Clementino Quelé: A bravura de um sertanejo que foi cangaceiro e também volante no interior da PB

João Costa

Por volta de 1920, o grupo de cangaceiros dos irmãos Ferreira abre protagonismo nas guerras intestinas entre coronéis que dominavam a política e o controle da terras nas regiões do Pajeú pernambucano e Cariri cearense, e nestas regiões, sob o comando do Sinhô Pereira, Virgulino Ferreira – Lampião se destaca e firma seu nome no cangaço.


No cariri cearense, na fazenda Queimadas, em Milagres, em conflito com o padre José Furtado de Lacerda, o irmão de Lampião, Antônio Ferreira, é baleado no braço. Logo depois se registra combates no Pajeú, e em Conceição do Piancó, na Paraíba. Na fazenda Tabuleiro, de Neco Alves, Virgulino é alvejado por dois tiros transfixiantes, acima do peito e na virilha, atingindo um dos testículos, obrigando-o a tratamento médico.


Imagem: Volante engajada no combate a Lampião na divisa entre Pernambuco e Paraíba


Enquanto se recupera, o bando de Lampião, segue em ação sob o comando dos irmãos. Janeiro de 1924 entra com Lampião de volta ao comando e lançando seu bando contra um ex-aliado, com quem havia rompido: Clementino José Furtado, o Clementino Quelé. Um guerreiro da mesma estirpe de Lampião.


Clementino Quelé trava contra Lampião dois combates intercalados no espaço de cinco dias, com quase seis horas de duração, e que sai em desvantagem: Perde em combate um irmão, um genro e um compadre e muitos feridos na família, além de 3 casas incendiadas por Lampião.


Em março de 1924, Lampião é ferido no dorso do pé direito. Com a bala saindo pelo calcanhar esfarelando parte do calcâneo. Após curado a base de creolina, Lampião passaria a usar palmilha ao calçar as alpercatas. De novo, nesse entrevero, Antônio Ferreira foi baleado.


Lampião em Juazeiro do Norte, 1926, após receber armas e patente de capitão das Forças Patrióticas


Clementino Quelé esteve engajado em todos esses combates, que o cancioneiro popular imortalizou nos versos.

“Lampião diz que é valente/É mentira: é corredor/Está andando de muleta/ Seu Quelé foi quem botou”.


Clementino é descrito como um homem forte, de tez acentuadamente branca, que realmente ficava com a pele vermelha quando tinha raiva e esta teria sido a razão de Lampião apelidá-lo pejorativamente como “Tamanduá Vermelho”.


Ao tempo em que foi “comissionado” da polícia, Clementino prendeu ladrões de gado e arranjou inimigos, inclusive coronéis da política. Resultado: a acabou sendo perseguido pela polícia, fazendo-o aproximar-se de Lampião

Clementino Quelé entrou e saiu do bando de Lampião por desavenças com o cangaceiro Meia Noite. Há relatos que os dois saíram no braço. Tendo Lampião apartado a briga, e tomado partido ao lado de Meia Noite.


Meia Noite era negro; Quelé teve uma reação racista, muito comum nos sertões nordestinos.


- Lampião teria dado mais valor a um negro do que a ele”.


Sentindo-se rebaixado, Quelé abandonou o grupo e ficou marcado como inimigo por Virgulino.


Tempos depois desta desavença entre Meia Noite e Quelé, o capitão Virgulino, apoiado pelo fazendeiro Marcolino Diniz, filho do coronel Marçal, vai para Santa Cruz da Baixa Verde com o objetivo de matar Clementino e toda família. Este encontro ocorreu no dia 5 de janeiro de 1924, um sábado.


No cerco à casa do ex-amigo, Lampião bradava:


“- Da família de Quelé, hoje só se salva quem avoa”.E hoje eu vou beber o sangue de todo mundo! Derrubem e queimem tudo”, era a voz de comando de Lampião

.

- “Se derrubar e entrar um, nóis mata na faca”, respondia Quelé dentro de casa, onde estava bem municiado. De forma destemida, Clementino xingava Lampião e cantava ao mesmo tempo.

Clementino Quelé, associou-se a Lampião; depois virou sargento líder de volante para combater o Rei do Cangaço


Durante tiroteio de mais de cinco horas, Clementino encorajava seus companheiros de armas cantando, a ponto de mandar tocar harmônica em volta dos parentes e companheiros mortos dentro de casa.

Lampião suspendeu o cerco e retirou-se mediante a chegada de outra volante em socorro de Clementino Quelé.

Além destes seis parentes mortos em combate, mais cinco amigos do valente Quelé pagaram com a vida e inúmeros outras pessoas ligadas a ele ficaram feridas.


Na Paraíba, região de Princesa, Clementino Quelé é reverenciado em prosa e verso por sua bravura. O sertanejo que fora cangaceiro e polícia. Àquele que impôs a Lampião os maiores apertos.


Mesmo com toda coragem e capacidade para caçar cangaceiros, Quelé era sargento PM e analfabeto, o que fez ele permanecer nas fileiras da polícia da Paraíba apenas com a graduação de sargento.


Quelé morreu já idoso na Paraíba, na cidade de Prata, próximo ao município de Monteiro.


Imagens de domínio público. Lampião, foto trabalhada por Rubens Antônio

acervo Tok de História


Fonte: “Lampião, Memórias de um Soldado de Volante”, Vol. I. De João Gomes de Lira.


Artigo de Rostando Medeiros, em Tok de História


“Apagando Lampião”, de Frederico Pernambucano de Melo

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