Concatenamento dos acontecimentos que resultaram no fim do cangaço lampiônico, em 1938

Por João Costa


Provavelmente Virgulino Ferreira Lampião, em julho de 1938, tivesse alguma noção de que o cangaço estaria no fim, daí os indícios de que estaria tomando providências e fazendo arranjos para arribar e seguir o caminho do seu ex-chefe Sinhô Pereira, numa articulação secreta com o seu protetor e amigo, coronel Joaquim Resende, então prefeito de Pão de Açúcar, que também agia e conluio com comandantes militares da região.


Soldados da volante do tenente João Bezerra, que atacou a Grota de Angico, pondo fim ao cangaço


Relatos também indicam que o tenente João Bezerra estaria a par desses arranjos, se comportando no “fio da navalha”, sob pressão dos comandantes, pois não era segredo de ninguém as afinidades de sua família com Lampião, ele mesmo um parceiro de jogo de cartas com Virgulino na fazenda Emendadas, de Pão de Açúcar, lado alagoano, ou até mesmo em Angico.


Poderia até haver conspirata entre coronéis e chefes de polícia para permitir a fuga de Lampião para Minas Gerais, mas ter os integrantes da volantes como coadjuvantes era impossível, porque até o mundo mineral tinha conhecimento que o soldado de volante, da tropa ou contratado, estava mesmo era de olho no suposto tesouro de Lampião, nos despojos de guerra.

O Estado Novo estava disposto a acabar com o cangaço depois do filme e das fotos de Benjamim Abraão, que representavam uma humilhação e desmoralização do regime, daí o recrudescimento da repressão, as ofertas de recompensas, promoções imediatas a soldados por cabeças de cangaceiros entregues numa bandeja, tal como fez Salomé com o profeta João Batista.


Soldado Sandes(o atirador) que matou Virgulino Ferreira da Silva(D) no ataque a Angico


O último ataque de envergadura de Lampião ocorrera no final de 1937, o “Rei do Cangaço” mesmo teria sido visto pela última vez em abril de 1938; chefes políticos locais, espécies de coiteiros tidos como importantes passaram a sofrer pressões, além do ultimato dado pelo coronel José Lucena, em Mata Grande, exigindo, num prazo de 15 dias, a cabeça de Lampião, ou a dos comandantes seus subordinados – tudo conspirava contra Lampião.


Virgulino certamente era sabedor daquilo que estava em curso. Consta que mantinha entendimentos através de cartas com Sinhô Pereira, que o havia estimulado a deixar o Nordeste, tanto assim que antes de julho de 1938, estaria abastecendo seu alforge de ouro, dinheiro e joias, ao passo em que estava em tratativas para adquirir uma metralhadora.


- Estou disposto a pagar cem contos de réis por uma dessas, incluindo boa e farta munição, teria dito Lampião no começo de julho a coiteiros.


Por outro lado, os atrativos oferecidos a coiteiros, ribeirinhos do São Francisco eram tentadores.


- Tem um bom dinheiro, além de alistamento na Polícia Militar, prometia João Bezerra por onde passava e oferta também feita a Joca Bernardo, ou Joca do Capim, um dos abordados.


João Bezerra sabia o que fazia e com quem conversava.


Outro abordado pelo tenente, foi Pedro de Cândido, coiteiro contumaz. Joca Bernardo, até então, de nada sabia, mas assuntava.


Até que, em uma visita à casa de Pedro de Cândido, baseado apenas numa conversa sobre a compra vultosa e entrega de volumosa de queijo feita por Cândido na Fazenda Novo Gosto, Joca entendeu o quebra-cabeça, porque poucos dias depois abrigaria, em sua casa, o cangaceiro Pancada que, em confiança, soltou a deixa.


- O capitão atravessou para Sergipe, revelou Pancada na conversa com Joca.

Lampião, a esta altura, vinha de uma jornada de “arrecadação” em Alagoas, em marcha acelerada, passando por Jirau do Ponciano, Lagoa de Canoa, Arapiraca, Craíba, Sertãozinho; até Buíque, em Pernambuco, para depois retornar ao coito seguro, que até então, era Angico.


