Como um garoto portador de recado para a Volante tornou-se cangaceiro

Por João Costa


Ser vivente nenhum, mesmo condenado à morte, não pode perder a esperança do milagre de que algo aconteça e sua sentença seja cancelada, mesmo estando à beira da sua execução; e renascido, ganhe como nome o motivo da sua própria sentença.


Cel. Audálio Tenório(C) célebre coiteiro de Lampião, de terno branco ao lado de um militar


Reza a lenda que Virgulino Ferreira Lampião, em 1937, surgiu com seu bando em terras de Águas Belas, Pernambuco, onde foi recebido pelo coronel latifundiário, Audálio Tenório, coiteiro poderoso do “Rei do Cangaço”.


Em meio à cabroeira esbaforida pelo cansaço e fome, estava um jovem rapaz praticamente adolescente, amarrado para ser morto. E aquele olhar de resignação do jovem – sem direito à apelação - despertou no coronel Audálio curiosidade indisfarçável misturada à compaixão.


- Rapaz o que houve e você de onde é? Indagou Audálio ao condenado à morte.


- “Sou filho de Zé Bastos, da serra do Militão; Pai conhece o senhor e Dona Das Dores. O que se passou, não nego, é que eu fui apanhado e preso com um bilhete para o tenente Manuel Fulô, em Águas Belas, costurado no punho da minha camisa; não sabia que ele era da volante”, disse o rapaz.


O coronel Audálio de fato conhecia a família do rapaz e compreendeu a máxima popular que “portador não merece pancada” e matar o condutor involuntário de má notícia era uma sentença que podia ser remediada; assim resolveu sondar os ânimos de Virgulino, Senhor da Guerra, que em situações idênticas se mostrava implacável e cruel.


Quando o bando se preparava para levantar acampamento, Audálio fez intercessão pela vida do rapaz.


- Audálio, você está estragando meu comando com esse seu coração apiedado, mas vou ver o que posso fazer por você, foi à resposta de Lampião.

Esse fato ocorreu em janeiro de 1937, quando o ano estava prestes a findar, de novo, Lampião e seu bando estão de volta ao coito e sob a proteção de Audálio Tenório.


Antes de Levantar acampamento, ao sinal de ordem de Lampião, um jovem cangaceiro se aproxima de Audálio e lhe beija a mão demoradamente.


- Devo ao senhor a minha vida; sou o filho de Zé Bastos, disse o bandoleiro neófito.


Feita a revelação o jovem cangaceiro se retirou; quando o bando começou a tomar distancia, Audálio indagou:


- Que vulgo o menino pegou?


- “BILHETE”, respondeu Lampião.


Foto do bando de Lampião, em 1928, ao chegar em Ribeira do Pombal, território da Bahia


No cangaço, as alcunhas tinham casualidade, mesmo as mais ingênuas, como Bem-Te-Vi, Juriti, Azulão, Beija-Flôr, ou circunstanciais como Meia-Noite, Vinte e Cinco, referências a lugares de origem como Sabino das Abóboras, da fazenda homônima.


Mas havia àqueles, que apelidos não “colavam”, devido à forte personalidade do bandoleiro, como Luiz Pedro, conhecido por alguns como Salamanta, Antônio Ferreira, o Esperança.


E houve um cangaceiro de nome Domingos Gregório que recebeu a imaginativa alcunha de uma estrela cadente, a poderosa alcunha de Deus-Te-Guie.


Segundo o dicionário do Aurélio Buarque de Holanda, Deus Te Guie é o mesmo que: dirija, encaminhe, aconselhe, ensine, ampare, conduza, oriente, proteja.


Fonte de consulta: Estrelas de Couro – A Estética do Cangaço, de Frederico Pernambucano de Mello.


Cangaceiros de Lampião de A à Z, de Bismarck Martins.


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