"Civilização do Couro" como força de desbravamento e cultura dos sertões acatingados

Julierme Wanderley


Nos sertões acatingados do nordeste brasileiro surge como descreveu sabiamente “Capistrano de Abreu” a “Civilização do Couro”, uma sociedade voltada para a lida com a criação extensiva de gado bovino e, é nesse contexto que vai aparecer à figura do vaqueiro elemento de grande importância para o desenvolvimento da pecuária bovina nas regiões semiáridas do interior do Nordeste.



Nesse instante histórico homem e natureza começa uma relação onde à interação com meio hostil dessa área espinhenta se torna urgente e necessária, e o vaqueiro torna-se símbolo de resistência que luta em um campo de guerra difícil e extremamente implacável onde a procura de uma melhor maneira de sobreviver, é conhecer as minúcias desse ecossistema que se transforma em uma vantagem na corrida pela sobrevivência.


Foi importante conhecer a grande variedade de plantas e animais desse prodigioso porem áspero meio natural e, esse conhecimento que foi adquirido dos povos nativos que habitavam há séculos esses lugares ajudaram de forma marcante a manutenção dos colonos nessa terra difícil, e a prática diária desses guerreiros encourados deram a condição mínima para que se desenvolvesse a criação do gado vacum, pois, o conhecimento sobre o meio natural da caatinga era essencial, sobretudo nos períodos de estiagem que duravam meses com o sol escaldante ditando as regras que muitas das vezes levava a um desalento tão profundo que enchia as almas daqueles que tinham esse meio acatingado como sua morada de angústias e desesperanças, mas, a fé como já foi dito era a mola propulsora dessa gente lutadora que enfrentava todas as intempéries com uma saudação enraizada na alma sertaneja nordestina de:


- Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo!


Para sempre seja Deus louvado!


Na verdade, a importância do vaqueiro era tremenda, pois, não existiria a mínima possibilidade de êxito da criação de gado em regiões como essas dominadas pela caatinga que se configura num ecossistema complexo onde a irregularidade das chuvas é uma constante gerando com isso toda uma sequência de dificuldades que não facilitava em nada a manutenção dessa atividade econômica em área não era afeita a amadores e, para isso contou com o trabalho incansável de homens que se prestavam a lida com as criações e com o meio geográfico marcado por adversidades das mais variadas.



Pois, diferentemente das condições de outras regiões do Brasil que tiveram sua ocupação atrelada à criação de gado bovino e podemos citar como exemplo as áreas do pampa gaúcho que tiveram bem menos problemas, pois, os fatores climáticos onde a regularidade das chuvas era e, é bem maior do que nas regiões do semiárido do nordeste brasileiro viabilizava essa atividade sem maiores atropelos e, por conta disso os vaqueiros do nordeste brasileiro eram reverenciados e seus feitos decantados por poetas populares que os comparavam a verdadeiros cavaleiros andantes onde sua armadura era sua vestimenta de couro e seu melhor amigo era seu cavalo e seus inimigos os espinhos das catanduvas sinistras e a seca implacável que era a mãe da morte e da desilusão.


*Julierme Wanderley é professor de Geografia e pesquisador do cangaço.

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