De mais a mais, Lampião havia disparado, em várias direções, bilhetes extorquindo dinheiro; estava em curso a solução para os seus problemas: Minas Gerais. O destino final de muitos outros cangaceiros, como Sinhô Pereira, Luiz Padre, Coqueiro e Vicente de Marina, o nego Véio; Joaquim Tomás, o Mergulhão, Cacheado e Deodato.


Relatos dão conta de uma suposta reunião de Virgulino com os chefes dos subgrupos exatamente para comunicar seu desligamento; ou por outra, convencer alguns chefes a segui-lo; um número impressionante de 42 cangaceiros e sete mulheres, divididos em seis subgrupos estavam sob o comando de Lampião naquela madrugada fatídica.

Os preparativos prosseguiam, um sobrinho de Lampião estava de chegada e para ele uma roupa adequada e armas foram providenciadas.


Enquanto isso, não muito distante dali, do outro lado do São Francisco, em Piranhas(AL), Joca do Capim, de posse de informação privilegiada está ávido pela possibilidade real de fazer dinheiro, porque na guerra, em todos os tempos da história, toda e qualquer delação espontânea é premiada.


Em fevereiro de 1938, cinco meses antes dos acontecimentos de Angico, um certo cabo de polícia chamado Aniceto foi promovido a sargento e chefe de volante, após matar e cortar a cabeça do cangaceiro Pontaria num tiroteio em Mata Grande; seguindo depois em marcha forçada numa caçada feroz ao cangaceiro Português e seu grupo até Entremontes, lado Alagoano do São Francisco.


O destino arrasta Aniceto Rodrigues até o outro lado do rio, movido por um único e escasso motivo: encontrar-se com a mulher amada – sua noiva, prima da esposa de José Bezerra.


Aniceto já farejava a presença de Lampião pelas redondezas, quando é procurado e surpreendido por Joca Bernardo, no início da noite do dia 26.


- Que é que há, Joca, para você estar por aqui a uma hora dessas? Indagou Aniceto ao coiteiro.


- Não há nada, e havendo sempre, respondeu Joca, na dubiedade comum aos delatores natos.


- Quero falar com o tenente João Bezerra, adiantou Joca.


- O tenente João Bezerra não se encontra na cidade. De que se trata? Foi a pergunta objetiva feita por Aniceto.


- Os senhores estão enganados, ele, Lampião, está enganando todo mundo, está aqui, bem pertinho, disse Joca Bernardo ao sargento Aniceto, lembrando simultaneamente a possibilidade de recompensa financeira que o próprio tenente Bezerra anunciava e prometia a coiteiros por onde passava.


Pedro de Cândido(de roupa preta) o delator e volantes acompanham o repórter Melchiades da Rocha(de terno)


Não tinha mais como voltar atrás, porque o sargento Aniceto assumira postura dura diante daquelas informações, ainda imprecisas.


- Fale, desembuche o que sabe, disparou Aniceto.


- “Apertem Pedro de Cândido, mas apertem mesmo, que ele bota a volante em cima do coito do Capitão Lampião”. E acrescentou Joca Bernardo.


- Pedro de Cândido está comprando tudo nos últimos dias por grosa e arroba; tenho certeza que é para o bando, aperte ele.

O final sobre o que aconteceu até chegada das três volantes a Angico e o que lá aconteceu, todo mundo já sabe.


Mas poucos sabem que a delação de Joca Bernardo lhe rendeu apenas um conto e cem mil-réis, dos cinco prometidos pelo tenente João Bezerra, e a patente de sargento da polícia de Alagoas, que ele mesmo acabou recusando.


- Porque sargento ganha pouco e não tem paradeiro, Justificou Joca.


Denunciado por Joca Bernardo e diante de espancamentos e ameaças de morte, Pedro de Cândido levou as volantes até Angico, recebendo em troca a oportunidade de continuar vivo e ser agraciado também um conto e cem mil-réis, além da patente de cabo.


Fonte. Apagando Lampião – Vida e Morte do Rei do Cangaço, de Frederico Pernambucano de Mello.

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