Coalização de cangaceiros em associação para prática de crimes com logística dos coronéis

Por João Costa


A formação de coalização de bandos de cangaceiros para a prática de crimes, especificamente razias, é uma das nuances mais curiosas do cangaço, notadamente de Virgulino Ferreira da Silva Lampião que, em duas décadas ininterruptas, singrando divisas de sete estados do Nordeste, comandou centenas de homens em armas, todos focados no crime.



Nos dias atuais o artigo 288 do Código Penal define a formação de quadrilha como “associarem-se mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim de cometer crimes”, imaginem uma associação de dezenas de foras da lei para a concretização de um crime.


Foi o que ocorreu em 1927, quando com financiamento e logística bancados pelo coronel Isaías Arruda, do Cariri cearense, formou-se uma coalização de cinco bandos de cangaceiros para o ataque à próspera cidade Mossoró-RN.


Historiadores abalizados relatam que o plano para o ataque a Mossoró foi urdido na Fazenda Aurora, do coronel Isaías Arruda, o planejador e aglutinador de cangaceiros, que compartilhou o planejamento com Virgulino Ferreira Lampião e o cangaceiro Massilon Leite, de intensa atuação no Cariri cearense e Rio Grande do Norte.


Cangaceiro Massilon Leite atuou como chefe de grupo no fracassado ataque de Lampião a Mossoró/RN


Lampião e Massilon foram os encarregados da execução do ataque que para se concretizar contou com associação de mais dois cangaceiros chefes de bandos: Sabino Gomes, o Sabino das Abóboras e José Leite Santa, Jararaca.


Mão de obra especializada no crime


Sabino das Abóboras, meio irmão do coronel e coiteiro Marcolino Diniz, da região de Patos de Irerê-PB, já teria realizado razias no Pajeú pernambucano e no cariri cearense em associação com o bando de Virgulino.


O cangaceiro José Leite Santana, o Jararaca, natural de Buíque-PE, entre 1920-26 serviu ao Exército Brasileiro, baseado em unidade de Maceió; de lá, atuou em tropas para sufocar várias quarteladas do próprio Exército, como a Revolta Paulista de 1924, também com passagens pelo Rio Grande do Sul e Minas Gerais.


Ao deixar o Exército, em 1926, enveredou pelo crime, tornando-se chefe de bando e de sub-grupo de cangaceiros sob o comando de Virgulino Ferreira.


Massilon Leite, provavelmente nascido em Timbaúba-PE, foi almocreve bem sucedido, transportando mercadorias entre Mossoró e Pombal, na Paraíba. De estatura baixa, bom dançarino e socialmente bem relacionado pelos municípios onde comercializava.


Sua vida desandou quando entrou em conflito com um soldado de polícia numa disputa por mulher, em Belém do Brejo do Cruz. A moça namorava com Massilon, mas era assediada pelo policial, que passou a perseguir o almocreve, na cobrança de impostos, revistas constantes em sua tropa de burros.


Num desses entreveros com esse soldado de polícia, Massilon matou o rival em luta com facas. Buscou proteção e conseguiu com o coronel Joaquim Quincas Saldanha, que também financiava bandos de jagunços, depois tornou-se cangaceiro e chefe de bando próprio, mas atuando em concluiu com o também coronel Isaías Arruda.


Assim, cerca de 80 cangaceiros formavam essa coalização de bandos para o ataque de Mossoró, sob os comandos de Virulino e Massilon, que se desentenderam antes mesmo do ataque à cidade.


Conhecedor da região e de Mossoró, Massilon orientou o grupo a atacar a cidade por um flanco, mas Lampião deu outra orientação, atacando a cidade a partir do cemitério.


O ataque que seria de surpresa, tornou-se praticamente anunciado, porque mesmo antes do ataque a Mossoró, o próprio Virgulino antecipara sua intenções com bilhetes de extorsão, sequestros e saques em pequenas comunidades, o que possibilitou aos líderes de Mossoró organizarem-se para o ataque e preparar a defesa.


No pipocar dos primeiros tiros, o cangaceiro Colchete, do grupo de Massilon, tentou avançar sobre uma barricada de algodão e foi morto por um tiro certeiro na cabeça. Jararaca, ao ver a cena, correu na direção do companheiro e foi atingido por um tiro no peito e, apesar de sua experiência em combate, Jaraca acabou capturado, o ataque frustrado diante da intensa fuzilaria e resistência dos homens da cidade bem posicionados e municiados.

A jornada de Lampião e seu bando até Mossoró deixava para trás famílias saqueadas, o que chamou a atenção do sargento Clementino Quelé e sua volante paraibana, que caiu no rastro, chegando a Mossoró algumas horas depois do ataque.

Tornou-se lendário o diálogo entre Quelé, também ex-cangaceiro de Lampião e Jararaca, pois ambos se conheceram quando chefiavam sub-grupos de cangaceiros de Virgulino.


Quelé evitou entrar na cadeia onde Jararaca, padecia de grave ferimento, permanecendo do lado de fora da cela, orientando o interrogatório do seu ex-comparsa de cangaço.


- Apareça aí, Quelé, seu Tamanduá Vermelho; eu te conheço, seja homem, venha me encarar aqui, não mande seus macacos.

Quelé sequer respondia aos impropérios de Jacaraca, tinha pressa em seguir na perseguição implacável que movia contra Lampião.

Jararaca ficou para trás, e alta hora da noite, de uma quinta para a sexta feira, levaram Jararaca para o cemitério, onde já estava aberta sua cova, relatou uma das testemunhas do calvário do cangaceiro.


Enterrado praticamente vivo


Pressentindo a armação, Jararaca disse:


“Sei que vou morrer. Vão ver como morre um cangaceiro”.


O capitão Abdon Nunes, que comandava a polícia em Mossoró, relatou dias depois os momentos finais do capanga de Lampião:


“Foi-lhe dada uma coronhada e uma punhalada mortal. O bandido deu um grande urro e caiu na cova, empurrado. Os soldados cobriram-lhe o corpo com areia”.


Pelas circunstâncias da morte, o túmulo de Jararaca virou local de romaria. Até hoje as pessoas rezam e fazem promessas com pedidos ao cangaceiro executado.


Sabino das Abóboras encontrou o seu destino na fazenda da Piçarra; baleado, foi socorrido pelos companheiros, diante da gravidade do ferimento e agonizante, Sabino pediu para ser morto ao seu compadre e chefe Virgulino Ferreira, que se recusou a abreviar o sofrimento do amigo. Coube a cangaceiro mergulhão dar o tiro de misericórdia.


Massilon Leite, o cangaceiro que usava bussola para se orientar, vestia-se de forma elegante e sabia dirigir automóvel morreu em março de 1928, mesmo ano em que Lampião deixou para trás Pernambuco, Paraíba e Ceará.


Sua morte ocorreu no sítio Granjeiro, município de Caxias, consequência de um “sucesso”. Brincava com arma de fogo com um amigo chamado Vicente Preto quando a arma disparou.


Virgulino Ferreira viria a morrer um década depois, em jukho de 1938, cercado por três volantes sob o comando do tenente João Bezerra.


Lampião foi o primeiro a ser atingido e tombar por um tiro de ponto certeiro disparado pelo soldado Sebastião Vieira Sandes, o soldado Santo, que também já fora amigo de Lampião e Maria Bonita, e que atendia pelo nome de Galeguinho, quando atuava como coiteiro e costureiro em peças de couro para o bando.


Fonte: com relatos de José Tavares, historiador.


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