho de Lampião.


Porque ele, Antônio, morreria e não se entregaria aos “macacos” do major Teófanes. Cessaram as buscas. A volante prosseguiu, e os Irmãos Ferreira, mesmo feridos, resolvem se separar para dificultar ainda mais o trabalho das volantes.

Apartados, Antônio teria seguido rumo a São José do Belmonte, para Serra do Catolé, local da Pedra do Reino, onde se tratou dos ferimentos; Lampião ficou à deriva. O ferimento no pé agravara-se, a ponto de criar “bicho”, relata João Gomes de Lira.


Virgulino Ferreira, em foto para documentos em que assinava sobrenome Lopes; em referência e homenagem a um tio


Por sorte, Lampião foi encontrado por um menino, que corre até seus pais avisando ter um homem ferido perto da casa onde moravam.


- “Lampião tinha pé completamente podre, estava exausto e esfomeado, com a boca cerrada”. De tão fraco, bebeu leite com uma colher dado por esta família, que o socorreu e salvou.


Reza a lenda, que ao ser socorrido pelo tal menino e tratado, Lampião murmurava uma oração.


“Minha pedra cristalina que no mar foste achada entre o cálice e a hóstia consagrada/ treme a terra mas não treme Nosso Senhor Jesus Cristo no altar/ assim como treme os corações dos meus inimigos quando olharem para mim/ eu te benzo em cruz e não tu a mim/ entre o Sol e a Lua e as estrelas as três pessoas distintas da Santíssima Trindade/ meu Deus na Travessia avistei meus inimigos/, meu Deus que faço com eles?: Com o manto da Virgem Maria sou coberto/ e com o sangue do meu Senhor Jesus Cristo sou valido/ tens vontade de atirar porém não atira/ se, em mim atirar, água pelo cano da espingarda correrá/ se tiver vontade de me furar a faca da mão cairá/ se me amarrar os nós desatarão/ se me trancar as portas se abrirão. Oferecimento: Salvo fui, salvo sou e salvo serei com a chave do sacrário eu me fecho. Glória a parte eu ofereço as 5 chagas do Nosso Senhor Jesus Cristo”.


Como por um milagre, não tardou muito e Livino, também irmão de Lampião que estava do outro lado da divisa, realizando ataques em fazendas e a Sousa na Paraíba, ao saber do estado do irmão, retorna ao Pajeú, localiza Lampião, e o leva para tratamento no povoado Patos de Princesa(PB), onde o Rei do Cangaço recebe proteção e apoio de chefes políticos.


Estátua no Sítio Passagem das Pedras, Serra Talhada, casa de dona Jacosa, avó de Lampião e lugar onde nasceu


Lampião recebeu tratamento do curandeiro Alexandre Tavares. Mas logo depois é atendido pelo Dr. José Cordeiro e sob a proteção do coiteiro Marcolino Diniz, Lampião se restabelece, recebe armas e munição novas além da adesão de jagunços que ingressam em seu bando.


O próprio Lampião narrou anos depois, toda essa agonia que passou ao comerciante de Betânia, senhor José Veríssimo de Morais (Zuza Gordo), que relatou:


- Ao contar tudo que passou; o aperto que passou da volantes nazarenas, o ferimento e sua recuperação na Paraíba, Lampião demonstrava verdadeira emoção, cortando até a fala”, disse Zuza.


Lampião ainda comentou com Zuza.


- Enquanto vida eu tiver, não esquecerei o que passei e o que sofri, e o quanto devo ao Dr. Marcolino, em Patos de Princesa”.


Fonte: “Lampião – Memórias de um Soldado de Volante” – Volume I, de João Gomes de Lira

“Apagando Lampião” , de Frederico pernambucano de Melo

Imagens retiradas de arquivos históricos e de domínio público

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