Conspiração no cangaço: matar Canário era missão secreta de Penedinho

Atualizado: 6 de jun.

Por João Costa


Na história dos conflitos humanos há uma lição irrefutável: os convertidos são os mais perigosos e letais porque a dissimulação é a sua principal arma psicológica – e isso independe do grau de instrução, mas da convicção do propósito a que se comprometeu o convertido.


Cangaceira Adília ao lado do seu companheiro Canário; foto do acervo de Benjamim Abraão


Na Arte da Guerra, de Sun Tzu, escrito 2.600 A.C. são descritos cinco categorias de espiões, e o um dos tipos de agentes secretos é o “espião vivo” – aquele que retorna para relatar ou prestar contas ao seu chefe ou líder para receber a recompensa acertada.


Foi o caso do cangaceiro Teodomiro dos Santos, vulgo Penedinho, natural de Poço Redondo(SE), primo legítimo da cangaceira Adília, companheira do cangaceiro e subchefe de grupo Bernardino Rocha, vulgo Canário.


Penedinho entrou para o cangaço no início do ano de 1938, transitando ora sob a chefia de Zé Sereno, ora sob o comando de Português e até mesmo liderado por Canáriio, seu “parente”.


Teodomiro dos Santos ou Teodomiro de Calu, ingressou no cangaço com uma missão: matar o “Canário”.


Missão esta dada a Penedinho pelo coronel Antônio Caixeiro, pai do interventor do estado Sergipe, capitão-médico do Exército Eronildes de Carvalho, pai e filho, coiteiros e amigos de confiança de Virgulino Ferreira da Silva, Lampião.

Reza a lenda que certa feita, em 1938, o cangaceiro Canário enviou um bilhete ao coronel Antônio Caixeiro exigindo uma determinada importância em dinheiro ou joias, a ser enviada pelo portador.


- Volte lá e diga ao Canário que os outros que já são velhos no cangaço não me pedem dinheiro, agora ele que é novo no ramo vem me amolar! Foi à resposta de Antônio Caixeiro.


O mensageiro voltou até o bando de Canário e reportou ipsis litteris a resposta dada pelo famoso coronel.


Canário ouviu em silêncio o relato do seu mensageiro para depois despachá-lo de volta ao coronel, rico fazendeiro, chefe político e coiteiro famoso de cangaceiros, com outro recado, desta feita tremendamente ameaçador:


-“Se o senhor não mandar o dinheiro, o Canário vai desapropriar a sua fazenda Santa Filomena”. Simplesmente a melhor propriedade do coronel Antônio Caixeira, rica em recursos naturais e rebanhos de animais.


Ciente da ameaça o coronel Antônio Caixeiro, após a saída do mensageiro, que partiu sem um tostão, urdiu um plano audacioso: convocou um dos seus cabras de extrema confiança, trancou-se com ele num quarto do casarão da fazenda e detalhou seu plano seguido de ordens expressas.


“Você vai até o grupo de Lampíão como meu enviado e se apresente para ingressar no bando. Ganhe a confiança deles, encontre uma oportunidade e dê cabo à vida de Canário – o dinheiro que ele tem é muito, será todo seu, mais recompensa maior que lhe darei”.


Ordem dada é ordem cumprida.


Penedinho se apresentou no coito de Vurgulino, apetrechado de fuzil, punhal e revólver, suas “ferramentas de trabalho” quando a serviço do famoso coronel sergipano.


Virgulino Ferreira ouviu as razões de Teodomiro de Salu para entrar no bando, analisou-o de cima a baixo, e com sua voz sussurrante tomou a surpreendente decisão.


-“Não. No meu grupo não posso lhe aceitar”.


Mas a sorte acompanhava Teodomiro dos Santos, pois naquele exato momento, Canário que acompanhara toda a conversa com Virgulino Ferreira, interviu.


“Capitão, o menino fica comigo, no meu grupo”. Afinal, o cabra era primo da sua compaheira, tido praticamente como parente e ali mesmo foi batizado com alcunha de Penedinho.


O tempo passou. Os entreveros com as volantes, as razias do bando se sucediam e a “oportunidade” para Teodomiro cumprir a sua missão não surgia.


Certo dia, na fatídica madrugada de 28 de julho de 1938, o bando de Canário, acoitado no Cururipe, despertou com um tiroteio medonho para o lado do Rio São Francisco, e o próprio Canário, bandido experiente e calejado, já despertou gritando:

“Valha-me Nossa Senhora! Lá mataram Lampião”!


Bando de Corisco, fotografado por Benjamim Abraão, em 1936, acervo da Abba Filmes


Pressentimento este confirmado no mesmo dia da tragédia de Angico. Todos os cangaceiros dos subgrupos do bando de Lampião ficaram desnorteados, agora sem o chefe supremo, o provedor de armas, munição, mantimentos e planos.


Mas no dia 12 de agosto a tão esperada “oportunidade” por Penedinho surgiu praticamente do nada. O bando de Canário naquele momento formado por Penedinho, Adília e uma outra mulher; Sabiá, Delicado, Xexéu, Quina-Quina e Pitombeira estava num coito seguro, quando o chefe comunicou:


“Penedinho, você vem comigo, pois vamos buscar algumas encomendas”.


Os dois empreenderam a caminhada, pararam para comer e a dupla sentou á sombra de uma árvore. Canário relaxou a guarda, preparando seu almoço: farinha de mandioca com açúcar numa cuia e com o seu sexto sentido atilado percebeu Penedinho a manusear o mosquetão.


Bernardino Rocha, vulgo Canário, fotografado pelo libanês Benjamim Abraão, em 1936


- O que você está fazendo? Perguntou Canário.


Limpando a arma, Respondeu Penedinho.


Ato contínuo disparou o mosquetão à queima-roupa no peito de Canário, tiro efetuado tão de perto que o cangaceiro foi jogado a uns dois metros de distância.


Calmamente Penedinho degolou o chefe; percebendo a chegada do cachorro do bando intuiu que os demais cangaceiros estavam se aproximando e não esperou tempo ruim: abandonou ao local levando a cabeça de Canário, pendurada pelos cabelos compridos do facínora.


Já na presença Antônio Caixeira, Penedinho prestou contas; recebeu sua recompensa; o coronel chamou à fazenda o então sargento José Osório de Farias, chefe de volante que se tornaria famoso pelo nome de Tenente Zé Rufino, a quem o cangaceiro entregou a cabeça de Canário, recebendo em troca como bônus à anistia.


Fontes de consulta: “Lampião – As Mulheres e o Cangaço”, de Antônio Amaury de Araújo. “Cangaceiros de Lampião de A à Z”, de Bismarck Martins de Oliveira.